Londrina, Brasil miniatura
Londrina é mais do que a ‘‘pátria de chuteiras’’, como se viu ontem, em função do Pré-Olímpico. A cidade e a macrorregião se vestiram de verde e amarelo, o que vem acontecendo desde o início dos jogos. Imagens da terceira maior cidade do Sul do Brasil, engalanada, festiva, estão presentes na TV. Aos que ensaiaram críticas às pressões legítimas da torcida, inclusive recorrendo à ‘‘ultima ratio’’ da vaia, o grito primal coletivo, bem mais civilizado do que as agressões passionais, houve a resposta da euforia na hora em que a Seleção jogou de verdade.
Embora estando mais para Bélgica do que Índia, para aceitar a Belíndia, do Edmar Bacha, Londrina expressa em tudo o Brasil moderno: ao lado da urbanização, que lhe dá um tom cosmopolita, sem se desligar de suas raízes rurais, as patologias administrativas, como as apuradas nas investigações sobre desvios em autarquias municipais (louve-se aí a exemplar mobilização cívica para dar cobertura ao Ministério Público) e as expressões de exclusão social tão bem caracterizadas no ato da Sanepar pedindo apoio policial para coagir uma senhora, com filho de 6 meses ao colo, que resistiu ao corte de água por falta de pagamento.
Em cena digna de Biafra, por seu tom mundo-cão e melodramático, a usuária inadimplente (que moral tem um governo que não paga credores e que avança em receitas futuras, que descumpre decisões judiciais como as que impedem o parcelamento do terço das férias funcionais, para ‘‘posar’’ de austero?), tentou resistir ao corte da água, já que alegava negociar mais prazo para quitar a dívida e acabou removida pela PM, a pedido da Sanepar.
Flutuavam as bandeirolas do Brasil no momento em que a justiça era feita contra um pobre. O que, afinal, é bem brasileiro. Sérgio Naya, big-empresário, até vai preso, mas acaba solto: devedores crônicos, como alguns usineiros do Norte do Paraná (inadimplentes do Banestado, com o que ajudam a quebrá-lo), continuam dirigindo entidades com o fulgor de uma Ku-Klux-Klan contra o MST e não pagam suas dívidas. O caso da mãe coragem, a criança de 6 meses nos braços, clamando para que não lhe cortassem a água, é exemplar: para os amigos as concessões e as tolerâncias, como as do Banestado, ou essa, clamorosa, do pedágio; para os outros, o rigor da lei, mesmo quando draconiana, desumana e ilegítima, mas que fulmina os mais humildes.
AFORÍSTICO
Uma das acusações contra Rafael Greca, a de que teria pago por um terreno já desapropriado, quando prefeito, não tem a menor procedência, embora a mancadinha administrativa de uma dupla declaração de utilidade pública para fins de desapropriação
BIZARRICE O inesquecível Joffre Cabral Silva (morreu de amor pelo Atlético num jogo em Londrina, quando de um frango do goleiro Muca) era irreverente em tempo integral, e no meio de uma discussão teria chamado um desafeto de descalcificado. Aí o agredido tentou fazer o sabido, corrigindo-o de que o certo seria chamá-lo de desclassificado e não descalcificado. Veio o repique fulminante: ‘‘Descalcificado, sim, porque você é traído e o chifre não aparece.’’ Era um caso de acumulação extrema, a condição de moço e mocho.
AXIOMA Inadmissível o ocorrido com o Marés na Funai. Agora, o próprio FHC pediu desculpas ao demitido, o sertanista Orlando Villas-Bôas. O Paraná está sem prestígio em Brasília: o presidente vai ao Rio Grande do Sul e apóia o governador Dutra e o de São Paulo, Covas, na guerra fiscal. Secretários, como pedintes do governo paranaense, são submetidos às maiores humilhações (o que, aliás, é bem pedagógico) na busca da antecipação do royalties de Itaipu em Brasília e o nosso ministro Rafael Greca balança. A maré, portanto, não é boa, apenas para o Marés, da área de ‘‘luas pretas’’ de Requião.
GLOSA Numa câmara do Tribunal de Justiça há um caso curioso de negativa de paternidade em que o réu aparece com duas certidões de nascimento de locais diferentes e que se nega a fazer o exame de DNA, exigido pelos autores. Em passado recente, denunciou-se o caso de um magistrado que alterou a sua certidão de nascimento para ficar mais tempo como desembargador.
O ‘‘SOCIAL’’ O governador Lerner disse – sua compulsão por frases de efeito é notória – que a prioridade não seria a da responsabilidade fiscal, mas, sim, a ‘‘social’’. Ora, em matéria fiscal, esse governo não é bom exemplo: a crise está aí escancarada, apesar de até o seu antecessor o Paraná ter mantido um modelo gerencial eficiente na área.
O ‘‘social’’ no Brasil, e isso permeia as siglas partidárias, é retórica, nada mais. ‘‘Tudo pelo social’’, dizia Sarney, e afundou o País. A dicotomia entre o econômico e o social é uma constante no Brasil, com privilégio ao primeiro. O Paraná não é exceção e a política de atrair megaempresas com tecnologias que poupam mão-de-obra é exemplo. Capitalização intensiva não serve a esse homem abstrato, a que se refere o nosso governador.
SPRAY Cristina Marques, usuária da Sanepar em Londrina, que teve a água cortada no Jardim Ideal (Rua Cristal, 55) na segunda-feira, foi afastada do local em que se processa a medida na rua porque resistia. - Ela deve uma conta enorme, de R$ 5,5 mil (como é que se permitiu tal acúmulo é uma questão inexplicável), desde 1997. Essa a razão para a medida radical, conquanto não seja pacífico, no entendimento dos tribunais, o direito ao corte de produto essencial à vida. - É verdade que se tal fundamento for alegado, o sistema corre o risco de inviabilizar-se. Há instituições de peso, também inadimplentes, não cobradas com esse rigor, sob o fundamento ‘‘social’’ de que empregam ou exercem atividades essenciais. - A Sanepar alega que os filhos da usuária têm automóveis e celulares e assim mesmo não cumpriam acordos de parcelamento. Aliás, aí ela parece decalcar o governo no caso do terço das férias.
FOLCLORE No Palácio Iguaçu há comemorações pela mancada do Marés na Funai porque ele integra a guarda pretoriana de Roberto Requião. Sacaram até uma das piadinhas das mais sem graça: a de que índio quer apito e falso antropólogo leva um ‘‘pito’’. O ‘‘pito’’ contra o Greca foi maior.