Luiz Geraldo Mazza
O Paraná não existe?
Basta ver como a mídia nacional trata de algo como o encontro, anteontem, dos governadores, para chegar à estarrecedora conclusão de que o Paraná inexiste. Os jornais da terra, adequadamente, expressam o sentimento e o foco do nosso querido campanário e Jaime Lerner pinta, até com alguma justiça, com destaque não captado nas publicações nacionais. Sabe-se que o governo tem suas cabeças de ponte externas, isto é, representações consulares empenhadas em fazer com que o Paraná não se transforme no sujeito oculto da oração. Desde sempre Ney Braga para cá tivemos essas delegações externas que, neste momento, não estão funcionando, pois fomos duramente testados no bloqueio aos empréstimos e desde aqueles episódios a coisa falhou.
O Brasil é um mosaico de províncias. Isso se vê no cotidiano desde o futebol até as manifestações artísticas, e especialmente as políticas. Às vezes somos cosmopolitas demais por medo de parecer provincianos. Ninguém o é mais do que o Rio com sua fantasia de acreditar-se ainda a capital federal, quando o é apenas da indústria cultural, graças à Rede Globo, pois já perdeu a condição de pólo maior em todas as áreas para São Paulo.
Apesar de toda a motivação da ida dos governadores a Brasília ter nascido daquele encontro em Curitiba, o governador desapareceu do noticiário na proporção inversa dos exageros em cima do ministro Rafael Greca (o da IstoÉ é de uma exemplar selvageria). Como é que com esse tipo de deficiência orgânica ainda, volta e meia, os políticos da terra se colocam como presidenciáveis?
Convenhamos que o Paraná é forte demais, embora ainda desfrutando da quinta posição no ranking da renda interna, para que sejamos tão subestimados. E o principal é que poucos abusam do marketing como o nosso governador e isso desde os tempos de sua primeira gestão na Prefeitura de Curitiba, ainda que preferencialmente voltado para o mercado interno, a autarquia e pelo jeito a coisa é precária externamente e as agências encarregadas desse trabalho, embora certamente pagas, não funcionam.
Poucos políticos do Estado tiveram as pré-condições de Lerner, até mesmo pelos mitos eregidos em torno de uma improvável genialidade como urbanista, para credenciamento nacional. O retorno é ridículo, menor do que no tempo em que vendia o peixe de reorganizador de cidades, com apoio do regime militar e depois de Brizola. Um desperdício de potencial assustador.
EPIGRAMA
Vaza a cloaca em Londrina: se esse líquido, escuro e sórdido, fosse petróleo, ela suplantaria o Texas
BIZARRICE Fazer o abre-fecha da Rua XV, em Curitiba, apenas para botar tevês no Calçadão leva a discussão de que os benefícios poderão ser passageiros e os transtornos, como sempre, definitivos.
AXIOMA Se todos os sigilos fiscais e telefônicos, que estão sendo quebrados no Brasil, forem efetivamente apurados, o País não fará outra coisa na década.
GLOSA Londrina foi irrepreensível no Pré-Olímpico. Espera-se agora que o seja, com a máxima garra e eficiência, no clareamento ao assalto aos cofres municipais, mesmo que, por momentos, indiciados acabem posando de justiceiros e se chegue à conclusão de que estamos diante de num faroeste diferente em que não há espaço para mocinhos. Vale, no entanto, a pressão da sociedade organizada, às vezes bem mais eficaz do que mecanismos institucionais, conquanto o Ministério Público esteja se saindo bem.
UMA GUERRA Cartas anônimas, xerox de documentos oficiais á tudo faz parte da guerra de informação e contrainformação sobre os desvios de Londrina. É uma amostra da craqueira que será a campanha prefeitural, o que reduzirá o espaço para discussão de propostas. Há quem acredite que o governo correrá riscos de perder a eleição, mas não existe no horizonte alguém que tenha mais força do que o prefeito Antonio Belinati. Substitutos perdem do Hauly e até do Luis Eduardo Cheida.
A preocupação das entidades independentes, que pressionam para que tudo seja esclarecido, é exatamente a contaminação do episódio por via política, o que é, numa certa medida, inevitável.
Se Curitiba seguisse o exemplo de Londrina, a partir do Banestado (Leasing e Corretora), para citar apenas um setor, o governo não seria reeleito.
SPRAY Dá a impressão que o presidente FHC toreou os governadores com a habilidade costumeira. Agora só falta aplicar o golpe final. - O Paraná está vivendo de expectativas como se vê no caso da antecipação dos royalties de Itaipu, sabidamente insuficientes para a ParanaPrevidência, transformada na miragem salvadora. - O executivo Romanowski não deve substituir Giovani Gionédis na Fazenda, como se sugere nos bastidores políticos. Esperar de Lerner uma decisão desse porte é desconhecer sua compulsão pela moratória, o ritual de empurrar tudo com a barriga. - O vereador Edson Veiga, de Paranaguá, perdeu, a um só tempo, a audiência com o prefeito Mário Roque e a audição. O murro do prefeito rompeu o tímpano do camarista. - Jornalista Graça Gomes perdeu ontem no TJ, 2ª Câmara Cível, um agravo em sua disputa com o Hospital das Nações por erro médico. Ela pretende contar em livro o caso das sequelas de uma cirurgia de coluna a que foi submetida.
FOLCLORE Um oposicionista fez gracinha ao dizer que a maior vaia em Londrina não foi contra a Seleção e sim a disparada em direção ao governador Lerner. O governista repicou que como no caso da Seleção olímpica o povo aplaudirá o governo quando este virar o jogo. Por enquanto o governo está se virando.
CROMO Um mutum, com sua exuberante beleza, foi visto em Santa Felicidade. Na certa foge de lá na festa do vinho desta semana.
AFORÍSTICO Alvaro Dias, senador, é um dos relatores da Lei de Responsabilidade Fiscal. Se o governador Jaime Lerner precisar do seu apoio, será agora mais difícil do que um novíssimo acordo branco.





