Luiz Geraldo Mazza
Londrina testada
A partir de hoje Londrina passa por um novo teste com a realização do Fórum dos Usuários das Rodovias do Paraná. No caso dos desvios municipais (Comurb, AMA), a comunidade deu um exemplo do senso de participação no processo democrático. E é de se esperar que faça algo, com a mesma competência e garra, com relação a essa modalidade de concessão do sistema rodoviário.
No caso dos chunchos municipais há muito a esclarecer, até porque se percebe a velha dissimulação de acusados transfigurados em acusadores, o que faz parte do psicodrama aplicável a essas situações. De outro lado, a generalização das denúncias, mesmo quando levadas ao Ministério Público e formalizadas, exige o redobrado zelo, ainda mais quando se percebe o entredevoramento de figuras ligadas a esquemas políticos, apoiado pelo jogo de contra-informação com as clássicas cartas anônimas.
O norte-paranaense foi engambelado no processo da venda do pedágio, com o próprio governador figurando, em jogada de marketing, algo bem do seu estilo, no comando de uma patrola, processando os atos inaugurais de uma duplicação de rodovia que ficou na promessa, mas também na lembrança do eleitor. Esse jogo para o espetáculo, apropriadíssimo à fauna política, precisa ser lembrado porque pouco depois dessa encenação o governador inviabilizou tudo ao perceber que as tarifas de tão elevadas iriam derrotá-lo, razão por que decidiu cortá-las, linearmente, ao meio e estabelecendo o impasse que até hoje prevalece.
A democracia, como alertou Norberto Bobbio, não conseguiu até hoje superar os seus entraves (o poder invisível, a supressão dos entes intermediários, a falta de educação cívica do homem comum) que a limitam, de um lado porque os próprios agentes do processo não cumprem o seu papel de engajamento e de outro porque nem todas as expectativas que gerou, desde sua gênese na cidade-Estado, na ágora dos gregos, eram viáveis. O governo sempre tentou cooptar os entes intermediários, isto é, aqueles que atuam na relação Estado-indivíduo, e no caso de Londrina, em que pesem os esforços institucionais (prefeitura, Câmara Municipal) para impedir qualquer investigação, a pressão social funcionou.
Se o governo abre mão de uma prerrogativa, sob o fundamento de que não tem como investir, o que se dá nas privatizações de todo gênero, incluindo a do pedágio, indispensável se faz que independentemente das agências reguladoras, a comunidade se organize e faça exigências radicais. Isso não autoriza a demagogia de esperar que empresários não devam ter uma retribuição, com o lucro justo, como não se deve aceitar a velha malícia, presente no caso do município, de tarifas superfaturadas como fonte de financiamento eleitoral.
DEVASSA
Se as concessionárias das rodovias investem apenas 29% do que estavam obrigadas, não podem estar sofrendo os prejuízos alegados, uma vez que tiveram apenas um corte de 50% na arrecadação. Isso é matemágica, o que sempre foi um recurso das clientelas que gravitam em torno do Estado
BIZARRICE O secretário de Segurança deu uma entrevista na Rádio CBN dizendo que em grande parte se deve os problemas da área à sensação de insegurança e não à sua falta efetiva. Até hoje não houve explicação do atentado que teria sofrido perto de sua residência, primeira gestão de Lerner. E não cogitou de atribuí-lo a um caso a mais de impressão. Só que armou um espetáculo em cima do evento mal explicado e não solucionado.
AXIOMA Pelo que está acontecendo até agora em Londrina, percebe-se que de repente um choque entre o deputado federal José Janene e o prefeito Antonio Belinati pode render algo parecido com o havido entre Pedro e Fernando Collor, com a diferença de que aqueles eram irmãos de sangue e estes apenas aliados eleitorais de circunstância. Até aqui o conflito é de intermediários.
GLOSA Juízes estão prometendo greve. Tudo bem, mas se o fizerem, depois ficam sem condições de sentenciar que greve de servidor público, por não estar regulada em lei complementar, é ilegal. Ficam também sob suspeição para julgamento do assunto. Ou não?
ANIVERSÁRIO Ontem o melhor partido do Brasil, o PT, fez 20 anos. No mesmo dia em que eu fiz 69. Uma sincronia de tempo e observação para afirmar que o partido vai sair, em futuro não remoto, dessa condição de coelho das competições eleitorais para reafirmar a hegemonia da conciliação, aquela a que se refere José Honório Rodrigues na análise da correlação de forças no processo político do Brasil que teme a ruptura e aposta na via conservadora.
Espera-se que o PT, mesmo com sua configuração equilibrada para garantir sua inserção em alianças mais amplas, conserve a sua chama e para tanto não é preciso o falso divisor de águas colocado pelos xiitas que, aliás, ajudam a manter a dinâmica interna num discurso pelo desejável e não o possível.
Em tempo: fiz 69 anos, é claro.
EPIGRAMA Desvios de caminhos para burlar a obrigatoriedade do pedágio são menos ilegítimos do que os desvios de recursos municipais em Londrina. No entanto, aqueles são mais reprimidos do que estes.
FOLCLORE Estória londrinense, relatada por Hélio Duque: em 44, plena guerra, um crioulinho invadiu o quintal de um japonês para confiscar tomates e o dono soltou um cão feroz que feriu o invasor. O médico legista era Justiniano Clímaco da Silva (mais tarde deputado estadual e que fez discurso em latim para inscrever Deus na Carta Magna), e o delegado era José Luciano Andrade, ambos mineiros e negros. O japonês que atiçou o cão no menino de 9 anos foi preso e seu advogado alegou que não havia razão para a prisão.
Engano, doutor. Veja: a vítima é negra, o médico é negro e o delegado sou eu, negro também.
CROMO No meio da noite escura, tudo pode, de repente, ficar fosforescente.
AFORÍSTICO O inferno são os outros, dizia Sartre. Seríamos o céu?





