Luiz Geraldo Mazza
O choque do passado
Alvim Toffler, que por algum tempo virou o autor da moda, celebrizou-se com a obra O Choque do Futuro, em que analisava os cenários oriundos das novas tecnologias e do processo de mundialização. Na gestão Rafael Greca, ele andou por Curitiba, sobre a qual já havia se expressado sobre as rurbanas, mais uma das badalações ocas de Lerner e sobre as quais se expressou com entusiasmo não muito científico. Greca lhe mostrou obras e levou-o até a tomar café na banca de jornais, da Praça Tiradentes, do folclórico Pedro Lauro, ex-deputado federal, guerreiro dos sanitários públicos e que defendia a incrível idéia de levar o trem que já aquele tempo abolia as linhas de passageiros até as praias paranaenses.
Quando da estada de Toffler, fiz uma paródia sobre o sentido da primeira obra, ao sugerir que aqui, no Brasil, especialmente no Paraná, o que prevalecia era muito mais O Choque do Passado por uma série de fatores sociológicos, entre os quais o da nossa herança colonial e patriarcal que até hoje pesa nos fundamentos da nossa Constituição. Há esse choque mais abrangente e profundo, mas persiste ainda um outro visível no tal decreto do prefeito Rafael Greca desapropriando área que já o fora na gestão Roberto Requião. Como é que ocorre um fato dessa gravidade, com tantos desdobramentos negociais e políticos, e tudo se dá sem investigação dos meios de comunicação social quando há sobre o assunto uma representação no Ministério Público?
Neste momento, esses assuntos afloram em função do cerco da mídia em torno das ocorrências do Ministério do Esporte e Turismo. Investiga-se, por exemplo, a atuação do Instituto Farol do Saber, que tem o estilo e a marca do ministro, mas que parece ter uma linha operacional assemelhada a outro, o Instituto Jaime Lerner, que fica mais atuante quando o atual governador não tem mandato e que se dispõe a prestar consultoria técnica, especialmente a prefeituras.
Greca está sendo isolado por seus partidários, inclusive os mais próximos: ele foi destaque negativo nas revistas semanais brasileiras e é visível a fritura em andamento, em função das denúncias relativas aos bingos. Há uma torcida para que a verdade prevaleça e que a sociedade não seja uma vez mais condicionada como o foi no linchamento de Alceni Guerra, no governo Collor. Nada, porém, justifica a omissão quando o interesse público na apuração das coisas passa a constituir-se numa prioridade.
AXIOMA
Com o Pré-Olímpico em Londrina foi dada uma pausa no exame das trutas municipais. Agora, com a reunião dos governadores em Curitiba, haverá algum armistício em favor de Lerner? Ora, o armistício jamais será rompido
BIZARRICE Estelionatário é o governador Jaime Lerner. Frase do Cândido Gomes Chagas no editorial da Paraná em Páginas sobre o pedágio e a jogada de reduzir-lhe o preço à metade em cima da campanha eleitoral. Este Cândido, nos versos de Augusto dos Anjos, seria a mão que apedreja. Outro Cândido, secretário de Segurança, ainda na imagem do poeta, a mão que afaga.
GLOSA Para integrar o governo Lerner é preciso ter jogo de cintura, a despeito dos inúmeros gordos da equipe. Dias passados, a secretária Maria Elisa explicou ao desembargador Zappa que ela havia determinado que a folha de pagamento incluísse as férias dos servidores e que isso, como todos sabem, foi impedido pelo secretário da Fazenda. Ontem ele disse que a decisão foi conjunta, embora a secretária não estivesse presente.
GESTUAL Já sugeri e reforço a proposta: Na hora em que você estiver na bilheteria do pedágio, erga os braços como quem está sendo assaltado. Dá para usar o gesto agora na campanha eleitoral de prefeitos e depois na de 2002, ainda mais quando vier o reajuste. Será também um re-ajuste eleitoral.
SPRAY RBS está determinada a vir ao Paraná: além de dominar a Net (agora com a aquisição das praças de Londrina e Blumenau, então pertencentes a Inepar) vai lançar-se no mercado com jornal e rádio numa primeira etapa. - Em Floripa, a RBS levou cinco anos para lançar o Diário Catarinense, viu-se impelida a redimensionar o veículo, apesar de todo o tempo despendido em pesquisas, e só se consolidou mais tarde, graças também ao raio de autonomia que detém junto ao sistema Globo de televisão e rádio. - Para um mercado saturado, um pouco mais de competição teria um sentido depurador, embora não indolor. Quanto menor for a influência do oficialismo nessa área, melhor para todos. - Requião prometeu um choque de capitalismo na comunicação social e ficou na ameaça. Decalcava Collor que ameaçou um choque de capitalismo no Brasil e pelo menos foi quem, a despeito de toda a corrupção, procedeu a abertura (ou arrombamento?) do mercado. - Por falar em Requião, ele aparece nessa história da dupla desapropriação de terreno na área do município, ontem abordada pela Folha de S.Paulo. Desapropriou e não pagou a desapropriação, prólogo de todo o rolo. - O que espanta é o silêncio em cima de assunto tão sério, durante tanto tempo, embora isso faça parte da nossa cultura de cumplicidade. - Na última Análise Conjuntural-Ipardes há um estudo sobre a competitividade paranaense que aparece, no quadro nacional, em quinto lugar, logo depois do Rio Grande do Sul. Em 96, os gaúchos apareceram atrás. Nas exportações, também o Paraná figura em quarto, logo atrás do Rio Grande do Sul. A diferença não é pequena: RS ficou em 98 com 11,01% e o Paraná com 8,27%. Em 93, no entanto, era quase o dobro: RGS 13,43%, PR 6,44%.
FOLCLORE O terço das férias dos funcionários, mais conhecido, é aquele das rezas para que o dinheiro saia.
CROMO E esse tom de águas caribenhas de Bombas-Bombinhas ninguém removerá enquanto os bancos de corais as adornarem.
AFORÍSTICO Paradoxo é um toxicômano, portanto refém de drogas, declarar-se um libertário, uma espécie de Jim Jones atenuado.





