Uma analogia didática
O Paraná é disparadamente um dos melhores Estados em infra-estrutura de todo o país, ainda que apareça no ‘‘ranking’’ em quarto lugar à frente do Rio Grande do Sul. Pouco deve ao atual governo estadual que, afora realizações no campo do saneamento e da energia, teve desempenho pífio na parte rodoviária, além de lançar, pioneiramente, o cavalo de Tróia do pedágio, que o irá engolir econômica e politicamente.
Um dos argumentos que Lerner costumeiramente saca para defender-se da acusação de adotar a guerra fiscal é a de que os investidores são atraídos mais pela qualidade e a infra-estrutura do que pelos estímulos, o que é meia-verdade. E meia-verdade é epistemologicamente pior do que a mentira inteira.
Pois no encontro de governadores se poderia fazer exatamente essa analogia: até que ponto estradas-energia-saneamento representariam atrativos maiores do que a imensa colher de chá fiscal concedida (isso sem falar em doação de terrenos e mais a participação societária, como houve no caso Renault, que era tão exagerada que foi necessária uma revisão). O fato é que não é compatível com o novo diploma – o da responsabilidade fiscal – a manutenção do darwinismo praticado nessa área por todas as unidades federativas sem exceção, o que legitima, de certa forma, as ações aqui desenvolvidas nesse particular.
O fato é que este governo, claro que com boa contribuição dos antecessores, objetivamente quebrou o Estado. Foi nesse período em que isso aconteceu. E que se dava ao lado da derrama de R$ 500 milhões em propaganda, nos delírios dos Jogos da Natureza (até hoje não investigados e custos e desvios não apurados), nos chunchos do Banestado (não se sabe ao certo quantas centenas de milhões drenaram pelos ralos da Leasing e da Corretora com a festa dos títulos podres), grana suficiente para resolver a capitalização da ParanaPrevidência sem precisar esmolar royalties de Itaipu de forma precoce, como se faz também com a vergonheira do IPVA.
Um pouco de humildade não fará mal à sociedade paranaense no encontro de governadores: os Estados, de um modo geral, estão falidos, mas nem tão falados como o nosso, que se expõe nas acrobacias de sacar recursos do futuro em todos os campos, desde à antecipação tributária aos incentivos absurdos que tiram, em nome do futuro, os recursos do presente.
AXIOMA
No ministério, o paranaense Greca sendo fritado no fogo lento; na Funai, o Marés de Souza demitindo o sertanista Orlando Villas-Bôas. Espera-se para logo uma chuva de água benta sobre nosso Estado. Prendemos atenção demais. Só falta alguém ser preso
BIZARRICE Quando dá entrevistas sobre o pedágio, cujas distorções ele próprio criou, Lerner costuma dizer que não é fácil administrar o conflito entre as concessionárias e os usuários. Na parte relativa à situação financeira alega que não deseja usar o remédio heróico das demissões de funcionários, só que ele continuou nomeando, criou centenas de cargos em comissão e aumentou os seus valores bem como o de secretários de Estado, que aliás existem em números exagerados, jamais vistos na história paranaense. Nos dois casos, ele brinca de Brecht com a escola do ‘‘distanciamento’’.
GLOSA ACM bateu forte em Covas por causa da guerra fiscal. É um apoio indireto à tese paranaense. Quem tem ACM como salvador merece ser salvo?
SILOGISMO ‘‘Paraná em Páginas’’, revista feita por um homem só, fez 35 anos de circulação ininterrupta. Não tem apoio oficial há muito tempo e sobrevive.
Aqui prevalece a idéia de fazer do Estado o cliente principal. É péssimo para a democracia, ruim para o governo e uma bomba de efeito retardado de impacto social. A subvenção da mídia é a pior das subversões. O conselheiro João Féder lembra isso a cada relatório das contas do governo.
SPRAY Na surdina, o governo já teria acertado bases de reajuste com as donas do pedágio: 99% para os carros de passeio e 88% para os caminhões. Apesar de o presidente da ABCR ter declarado (ato falho, provavelmente) que haviam faturado R$ 250 milhões quando investiram R$ 285 milhões, retorno absurdo, mesmo para um país de capitalismo bárbaro como o Brasil. - Transportadores não vão aceitar essa mediação governamental como as concessionárias não admitiram a primeira, de caráter eleitoral, que reduziu linearmente em 50% as tarifas. - O nó a desatar é complexo, como se verá no dia 18 no Setcepar. A população, de um modo geral, acha intolerável o que está havendo com o IPVA e isso será fator cumulativo de resistência. Não é preciso ser profeta para imaginar bloqueio nas estradas, invasão de praças de pedágio, o ritual de sempre. - A planilha de custos das donas do pedágio é merecedora de avaliação detida porque lembra, e muito, com o que se dava com a dos transportes coletivos urbanos de Curitiba. - Hoje o secretário de Segurança lança (10h30) o Detran Digital. Era preciso fazer algo tão moderno para que o processo das multas de trânsito fosse menos esotérico.
FOLCLORE Primeiro o governo estadual pilha o empresariado com a antecipação do IPVA num mês em que transportadoras, por exemplo, tiveram dificuldades com o desencaixe do 13º, tributos e tudo mais e depois vem alegar que o mês de janeiro é ruim, daí a necessidade de parcelar também o terço das férias. Dá origem aos problemas e depois chia. Pega grana adiantada das empresas e adiante se queixa da arrecadação. É por isso que Renato Aragão se acha um deficiente como trapalhão diante dos gênios e não sai do analista.
EPIGRAMA Marés, da Funai, demitiu o Villas-Bôas por fax. O correto seria fazê-lo com mensagens em fumaça ou o batuque da selva para ser antropologicamente correto. E, é claro, mais cortês.
CROMO No jogo de passa-anel você me deixou, mais de meio século atrás, o perfume inesquecível que faz de mim agora um improvisado Marcel Proust.
AFORÍSTICO Se a compra da Rede Mercadorama é um exemplo de globalização estamos perdidos: preços subiram e a qualidade do serviço caiu.

mockup