Luiz Geraldo Mazza
Pelo jeito esses protocolos das montadoras devem ter informes absconsos, subjacentes, conotações esotéricas tão assustadoras quanto os protocolos dos sete sábios do Sião. Quem está gerando essa aura de mistério em cima do assunto é o governo que nutre a oposição com suas meias explicações (como andam as finanças estaduais, é verdade que não estamos pagando contrapartida dos empréstimos e por isso nos afundamos nas taxas de permanência?) e faz do assunto o tema certo da campanha sucessória.
Mais cedo ou mais tarde o protocolo será exibido em função da subcomissão especial junto à Comissão de Assuntos Econômicos que o exigirá de todos. Já perdemos um ano nesta resistência e percebemos que o Senado fechou questão em cima do assunto, pouco lhe importando que se trate de clara discriminação contra o Paraná, pois anteontem, em ritmo relâmpago, foi aprovado empréstimo de US$ 100 milhões ao Rio Grande do Sul, embora esta unidade tenha feito concessões à GM combatidas hoje em CPI e em ações populares e figure na fila da UTI da rolagem da dívida de R$ 7 bilhões. Além disso um pedido de cobertura a 98% dos títulos por vencer de São Paulo (quebrado, falido, com recente rolagem de R$ 50 bilhões) foi aprovado na CAE e em seguida no plenário em poucos minutos, embora se tratasse de uma operação abrangendo R$ 440 milhões.
Está mais do que nítido que não é a austeridade que move o Senado e a CAE e sim claro propósito de manipulação política. Encurralado, o Paraná parece não ter alternativa que não seja a de abrir de vez os protocolos, a não ser que o seu governador assuma o comando das operações e transmita aos seus liderados e à comunidade paranaense algo mais do que perplexidade.
Os senadores Roberto Requião e Osmar Dias sabem o ônus que estão assumindo e por isso também têm plena consciência de como vão explorar os furos, muitos deles já visíveis, da atração da Renault. O governo deveria ter se preparado para essa batalha desde o início e ela só não ganhou dimensão intestina porque o Legislativo é facilmente controlável desde que em concordância com o chefe da corporação, Aníbal Khury.
Agora a bancada federal promete intervir na batalha, o que, aliás, já deveria ter feito há muito tempo. É preciso também ir aos fronts indicados como Banco Central, ministérios, enfim a qualquer instância.
Espanta-me o fato de os prefeitos, os agricultores, os agrupamentos humanos prejudicados com o bloqueio não se manifestarem ou o fazerem de forma tímida e assustada. Até bravata vale como essa do Joni Varisco em colher assinaturas de mais de dois milhões de paranaenses para orientar uma ação que não terá a menor eficácia no campo jurídico, mas se bem explorada pode render frutos no campo político e psicossocial. O que não pode continuar é o que está sendo feito e que até aqui apenas enche a bola justamente de Requião que, de vilão, passa - na perspectiva de muitos, já que o governo nada esclarece -, a ser olhado como um justiceiro. Em política, tal qual na vida real, nem sempre o mocinho leva a melhor. Ao contrário, quase sempre dança. Vide o líder sem terra Rainha.
BIZARRICE Na audiência de Celso Pitta, prefeito de São Paulo, na CPI dos Precatórios houve um momento curioso quando, explicando suas providências relativas a bancos confiáveis para a venda dos títulos teria listado o Banestado. Ao tempo do seu governo, disse Pitta a Requião, sem saber que quem comandava o banco era o primo-irmão Heitor Walace.
Quando da ida de Murta Ramalho à CPI, Requião teve que ouvir aquela de haver adquirido, também no mercado secundário, títulos de Goiás.
CRIPTO-FEDERALISMO O desmonte, comandado pela União, vai acabar a federação brasileira: o Banco Central está pretendendo dar apenas R$ 4 milhões às agências de fomento estaduais, o que levaria a uma capitalização máxima de R$ 50 milhões, volume de um ridículo atroz. Quer dizer: enxugam o sistema, privatizam bancos estaduais e dão essa merreca para desenvolvimento. Quer ainda liquidar instituições como o BRDE que, com um patrimônio de R$ 500 milhões, é capaz de capitalizar-se até R$ 6,5 bilhões.
O Brasil sempre foi assim: declara-se república federativa e na prática opera como república unitária. Com um monarca no poder como agora é pior ainda.
OPERETA Um governo que leva a sério conselheiros que lembram os personagens de Eça Queiroz, o Acácio ou o Pacheco, como se fossem luminares quando são mestres do lugar comum e da obviedade, acaba realmente transformando o bobo da corte em preceptor. Dá para imaginar um filósofo com os guizos anunciando a sua passagem entre facécias e cambotes.
FOLCLORE O governo cercou o Cândido Gomes Chagas porque atacava o prefeito Lerner: não dava publicidade e estimulava os que o faziam a correr da raia. Como um dos elementos-chave dessa resistência era o Karlos Rischbieter, o Candinho pegou a foto da irmã daquele executivo em plena Alemanha numa saudação nazista retirada da foto de um livro sobre o germanismo no Brasil e mandou uma xeróx a quem o vetava e publicou-a na Paraná em Páginas. E dava aquela risadinha sinistra, marca registrada do jornalista.
CROMO Sub-ser vivo ou ser sub-vivo? Subversivo. No verso reverso a saída pode ser a ditada pela vida. Infelizmente, a ficção trai e subtrai a realidade.
AFORÍSTICO Na situação-limite é que o homem cresce ou se abastarda de vez.





