Luiz Geraldo Mazza
O FMI sem sotaque
O Fundo Monetário Internacional, o execrado FMI, pode ser presidido por um brasileiro de Rolândia, Caio Koch-Weser, vice-ministro das Finanças da Alemanha. Isso pode despertar uma ponta de orgulho aos paranaenses e, em especial, aos pés vermelhos do setentrião.
Anteontem, Koch-Weser deu entrevista à CBN de Curitiba, depois reproduzida em rede nacional, e uma das coisas que mais surpreenderam não diz respeito à qualquer questão doutrinária, mas a maneira como fala português, ainda que vivendo na Europa e dominando outros idiomas, com as quais se expressa em máxima frequência, sem aquela amarra (pior do que a de caqui verde) terrível do sotaque.
Um Roberto Mangabeira Unger, talvez um dos nossos mais credenciados cientistas políticos, de tanto viver nos Estados Unidos e nos meios acadêmicos tem uma fala arrastada que lembra, e muito, o caso do professor Júlio Mazzei, que era do Santos e se deslocou aos States, no arranque de Pelé, e mais parecia um ianque a tentar a língua lusa, última flor do Lácio. Por exemplo, o secretário de Lerner, para a área de Assuntos Estratégicos, o Alex Beltrão, genuíno autor da virada estrutural do Paraná com Ney Braga, anos 60, viveu décadas na Inglaterra e não foi afetado. Já o Karlos Rischbieter falava como estrangeiro, o que faz até hoje, antes mesmo de deixar Blumenau.
O caso extremo de absorção de linguagem estrangeira é o do goleiro Manga, brasileiro, um dos maiores que o Uruguai já conheceu, e que, por ter vivido bastante tempo em Montevidéu, armou confusão entre o castelhano e o português que transtornava, a um só tempo, ele próprio e os interlocutores.
O fato não autoriza a galinhagem habitual da nossa elite, ligada em oba-oba, o que quase sempre é constrangedor, para festejar a coincidência geográfica do nascimento como se isso fosse suficiente para que ele agisse e isso, de certa forma, está em nossa cabeça, introjeção que vem do período colonial como um patriarca e protetor, tal como se trata qualquer prefeito, governador ou presidente da República na Terra Brasílis. Saber, porém, que o entenderemos já é o suficiente para que não se o escale como alvo de torta de creme.
BIZARRICE
O problema não é bem o pitbull, mas a cara de quem o conduz, que é de muita ferocidade
AXIOMA Deputado-pastor Takayama se queixa de que o desfile carnavalesco será nas proximidades do seu templo. Ora não há nada mais parecido com uma procissão do que o Carnaval curitibano. A procissão é mais animada. Pelo menos o pessoal canta.
GLOSA Alvaro Dias virou nacionaleiro: acha que se a Petrobras vender 31,72% de suas ações ordinárias (18,52% do seu capital) estará aberto o processo de privatização da estatal. Na Telepar ele ajudou a transição para a fase privada e acelerou o processo de degradação da empresa com as terceirizações.
EPIGRAMA Por falar em privatização, dá para imaginar a Sanepar, em breve, a ofertar água com sabor tutifruti. Aí vai sair no anúncio: Você que se queixava do sabor Qboa, bebe água agora com jeito de Kibon!
ALEGORIA No Guarituba, parte legalizada da invasão, o governo deu um suposto serviço de esgoto (e que cobra): consiste no uso de três cavas como lagoas de oxidação, um fedentina homérica, drenada para um riozinho. É o símbolo da atual gestão: band-aid, de má qualidade, em lugar da cirurgia.
SPRAY Assim que as novas tarifas do pedágio forem aplicadas, especialistas em pesquisas entendem que pouco a pouco os fatores de preocupação dominantes como falta de segurança e de emprego serão superados pelo mata-burro nas estradas. - O tema, por sua capilaridade, vai dominar no debate eleitoral. Em Londrina, é claro, dominará a corrupção. Não na eleição, mas em frequência no debate. - Hoje, reunião da 3ª Turma do Tribunal Regional de Porto Alegre, a exegese (interpretação) final do alcance da decisão sobre o pedágio. Broncas sobre o assunto são nacionais e as falhas contratuais, no Paraná, aberrantes. Detalhe: deram-se antes da presença do Heinz Herwig no setor de Transportes, já que Deni Schwartz é que tratou, de forma pioneira, do caso. O engenheiro entendia do riscado por ter tocado uma pequena empreiteira e por exercício profissional junto a DM-Habitação, na qual trabalhava junto com o Euclides Scalco, pois o dono, Darci Fantin, é originário do Sudoeste. - Cada vez mais político do que técnico, Lerner marcou para as 11 horas de hoje a entrega de dinheiro (prometido desde o ano passado) para a restauração do prédio da UPE no próprio local. Na mesma hora está marcada a manifestação de estudantes de Arquitetura contra a violação urbanística da dupla Lerner-Cássio no Centro Cívico. - De vagar com o andor: privatização do Banespa, novamente emperrada, razão para que só se venda o Banestado, depois de efetivamente saneado. Como foi saqueado e nem os mais de R$ 4 bilhões do Banco Central o salvaram, é preciso evitar novo prejuízo, o que soaria como deboche. - A paranóia está funcionando: tem gente deste governo, é claro (quem mais haveria de ser?), na visão conspiratória-bajulatória, enxergando nas publicações do Estadão sobre a cloaca londrinense algo ligado à guerra fiscal e em forma de retaliação dos paulistas. Até a malandragem está ficando sem imaginação.
FOLCLORE Mário Covas foi ativo corretor de café em Londrina. Morava no Hotel Ferrareto e dividia-se entre a cidade e Santos. Seu filho, Mário Covas Júnior era deputado federal, hoje governador paulista. Em dezembro de 68 Covas pai, em Londrina, sabe da cassação e da prisão do filho. Daí a vinculação afetiva de Covas, governador, com Londrina. (Esse é um registro do Hélio Duque e eu gostaria de sugerir que essas conexões fossem feitas para uma história humana da cidade. Lembraria que o pai da deputada Maria Conceição Tavares também foi uma figura importante da Londrina pioneira).
CROMO No meio do caminho/ há uma laranja/ há uma laranja/ no meio do caminho/ E agora, José?/ se minha mente embaralha/ não sei se falo/ da pedra de Drummond/ ou da laranja de Ataulfo/ da arte boa, faço a falha.
AFORÍSTICO O cartaz do PMDB, com a cara do Requião e o aviso ajude a oposição a defender você! é ato falho. Ninguém serve mais à oposição do que este governo. Requião não o superará.





