Escapismo como norma
Não se deve subestimar o governo estadual no momento em que é sufocado em vários ‘‘fronts’’ porque é elástica a sua capacidade de desfocar as coisas, de dissimular, como se viu nesta semana. A questão do delito urbanístico presente nas ‘‘reformas’’ do Centro Cívico é uma delas. Para diluir a manifestação, o governo inventou um convênio com a UPE, entidade que vive do passado, pois a sua insuficiência instrumental hoje é notória, buscando dispersar o ‘‘abraço’’ dos estudantes de arquitetura na Praça Nossa Senhora de Salete.
Será mais uma promessa não cumprida ou melhor ‘‘comprida’’ pela demora. Vale tudo para o diversionismo. A sede da UPE, restaurada no governo Richa, virou um pardieiro por obra e graça de várias diretorias. Aliás a mesma coisa houve com a UPES no Juvevê. Entregar um prédio público, que já foi restaurado e, em seguida, depredado pelos próprios estudantes (a minoria, é claro, que cuidou dessa arte) para nova restauração já é uma questão discutível, ainda mais se levarmos em conta duas questões: o caixa estourado e investigar se esse prédio não está na relação dos que constituem o capital imobilizado do fundo de pensão dos servidores, a ParanaPrevidência. Como não vai gerar renda, tal qual se dá com muitas edificações, cedidas em comodato, percebe-se o irrealismo dos que insistem em falar nesse fundo de pensão sem fundos em governo predador.
Na questão do pedágio mais escapismo: agora vai haver o simulacro de resistência à decisão judicial, partindo-se para um acordo num momento em que o fiel da balança, por uma questão de cacife, favorece os consórcios. Tanto que já estão publicando as tarifas corsárias, absurdas, que pretendem colocar em prática no próximo mês.
O retorno às desocupações de terras invadidas, o que é apoiado pela maioria da população, visa também, a despeito do seu caráter tenso e polêmico, desfocar os assuntos mais relevantes como a lama sórdida de Londrina, a vinda da CPI das Drogas já no início da próxima semana, a prensa de Covas em cima da guerra fiscal (neste caso Lerner merece o apoio de todos, embora a frouxidão de sua fala, a sua incapacidade para fazer disso, como já disse, uma doutrina), a perda de poder relativo do PFL em escala nacional, o que dificulta a mendicância sistêmica para antecipar (um aburdo, já que não vai resolver a capitalização do Fundo, detonado no Judiciário) os royalties de Itaipu.
Como vivemos uma atmosfera de absurdo, espera-se que nos feriados de março, já que o carnaval desta administração dura ininterruptos cinco anos, o governo reflita, estude e, enfim, aja.
AXIOMA
Se a CPI ficar por aqui vai descobrir que não há droga mais nítida do que o Carnaval curitiboca
BIZARRICE Por falar em Carnaval, anuncia-se que a CPI das Drogas pretende ficar aqui mais de dois dias. Se pegar o tríduo curitibano entra na fossa, mergulha no tédio e dissolve a CPI que tantas expectativas espalhou como se fossem conféte e serpentina carnavalescos.
GLOSA O empresário Paulo Souza de Souza vai se acorrentar, segunda-feira, na frente do Palácio Iguaçu, para acusar o governo de tê-lo torturado em estabelecimento psiquiátrico. Ele é credor da área de educação. Se todos os credores passarem por essa terapia, vamos ter que importar manicômios no Programa Mais Empregos e se for verdade o que o empreiteiro acusa até nesse caso a iniciativa também não é original, pois era comum na Rússia.
GOL CONTRA Anteontem, na TV Educativa, o Mauro Baruque entrevistou, no dia em que a Justiça Federal deu ganho de causa contra o governo na questão do pedágio, o presidente da ABCR, ‘‘pool’’ de empreiteiras, Washington Lemos.
Quem tem esse tipo de aliado nem precisa cogitar de oposição.
Curioso é que na semana anterior houve promessa de intervenção na Educativa porque estaria dando espaços a notícias que favoreceriam a oposição. E essa agora da entrevista do Baruque é um ato falho, evidência de que o governo quer compor com as consorciadas, ou esforço para confundir.
SPRAY Rebelião na Prisão Provisória do Ahú com morte. - Contaminação da água de um córrego em Cantagalo mata três e hospitaliza dezenas. - Aperta-se o funil contra o principal eleitor de Londrina por causa dos desvios das autarquias. - Anuncia-se a vinda da CPI das Drogas e que vai atingir (não há como evitá-lo) o setor mais vulnerável do governo – o da Segurança. - Integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e da Anistia Internacional virão a Curitiba depois de amanhã para apoiar a manifestação do empreiteiro ‘‘acorrentado’’, Paulo José de Souza, que acusa o governo de tê-lo colocado à força por 72 horas em instalações psiquiátricas porque protestava por atraso em pagamento na área da Educação. Apesar dos ‘‘alambrados’’ do Centro Cívico, a praça do protesto e do pretexto está aí, viva. - Derrotas na Justiça: pedágio e o terço das férias parcelado, isso sem falar no ParanaPrevidência inviabilizado com as decisões do TJ. - Apesar do decantado efeito multiplicador do plano de atração de empresas, ora contestado no STF por São Paulo, a Região Metropolitana de Curitiba foi a que registrou, no Brasil, maior queda do emprego. - Nem reza brava safa o governo, talvez uma chuva torrencial de água benta. Dava para convocar clérigos, favoráveis ao situacismo, para fazer a procissão tradicional contra a estiagem ‘‘ad petendam pluviam’’. Chuva benta, claro.
FOLCLORE Se fôssemos adaptar o cenário vivido pelo governo Lerner a uma paródia de ‘‘Os Pássaros’’ de Alfred Hitchcok, em nosso caso os urubus, em revoada, e com seu tom sinistro, substituiriam as aves marinhas.
Um detalhe: pra quem gosta de jiló, como lecionava Stanislaw Ponte Preta, urubu é colibri, uma das preferências do governador que pediu até as montadoras que dessem esse nome a um dos seus veículos. Só que com o apelido de beija-flor. Nesta o Greca assinaria embaixo.
CROMO Escorre e flui como espermaceti, a gota calcária na caverna. No silêncio milenar constrói catedrais góticas: em cima a estalactite, embaixo, mais densa, a estalagmite. Tocar nelas reproduz som de marimba.
AFORÍSTICO PFL foge de Belinati e o isola. Até a campanha eleitoral.