Na próxima eleição Requião, se for candidato, dispensará a criação de figuras teatrais como o ‘‘Ferreirinha’’, mas se defrontará com o fantasma real do Teixeirinha, líder sem-terra morto em seu governo. O governo atual está oferecendo argumentos fortes para a oposição que não se limitam ao caso das montadoras, colocado de forma tortuosa por senadores paranaenses, mas as questões de corrupção e fraude como as registradas na Leasing Banestado e outras tantas de favorecimento a empresas e grupos vinculados ao poder.
Enquanto há vitalidade oposicionista, tanto de Álvaro Dias como de Requião, o governo parece um moribundo acuado pelas chantagens de aliados especialmente da Assembléia Legislativa quando não partem do prefeito Belinati. Frouxidão orgânica, que lembra uma crise existencial apropriada ao tédio e à náusea, nos termos em que a tratou Sartre, nutre todo o sistema de crítica desde aquele de traço institucional, por via parlamentar, ao generalizado na conversa do povo do interior a atribuir a sua desventura a um governo sem ação e que nem propaganda, que sempre foi o seu forte, sabe fazer.
A missão em Brasília, a despeito de sua validade, descontado o fato de que deveria ter ocorrido há mais tempo, não retirará das mãos de Requião a bandeira da investigação em cima das montadoras. Ela atende de um lado a inveja insopitável de políticos tradicionais, que já estiveram no governo e não mostraram competência para atrair investimentos de vulto, e de outro restabelece uma questão séria: até que ponto a globalização teria posto fim à perspectiva do ‘‘poder nacional’’ nos termos em que o considerava a Escola Superior de Guerra. É verdade que Requião não tem a concentração intelectual suficiente para postar-se bem e maduramente diante do problema e Álvaro Dias se o fizer estará traindo o seu chefe, FHC, um apaixonado pela globalização e na qual alegremente não vê riscos, como se fosse um Rafael Greca inaugurando vacuidades como faróis do saber.
Um traço no entanto já pode ser definido: com Lerner o Paraná se torna, cada vez mais, multinacional e menos brasileiro e menos paranaense. Aliados seus como Sérgio Prosdócimo, da Refripar, não tiveram alternativa que não a de se deixarem absorver pela Electrolux. Tivemos o paradigma do maior complexo financeiro do Paraná, o Bamerindus, também absorvido e mais a Impressora Paranaense e tantos outros.
Assim, pois, se chove na horta do governo a mudança que nos transforma em segundo pólo automotivo é drenada para a área da oposição uma lista séria de questionamentos como esse da ‘‘desnacionalização’’ e o da concentração industrial no eixo Curitiba-Ponta Grossa. Ainda ontem mais um protocolo garantia a Ponta Grossa a fábrica belga de carpetes (Beaulieu Kruishoutem) para acentuar uma tendência de alto risco a que já me referi por mais de uma vez e que o governo insiste em subestimar.
Mas campanha eleitoral se faz em cima do emocional e este virá sob a forma de denúncia como a revelada anteontem de participação de envolvidos na ‘‘truta’’ dos precatórios entre financiadores do segundo turno em Londrina e a essa altura ‘‘perdigueiros’’ estão atrás de mais material facilitado pelo acesso de Requião à varredura no sigilo bancário.
O general em chefe dessa operação a Brasília é Cássio Taniguchi: leva informes parciais sobre os protocolos e mais uma análise em profundidade da situação financeira do Paraná e sua capacidade de endividamento. Cumpriu papel que deveria ser do governador ao botar energia e mobilização num caso que irritava pelo estado de torpor e perplexidade de uma administração pastosa sob o ângulo político.
BIZARRICE A prefeitura de Curitiba está empreendendo uma cruzada contra os chamados ‘‘sombras’’, mímicos populares que imitam as pessoas que andam nas ruas. O curioso é que um dos quadros da campanha de Cássio Taniguchi mostrava tanto Greca quanto o candidato apertando a mão dos ‘‘sombras’’ que adora, pelo jeito, desejam esganar. Que é pior do que enganar.
SPRAY O ministro Francisco Dornelles, da Indústria e Comércio, disse no ‘‘Bom Dia, Paranᒒ que não entende a nossa gente. Todos os senadores o procuram e pressionam para que montadoras sigam para os seus estados e aqui a maioria dos senadores faz bloqueio em sentido contrário. É a síndrome do Aldair, a do gol contra.- Revisão do Plano Diretor de Curitiba tem hoje sequência às 14 horas na Câmara Municipal: ‘‘desafios do terceiro milênio’’ com a arquiteta Raquel Rolnik, os professores Luiz Fragomeni e Bráulio Carollo e Márcio Ponte Sales, coordenador da Central dos Movimentos Populares. As palestras estão demolindo os mitos eregidos sobre Curitiba, o que é saudabilíssimo nesta sociedade que insiste em ser confessional como uma teocracia.- Uma audiência de envolvidos na maracutaia da fraude do ICMS, abrangendo dezenas de empresários que dela se beneficiaram, deixou de ser realizada, outro dia, porque era muita gente para uma salinha restrita.- Também em andamento o caso da Leasing: por enquanto, só foram demitidos os ‘‘bagrinhos’’, mas são robustas as provas contra grandes.-
FOLCLORE Lerner vai ao oeste e sudoeste inaugurar estradas, a maioria delas feita por Joel Malucelli, que também vende máquinas, tem banco e é cliente do governo como dono de televisão e rádio. No sudoeste o espanto é tão grande que um gaúcho de Dois Vizinhos concluiu cartesianamente: ‘‘finalmente o homem, pelo jeito, tomou posse.’
CROMO Ontem houve um ensaio de neve: chuva miúda, atmosfera saturada. Faltou o ponto de congelamento. Em nossa memória ainda hiberna aquela de 1975 que deixou Curitiba, como mancheteou o Mussa, branca de neve.

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