Luiz Geraldo Mazza
Desconfiar sempre
Basta ler o Diário Oficial para perceber que a prática da caixa preta nos dias atuais é corriqueira. O direito à informação, fundamento básico da democracia, é burlado por método: várias vezes me referi à movimentação de funcionários do Tribunal de Contas em que os nomes dos beneficiários de medidas internas é substituído por senhas como número de matrícula. Pois agora, depois que se estabeleceu a jurisprudência informal, o governo adotou a mesma orientação para referências a viagens de servidores, secretários e aspones. Aliás, ninguém viaja mais do que o governador, candidato ao Livro dos Recordes na área.
E é este governo que ludibria sistematicamente o povo paranaense, como se viu nas tramóias que ocultou no Banestado, a tal ponto de promover a secretário o autor dos desvios da Leasing, que tentou sugerir que havia limpidez na maxi-sacanagem do pedágio, apontada no lance dos Anéis da Integração como obra maior, quando o próprio governador cuidou de desmoralizar tudo ao baixar em 50% o preço das tarifas para não ser molestado eleitoralmente.
Supõe-se que tenha cercado essa questão de todos os cuidados, a beneficiá-lo com a presunção da reta intenção, para não comprometê-la com qualquer sinal mínimo de suspeição, e, portanto, deveria ter conhecimento do nível de remuneração dos consórcios para reduzir o preço ao meio, ainda que com a tal alteração dos cronogramas de obras e serviços, total ou parcialmente.
Um mínimo de resistência aos abusos foi suficiente para levar a população, não mais apenas os interessados do setor de transportes, a organizar-se para defender seus interesses. Acontece que os mais articulados, econômica e politicamente, como a Federação dos Transportes e da Agricultura, seriam as únicas com voz e poder de pressão. O Fórum de Londrina devolveu à sociedade de um modo geral, e não apenas aos agentes econômicos que com maior frequência se servem das rodovias, o direito de estrilar, opinar e devassar planilhas.
A um estilo de poder que faz da linguagem cifrada uma forma de comunicação é indispensável atitudes como a de Londrina e que, espera-se, se repitam e se tornem ainda mais eficazes no seminário do dia 18 em Curitiba.
GLOSA
Rubinho Ferreira, lá de Guaratuba, onde toca hotel do Joel Malucelli, sugere emenda ao projeto de Neivo Beraldin que deseja passar à jurisdição de Curitiba parte de Pinhais e Almirante Tamandaré. Para compensar perdas, Curitiba ficaria com Araucária (Distrito Industrial e Refinaria da Petrobrás) e São José dos Pinhais (aeroporto e montadoras)
BIZARRICE
O relógio com a contagem regressiva dos 500 anos, promoção da Globo em todo o País (em Brasília na Esplanada dos Ministérios, em Curitiba na Praça Rui Barbosa), registra a data de saída de Rafael Greca do Ministério, segundo a previsão do senador Antonio Carlos Magalhães.
A campanha contra Greca nem sempre se mantém nos limites do razoável: a nota da IstoÉ de que ele dormiria com o motorista é jornalismo marron e a da Época que se refere a ida do ministro a um spa porque não exergaria o próprio bingo por causa da barriga é também de uma grosseria exemplar. Preocupar-se com o bingolim do ministro é frescura ostensiva.
AXIOMA Como o PPS Partido Popular Socialite teve que diligenciar para levar um homicida (matador de Miguel Siqueira Donha) a apresentar-se à polícia pode-se chegar à conclusão de que outros grêmios partidários devam fazer o mesmo, já que não há muita confiança na Secretaria de Segurança. Quem sabe não é por aí que se descobrirá quais foram os vinte encapuzados que mataram um preso no interior da Delegacia de Furtos de Veículos e como se deu aquele atentado contra o próprio Cândido Martins de Oliveira na frente de sua residência?
Partidos: uni-vos na boa causa! Botar perdigueiros na rua é a ordem.
CURTO-CIRCUITO Pelo jeito Roberto e Eduardo Requião caminham por vias diversas. Ontem, junto com o pessoal do PPB, Edu garantiu que o mano senador não será candidato à prefeitura da capital e que ele, Eduardo, pode ser a solução para impedir a vitória de Taniguchi numa frente partidária que uniria PDT-PPB (o partido do pedágio barrado) e, quem sabe, o PMDB. E foram todos almoçar no Bolonha, já que o restaurante de candidatura consolidada é o Madalosso, mais barato e que pode receber milhares de pessoas.
SPRAY Ontem, à tarde, reunião do Fórum de Entidades Sindicais de Servidores Públicos com os delegados-representantes nos conselhos da ParanaPrevidência. O único otimista com o Fundo de Pensão, e por motivações não muito claras, é o governo. - Com o adiamento do enquadramento nos rigores da Lei Camata para 2002 no texto da Responsabilidade Fiscal, a coisa pode hibernar até porque no campo jurídico o governo perde todas. - Além das decisões locais, não definitivas, teremos em breve a do mérito de uma direta de inconstitucionalidade do PT e que o ministro Sepúlveda Pertence vai relatar. - Pode-se aí plagiar a manchete do Cícero Catani quando estava para ser julgada a fraude eleitoral do Paraná, caso Ferreirinha: Futuro de Requião a Sepúlveda Pertence. Seria assim: Futuro da Previdência a Sepúlveda Pertence. - Por falar em Catani, seu semanário Hora H voltou à toda corda: numa série de reportagens sobre as Abagge (Celina e Beatriz), ganhou um Prêmio Esso regional e agora está a defender a viúva do advogado Luiz Renato Crovador, Dona Vera Lúcia, que alega inocência na morte do marido. Policiais a obrigaram a ficar nua, sob o fundamento de que poderia sugerir tortura. Ficar nua na frente de estranhos também é tortura, argumentou.
FOLCLORE
Pequenas igrejas, grandes negócios , teria dito um dirigente do PPB ao saber que o pastor Oliveira se bandeara para o PSDB.
Faltou considerar que nas estruturas de poder (partidos, inclusive) as pequenas igrejinhas é que fazem os melhores negócios.
CROMO
Riscar garatujas no papel também é forma de distrair a morte. Quando tratam, mesmo em código, de amor aí é vida.
AFORÍSTICO
Se no Paraná se montasse um cenário como o de Londrina na cobrança de desvios o governo dificilmente escaparia da condenação.





