Lerner imita Requião
Volta e meia, quando assediado pelos problemas de Estado, o governador Jaime Lerner costuma dizer que os senadores (a totalidade deles) paranaenses agem contra os interesses e cita os bloqueios anteriores aos empréstimos e agora aos atos de resistência ao saque antecipado de royalties de Itaipu. Quem o ouve falar até acaba aceitando a idéia de que a hostilidade política da bancada paranaense é efetiva.
Ponta Grossa está, desde 1997, sofrendo bloqueios por parte de Lerner: um projeto para revitalizar a Avenida Vicente Machado (algo bem mais modesto do que se faz na XV em Curitiba) e assegurar a pavimentação de três acessos importantíssimos, já aprovado na Secretaria de Desenvolvimento Urbano, é obstaculizado por ordem expressa do governador, segundo o prefeito Jocelito Canto. Trata-se de um investimento no ‘‘Paraná Urbano’’ de R$ 2,4 milhões, na verdade um empréstimo como muitos que são feitos em convênio.
Para Jocelito, é inacreditável que isso esteja ocorrendo por causa do atrito durante a inauguração da fábrica de pneus da Continental. Na verdade, um dos poucos setores de governo, que está efetivamente funcionando, é o da pasta de Desenvolvimento Urbano, entregue aos cuidados do arquiteto Lubomir Ficinski. consultor licenciado do Banco Mundial. Ficinski não costuma discriminar ninguém e é isso que tem permitido o deslanche de programas em administrações oposicionistas. No ano passado, o Paraná Urbano financiou R$ 122,8 milhões em obras num total de 823 projetos. Em quatro anos, financiou 3.368 projetos.
Discriminando Ponta Grossa, o governador faz exatamente o mesmo que acusa na bancada senatorial e com isso favorece a aura de vítima do prefeito. Talvez esteja aí uma das causas dos excelentes indicadores das pesquisas de opinião pública em favor de Jocelito Canto, em que pese seu traço visceralmente populista.
Soa ainda como uma contradição o fato de o governo vir auxiliando na atração de empresas nacionais e internacionais em Ponta Grossa num momento em que tenta brecar as suas ações de caráter urbanístico, até para sincronizar com as novas indústrias de porte. Essa ambivalência lembra aquela que acusa nos três senadores, como argumenta o prefeito.
CROMO
Londrina merecia a vitória, mesmo sem o poema do Luxemburgo
BIZARRICE Num dos depoimentos mais recentes do caso de Londrina (AMA, Comurb) há alusão a benfeitorias na chácara do prefeito Belinati, com desvio de verbas e que lembra, em parte, devidamente miniaturizada, é claro, a mecânica da Casa da Dinda. Aliás já há quem esteja pensando em transformar os eventos londrinenses em tema para um livro como ‘‘Notícias do Planalto’’.
AXIOMA A autoconfiança dos consórcios do pedágio já não é a mesma em relação ao julgamento do processo no Tribunal Regional de Porto Alegre, isso apesar da excelente atuação de um dos maiores administrativistas do Brasil, o professor Romeu Bacelar, em favor das concessionárias. De outra parte não há um ponto de vista comum entre os transportadores: o Setcepar advoga os 30% de desconto para os caminhões, com o que a Fetranspar não concorda.
GLOSA Terceirizar, outra moda do momento, quase sempre cria problemas: o que houve na Telepar, antes da privatização, foi um exemplo. Agora uma dessas terceirizadas na área de saúde demitiu uma grávida de quatro meses. Herodes, se está vivo, com essa e aquela do corte da água em Londrina, ia acabar num psicanalista por se sentir frágil diante desses exemplos.
RIMA Sercomtel e Copel dá rima de pé quebrado. A idéia de vender a Sercomtel Celular, antes da empresa maior, baseia-se no fato de que o governador também não abre mão da venda da estatal de energia, a maior empresa, tanto pública quanto particular, do Paraná. Fala-se até em viagens de diretores da empresa londrinense, também modelo, ao exterior visando checagem de mercado
ROMARIA Governadores programaram a ida a Brasília, hoje, para exigir salvaguardas para a Lei de Responsabilidade Fiscal. Fazem contatos com parlamentares e talvez com o presidente. É corolário da reunião dos governadores de Curitiba. Como sempre, vão dizer que isso nada tem a ver com a chamada política de governadores de tempos não tão remotos. Vai dar muito blablablá diante de um interlocutor, tomado pela soberba e convenientemente surdo.
SPRAY Guerra intestina do PMDB municipal é indicativo de vitalidade, já que o normal no partido tem sido a obediência: a tese, tanto dos marqueteiros, do setor mais intelectualizado, quanto dos basistas (Mezzadri, Doático Santos), é a de que Requião deve ser candidato para derrotar Taniguchi. - A diferença está no estilo e no ritmo: aqueles querem um candidato ‘‘soft’’ (o que foi tentado na sucessão estadual) e estes o ‘‘justiceiro’’ e guerreiro das batalhas de 85 e de 90. - Para que houvesse esse filtro seria preciso um outro candidato para bater em Cássio, o que poderia ficar a cargo do petista Ângelo Vanhoni. - Na verdade há uma disputa – deselegante, com acusações recíprocas de falta de ética – em torno de uma hipótese improvável, já que o senador resiste à idéia, mesmo quando lhe mostram pesquisas em que estaria empatado com o prefeito em trinta pontos. - Como os basistas acham que a derrota para o governo estadual decorreu do tom ameno, pelo menos na parte dominante dos programas eleitorais no rádio e na televisão, a batalha esquentou. Por exemplo: o pedágio foi mal explorado, o que deu margem a ataques, sugerindo cumplicidade.
FOLCLORE Em Marechal Mallet, segundo o anarquista Elísio Marques, que exerceu lá o cargo de juiz, ‘‘o café da manhã já vem com Underberg’’.
AFORÍSTICO A reportagem da ‘‘Istoɒ’ sobre Rafael Greca é jornalismo próximo do marrom, nada glacê. Ou seria - um caso de metalinguagem, em que os fatos dispensam, por sua força, a metáfora e a expressão sóbria?