Luiz Geraldo Mazza
A caravana a Brasília, que Requião chamou a dos sem contrato, teve o mérito de romper a inércia que se deve debitar ao governador. Mas terá rendido muito pouco se não se seguirem atos concretos de convencimento dos senadores na base do corpo a corpo, principalmente dos que integram a Comissão de Assuntos Econômicos. Como primeiro impacto, a experiência foi boa e os senadores devem ter percebido que não se justifica a discriminação que tem um claro propósito eleitoral e de campanário.
Todavia essas ações precisam ganhar consistência: argumentos sólidos e respostas na ponta da língua. Por exemplo o senador Osmar Dias diz que estamos pagando taxa de permanência ao Banco Mundial, no caso do Prosam, porque não cumprimos a contrapartida devida. Igualmente a documentação sobre o estado financeiro precisa ser mais coerente e clara do que até aqui vem sendo exposta com muitas lacunas e evasivas.
Com o estabelecimento da subcomissão incumbida de exigir os protocolos com todas as montadoras e respectivas concessões estaduais e municipais perde o sentido o veto, pois os que se encontram em situação mil vezes pior do que o Paraná (São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul), todos na UTI da rolagem das dívidas, têm sido agraciados pelo Senado com o pode para assumirem novos e pesados encargos. São Paulo naufragou com seus gigantes como o Banespa e a Cesp, fez uma rolagem de R$ 50 bilhões e teve autorização para continuar negociando. Também a Prefeitura de São Paulo, envolvida até o pescoço nos precatórios, conseguiu rolar sua dívida sem contestação.
Tivéssemos um governo com um mínimo de autoestima e os episódios não teriam esse andamento arrastado que acabaram impondo a intervenção do prefeito Cássio Taniguchi, que lancetou essa bolha de apatia e quase embotamento. Não tenhamos, porém, ilusão: Requião quer ver o protocolo, cujo conteúdo sabe perfeitamente qual é, e, haja o que houver, vai transformá-lo em bandeira eleitoral. Lerner deveria ter feito esse cálculo e montar a linha de argumentos para justificar a amplitude do raio das concessões feitas como imposição indesviável da estratégia que nos transformará em segundo pólo automotivo, causa também da inveja de alguns e da preocupação de outros com seus aspectos negativos, como o da perda de qualidade de vida, aceleração das migrações, mais demanda por serviços assistenciais, desnacionalização, perda do poder econômico regional.
Um risco não calculado acabou acontecendo: a CAE resolveu devolver documentos entregues pela comitiva e considerou que ela foi agressiva e insultuosa para com os senadores e agora só libera se vierem os protocolos. Ponto final. BIZARRICE Diante de parte da comitiva paranaense, Requião, olhar iluminado, dizia ter ouvido de Frei Damião que os que mentem (e se referia a Lerner e ao governo e aos sem contrato) vão para o inferno de cabeça pra baixo.
ALCAGUETE Quando a instituição policial aceita alcaguetes em ações oficiais está liberando o sistema a negociar com o informal e, inclusive, com o crime como tem ocorrido aqui, como se viu, várias vezes, na Furto de Veículos. O caso da morte de Rafael Zanella, num país de democracia instantânea, derrubaria a cúpula da Secretaria de Segurança. Com delegacias partilhadas com o poder político (deputados, por exemplo) não há sistema que funcione.
SPRAY Déficit de Greca na Prefeitura de Curitiba foi de R$ 88 milhões (dívida pulou de R$ 53 milhões em 93 para R$ 247 milhões em 96). A dívida neste ano, conforme estudo do vereador Gustavo Fruet, vai para R$ 310 milhões e o déficit a R$ 64 milhões.- Felizmente Taniguchi cortou o embalo faraônico da gestão anterior. Estancar o trambolho Farol do Saber já é um avanço. Ninguém aprende a ler e nem consulta livros confinado, estabulado.- Para multinacional sobra dinheiro, mas inexiste para segurar um empresário curitibano que inventou o Bio Fill e o patenteou em escala internacional. Dá para imaginar a festa que vai ser essa Paraná Investimento. Será que seus diretores virarão executivos das transnacionais? Dentro em pouco teremos, se as coisas seguirem nesse ritmo, que desprivatizar o Estado.- Kolynos mudou o nome para Sorriso. Dentro de quatro anos, em função do que decidiu o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), Curitiba passa a ser chamada Cidade Kolynos.- A ressaca no litoral mostra o quanto o governador está por fora dos problemas da orla ao propor, via computação gráfica, o canal entre Pontal e Matinhos. Ora, se não cogitamos de uma defesa permanente da infraestrutura das praias (calçadões, avenida, malha urbana) e não sabemos como preservar a Ilha do Mel a troco de que se imagina um canal desses, sem o exame prévio dos fenômenos, mal estudados e pior explicados?- Já existe denúncia de privilégio em concessão a favor de empresa nos Jogos Mundiais da Natureza. Como são também da natureza humana, nada espanta.- E a Leasing como fica: há algum penhor político no caso?-
FOLCLORE O governo paranaense está tão ausente das coisas, das atitudes firmes que se de repente renunciar ninguém notará o que teria havido. Ao fundo a voz do locutor da TV Bandeirantes: Cruel. Muito cruel. E mais: Tá lá mais um
corpo estendido no chão!
CROMO Não se oferta a flor/ a um cutelo carrasco/ onde não existe amor/ sobeja apenas o asco/ a rosa resta ceifada/ pelo assomo selvagem/ é oferta em vermelho/ no verde da paisagem/ Mais um pouco das iluminuras de Stasiak.
AFORÍSTICO Nunca vi o Paraná tão desmoralizado como agora. A dose é exagerada.





