Luiz Geraldo Mazza
Outro pacau de bico
Na relação dos que estão acuados (no rigor filológico é estar com o traseiro na parede) não inclui o Legislativo estadual, atingido seriamente pelas ações e palavras do indiciado Eduardo Alonso, ex-diretor da Comurb de Londrina, que acusou os bravos parlamentares de terem levado uma grana (R$ 3,5 milhões) para remover uma CPI, a da negociação Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam, e isso na vigésima-quinta hora porque já estava instalada.
O que é mais difícil entender: a CPI que, montada febrilmente em cima de uma questão grave, e, num passe de mágica, removida, ou essa denúncia de alguém que se especializou nas artes de superfaturar, como ele próprio confessou, e que fica suspeito de estar, uma vez mais, multiplicando a dimensão das coisas? É lama das mais pegajosas lançada no ventilador.
Antes que interpelem os deputados, que devem essa explicação ao povo quanto às razões de um inconcebível recuo, estes se dispõem a interpelar o acusador, e certamente pela via judicial, quando o mais correto, para limpar a imagem da instituição, seria justamente restabelecer o cenário da CPI, recuo no tempo, como uma espécie de arrependimento eficaz. Provariam com isso, com máxima rapidez, que estaria afastada a hipótese de mercenarismo.
A alegação do governo de que mexer na negociação da Copel prejudicaria a privatização da empresa por desvalorizá-la não tem fundamento. As teles brasileiras foram negociadas em meio ao tiroteio das denúncias e essa paz dos cemitérios, sempre cultuada pelos governos paranaenses (todos, não apenas o de Lerner), em nada removeria as suspeitas em cima da estatal paranaense, aliás citada de uma forma nada favorável no depoimento de Alonso em sala especial da Promotoria de Investigação Criminal sob o fundamento de que estava ameaçado e carecia de proteção especial.
O Banestado também vai ser privatizado (não com a pressa desejada pelos açodados) e em meio ao pleno conhecimento das maracutaias internas e também do prejuízo operacional do último balanço. Não há como hibernar os acontecimentos ao gosto do governo, ainda mais se isso se fizer com a burla aos princípios constitucionais que tratam da legalidade e publicidade, vale dizer clareza, transparência, algo que os mal intencionados buscam sempre contornar.
GLOSA
Os que assaltam os bancos por dentro parecem ter mais sorte do que os que o fazem de fora
BIZARRICE Quando a polícia acionava as sirenes para que os sequestradores de Bocaiúva não pudessem dormir, um deles foi lá fora e com a indignação dos movimentos cívicos (cínicos?) exigiu que respeitassem a lei do silêncio. Isso é a tradução do que ocorre num país tomado pela anomia como quando um invasor de terras alega que o despejo é agressão aos direitos humanos.
AXIOMA Tanto os sequestradores quanto parte da imprensa e isso ficou claro num papo entre os dois lados acreditava que se não houvesse público nas proximidades a polícia mataria os bandidos. É a imagem da polícia, mesmo num momento de um grande e excepcional feito. Convenhamos, exagerada.
Operações como a havida ontem, e com desfecho favorável à paz social, exigem muita concentração e equilíbrio incomum, nem sempre presentes na polícia.
SILOGISMO Se Lerner fosse um militante verdadeiro da ecologia poderia sacar da lista tríplice do Ministério Público o Saint-Clair, especialista na área do meio ambiente. Como, porém, o governador ultimamente anda infringindo normas ambientais é quase certo que o ambientalista será olhado como um ecochato.
METÁFORA Londrina deu, ontem, mais uma lição de civilidade na hora da entrega do pedido de processamento em crime de responsabilidade do prefeito Belinati. Os dois grupos o das entidades cívicas e o dos defensores do prefeito fizeram demonstrações, mas a entrega do documento se deu sem incidentes.
E houve metáfora no desejo do meta-fora ou do bota-fora.
SPRAY Dois desserviços à regra da privatização: a vergonheira das teles com seu caça-níqueis de chamadas inexistentes e das não completadas e o da forte simulação dos pedágios. - Mas não é só aqui que as coisas andam estagnadas por causa das trapalhadas do governador Lerner, pois em Santa Catarina isso se repete na BR-101 (o Tribunal de Contas de lá, mais atuante, percebeu falhas no processo licitatório), na BR-470 (aquela que matou os turistas argentinos), cuja privatização se iniciou em abril de 98 (o TCE viu fajutices na fixação do valor do pedágio) e na BR-280 a classe produtora de Jaraguá do Sul reagiu ao valor das taxas. - Como se percebe, falta normatização nacional sobre o tema. Sabe-se que o Estado quebrou, que a saída pelo pedágio é uma boa, desde que assentada em parâmetros decentes. - A concessão da BR-280 não chegou a ser firmada em contrato, razão pela qual o governador Espiridião Amin poderia autorizar a devolução da via ao governo federal, o que já se pensou no caso do Paraná só que aqui há compromissos firmados. - O clima no oficialismo estadual é no sentido de que com a decisão judicial tudo se resolve. Manifestações em praças de pedágio e obstrução de rodovias serão comuns, ainda mais com o clima eleitoral. - Semanário Hora H aprofunda, esta semana, anatomia do crime de Luiz Renato Crovador. Vinculações da vítima com setores da polícia vão ser, cada vez mais, aprofundados.
FOLCLORE O uísque pode dificultar o clareamento de um crime, mas ontem, lá em Bocaiúva do Sul, ficou provado que pode solucioná-lo. Nas mãos de um dos sequestradores um copo da bebida, guardado com mais firmeza do que a arma.
CROMO Na estrada de Bocaiúva, a repórter Carmen Murara se dirige ao front do sequestro e no meio do caminho avista um menino, de guarda-pó, mochila às costas, que leva uma rosa vermelha para a professora. Rosa de Malherbe, circunstancial, a que degrada ou a de Gertrud Stein que persiste reticente?
AFORÍSTICO Pior do que o FMI é o fim que se aproxima. Esse é um conceito, embora tenha tudo de um anagrama.





