Histórias do Passeio
Estação Rodoviária (a antiga, hoje Terminal Guadalupe, metropolitano), 24 horas. Nos ônibus interestaduais o agito de sempre: a noiva recebida com arroz até a entrada do veículo, a excursão de colegiais que entoa cânticos sacanas na paródia do hinário cívico. De repente na esquina aparece o vulto escuro, um búfalo enorme com aquela aura do seu ancestral remoto, o bisonte, figura que aparece nas artes rupestres das cavernas clássicas. O temor invade as pessoas, alguns sobem na plataforma da igreja de Guadalupe, outros se penduram na sacada ou se ocultam nos ônibus.
Aí aparece um bebum na esquina que olha o búfalo, pega o jornal que leva no braço, dá uma jornalada na cabeça do animal, puxa-o pela argola do nariz e diz em altos brados: ‘‘eu te manjo e vou te levar de volta’’.
Na madrugada, que se inicia, em meio à bruma, o bêbado, como um pastor, conduz de retorno ao lago do Passeio Público o búfalo, cuja fuga não foi sequer percebida.
De bichos que fogem, de fantasmas de cadáveres que balançavam nos troncos dos plátanos, dos ousados que faziam amor na grama, dos guardas civis que assustavam os ladrões na noite. De coisas assim é feita a história do Passeio.
Outra, genialíssima, foi a do chimpanzé que fugiu de sua jaula. Foi até o Bar do Pasquale e naquela manhã havia apenas um cliente sofisticado, daqueles capazes de cair em abismais reflexões diante do editorial do Estadão ao lado de uma caipirinha. Anestesiado pelo que lia e bebia, não percebeu que o macaco enfiava o dedo no copo e lambia com avidez a gostosa soma de vodka, limão e gelo picado. Dona Isaura, mulher do Pasquale, que cuidava do balcão, entretida no que se dava às suas costas na cozinha, nada notara. De repente olhou viu o chimpanzé, com uma sutileza de ninja, consumindo a metade da caipirinha do freguês. Consta a lenda que desmaiou e o chimpanzé voltou para o seu apartamento, meio aquecido, que já estava com saudade de sua companheira, que o aguardava como a Penélope à espera de Ulysses da aventura em Ítaca.
MISTÉRIO A crueldade não tem limites. Porcos-espinhos do zoológico foram mortos de madrugada. O pior, diziam, é que os autores teriam até violado sexualmente os animais. Absurdo na imaginação é rotina.
ÉTICA Tempo de guri, éramos éticos em nossas brigas. Não poucas vezes, até para driblar a polícia, acertávamos as contas no punho e no agarrão ao lado da estátua do comendador Fontana, doador daquele recanto à cidade. Num desses combates um circunstancial desafeto me enfiou a unha enorme no olho que o assustou mais do que a mim ao observar o hematoma.
Chegar em casa, com sinal de briga, mesmo vitorioso, era castigo na certa. Outra área dos nossos ‘‘acertos’’ era a parte gramada da Cascatinha, onde já existia o restaurante famoso em Santa Felicidade. A ética era de tal ordem que muitos de nós levavam a melhor sobre o Rasputin que na boemia era capaz de encarar os maiores brigões da cidade, terror da polícia, como o Nego Levi e o Carlinhos Pereira, este lutador de catch do Circo Queirolo, que casou com uma filha do palhaço Chic-Chic, surrava meio mundo e acabou morto por um guri.
BOEMIA - O chefe de polícia do Paraná, eficientíssimo, era o jornalista Alfredo Pinheiro Júnior. O Carlinhos, brigão da madrugada, tinha um cão policial capa preta que ele chamava de ‘‘Pinheiro Júnior’’, bronca certamente da postura contra a autoridade.
Numa noite – e isso só poderia acontecer na Curitiba daqueles tempos – vi o Carlinhos Pereira na área dos bares (o Triângulo, o cachorro quente) levando às costas uma vara de pescar com um peixe do mar na ponta do anzol. Apenas para provocar.
MEMÓRIA O jornal pode ter o Iso 9002; minha memória, não. Semana passada contei da nossa intervenção, governo Lupion, administração José Mugiatti Sobrinho no Departamento de Turismo e Divulgação, para obter a concessão da primeira linha de ônibus internacional. Lembro que fiz o ‘‘briefing’’ para os expedientes a ministérios. Mas a empresa não era a Princesa dos Campos e sim a Sulamericana, do Otaviano da Ross. Linha Curitiba-Assunção. Naquele tempo um contemporâneo meu de Universidade, centro médio do Atlético, também colega jornalista Júlio Rafael Ortiz, da turma de paraguaios que Manoel Ribas mandou buscar, consolidava as ações para estabelecer em Paranaguá o porto livre do seu país de origem. Júlio, do corpo consular, foi aos poucos se especializando nas artes da geopolítica e devemos a ele, em parte, o intercâmbio que abriu caminho também para a construção de Itaipu, que viria depois de sua morte.
DISCURSO Dicesar Plaisant, jornalista boêmio, discursador da madrugada, volta e meia preso por Manoel Ribas e em seguida solto, fazia libelos contra o regime. Chamava damas da sociedade de Messalina. Provocava a rapaziada da Casa do Estudante na avenida Luis Xavier: ‘‘A Universidade do Paraná é uma instituição de pardieiro. E segundo Camilo Castelo Branco, gênio da língua, toda instituição de pardieiro é uma instituição de merda!’’ Tudo isso pode ter colaborado, anos depois, para as obras da gestão Flávio Suplicy de Lacerda que reformou o prédio central e tocou a Reitoria, o Centro Politécnico.
NOTÍCIA O que Carlos Lacerda era na ‘‘Tribuna de Imprensa’’, o que Roberto Barrozo, o velho, era no ‘‘Diário da Tarde’’ que o Cunha Pereira vai reeditar. Peça principal da primeira página era o ‘‘tijolaço’’ do Barrozo. Chegava ao cúmulo da acidez nas críticas. De Bento Munhoz da Rocha, por exemplo, o que nada tem de justo, ele dizia que seria capaz de fazer uma conferência erudita sobre as funções, histórico e utilidades de uma geladeira, mas que não saberia abrir-lhe a porta.
INFÂNCIA Aos quatro anos professoras do jardim me protegiam quando havia tempestade. Punham-me no colo e ficavam a tagarelar e indagavam para que lugar teria ido a colega que casara. ‘‘Foi pro cu do mundo’’, balbuciei, repetindo uma gozação do meu avô em cima da escolha de Morretes para a lua-de-mel. Mais tarde, Fernando Pessoa Ferreira, poeta e jornalista, já nos anos 70, diria que esse lugar era justamente Curitiba. Ritiba, segundo ele o sufixo, significava ‘‘do mundo’’. O prefixo aquilo mesmo.