A politização do pedágio
Quem inaugurou a politização do pedágio, como saída institucional, foi o governador Jaime Lerner ao fazer o corte linear de 50% da tarifa para não ser por ela engolfado no processo eleitoral. Reclamar agora dessa deturpação é inútil, como se viu, ontem, no Fórum dos Usuários de Curitiba, operado quase na contramão do de Londrina por sua ênfase política.
Ao adotar a medida cirúrgica, sem lhe examinar as consequências de ordem jurídica, face à ruptura unilateral dos contratos, bagunçou o coreto de uma iniciativa que cultivara com tanto carinho, desde a campanha eleitoral, desenhando mapinhas do Paraná e neles traçando os Anéis de Integração. Com o gesto desesperado para evitar perda de votos gerou o impasse.
Agora todo o mundo quer tirar sua casquinha no processo: a justiça está bem confusa, já que persiste a dúvida quanto à última decisão do Tribunal Regional de Porto Alegre, se suspendeu ou não o aumento ciclópico do pedágio. O governo se perdeu completamente e a classe política agradece porque ganhou um tema com força suficiente para atingí-lo nas eleições municipais e com efeito residual na de 2.002, sucessão governamental.
Os deputados se alvoroçam e Toni Garcia emplaca, segunda feira, um projeto que extingue as concessões, devolvendo atribuições ao DER na cobrança das tarifas e fixando cronograma de obras compatível. Na mesma direção age o deputado Geraldo Cartário. Ora ambas as propostas tentam simplificar assunto de extrema complexidade por suas implicações indenizatórias, nas quais o Estado já está atolado até o pescoço. É chover no molhado e irrigar o campo da promoção pessoal ou partidária. O PPB, através do Janene, aquele enleado nos rolos das autarquias em Londrina, por várias vezes questionou o assunto no horário gratuito da TV. Se é assim por que não assinam de uma vez o pedido de CPI, afinal o fórum adequado para divertimento de políticos, como estamos vendo nessas federais do Narcotráfico e dos Medicamentos?
Inteiramente deturpada, a iniciativa mais sensata de Londrina corre o risco de volatilizar-se nesse jogo de braço em que se presta mais vassalagem à sociedade do espetáculo do que no empenho para resolver questão crucial.
BIZARRICE
Tão frequentes casos de salmonelose por ingestão de maionese que o cinegrafista Rubens Vandressen, da TV Globo, costuma, quando lhe ofertam o prato, sair-se com esta: ‘‘mulher e maionese, só a de casa!’’

AXIOMA É muito arriscado no meio de uma briga na Câmara Municipal da Capital um apaziguador ponderar a algum vereador no sentido de usar a cabeça, já que poderá derrubar o desafeto com uma cabeçada.
GLOSA José Carlos Mendes e Rubinho Ferreira fazem a mesma sugestão: Lerner deveria imitar a Roseana Sarney, por solidariedade ao PFL, e adotar o mínimo no Paraná de US$ 100. Aproximava-se de uma mulher (a governadora de maior Ibope) e distanciava-se de outra, Rita Camata, autora da lei que limita gastos do funcionalismo a 60% da arrecadação.
FLAGRANTE O prefeito Cássio Taniguchi, junto com o Jonel Chede, presidente da Associação Comercial do Paraná, inspeciona as obras da rua XV. No momento em que observam um dos enormes buracos abertos no calçamento, ouvem o alerta do agente de viagens Décio Macedo: ‘‘Tá tudo igual como dantes no reino de Abrantes!’’ Uma das coisas mais repetitivas da Rua XV, a das Flores, é mexer no seu calçamento. Urge colocar um zíper.
EPIGRAMA ‘‘Terra Nostra’’ como novela não consegue a metade da dramaticidade do ‘‘Pedágio Nostro’’, uma estória sem mocinhos e bandidos, mas com um só e rematado otário: o usuário.
SPRAY Criou-se uma expectativa muito forte em torno da CPI do Narcotráfico: os problemas paranaenses, mal explicados pelo delegado de polícia e o deputado Vanhoni, por reprisarem suposições genéricas, deveriam ter funcionado como um fator de aquecimento e a imagem mais forte foi das testemunhas encapuzadas. - O spotlight, como o havido no fórum do pedágio, vai acabar trazendo resultados precários quando a CPI pintar por aqui até porque seus integrantes imaginam que se dará por aqui um carnaval como o de Campinas. - Uma sugestão: por que não se aprofunda investigação sobre roubo de cargas e automóveis e não se faz avaliação abrangente sobre os desmanches. Se o ‘‘estourado’’ anteontem chegou a impressionar dá para imaginar o que se daria com uma pressão maior sobre os demais. - O delegado Marcus Vinicius Michelotto, titular da área de Furtos e Roubos de Veículos, já diminuiu a taxa de criminalidade local e se aprofundar a ação nos desmanches atingirá a roubalheira de fora daqui. Pode, no entanto, encontrar resistências ao seu trabalho. Até porque ninguém se aprofundou no assunto. - Juiz da 1ª Zona Eleitoral acatou, parcialmente, representação do PSDB-PPB contra Rafael Greca. Ficou opaco o ‘‘acordo branco’’. - Jogada de Alvaro Dias de sugerir Joel Malucelli para vice de Taniguchi na prefeitura visa, obviamente, impedir que Cássio, reeleito, se habilite à sucessão de Lerner. Em política é assim: todos subestimam o alheio e se superestimam.
FOLCLORE Vários gaviões peregrinos são vistos quase diariamente nos bairros Juvevê e Bacacheri em Curitiba. No edifício Portobelo há até um ninho deles. Isso não é nada: outro dia no pátio do conjunto em que resido, no Alto Cabral, vi uma saracura dando sua corridinha característica. Só falta um áulico do governo dizer que isso é façanha pós-Lerner, que já melhorou, como sabeis, consideravelmente o por-do-sol em Curitiba.
REPENTE A decisão do prefeito de Cascavel de não permitir mulher nua nos blocos de Carnaval deu margem a um debate com ouvintes na CBN. Como sempre Jota Carlos, advogado, mandou a sua quadrinha: ‘‘O carnaval vem chegando// onde nudismo é tabu// mais um ano de Fernando// e todo o mundo fica nu//’’.
CROMO Seus olhos, verdolengos, no meio da noite me lembram ‘‘A maçã no escuro’’ de Clarice Lispector.
AFORÍSTICO Vamos cobrar pedágio de políticos, não os reelegendo.

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