Luiz Geraldo Mazza
Carnaval e política
Lá vem o cordão dos puxa-sacos// dando vivas aos seus maiorais// quem vai na frente vai passando para trás// e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais!. A marchinha carnavalesca, hoje substituída pela majestosidade cafona dos sambas-enredo, que tomaram conta do pedaço, ainda é lembrada, embora uma das últimas produzidas e com sucesso tenha sido de uma grosseria sublime: a da cueca transformada em pano de prato. Eu mato, eu mato// quem roubou minha cueca// pra fazer pano de prato.
O vínculo finura (savoir-faire, galanteria) e grosseria é da raiz da festa. Basta lembrar que os portugueses trouxeram para nós um dos aspectos mais rústicos que foi o do entrudo que abria a comemoração com as pessoas nas ruas levando baldes de água suja na cabeça e repicando com farinha ou ainda atirando limões de cheiro, o que suavizava o tom selvagem e brutal.
Críticas de costumes, sarro sobre primórdios da globalização (à época anunciada na assimilação de ritmos estrangeiros), elogio e piche em cima de políticos tudo isso fazia parte do processo. Do pedreiro (que fazia tanta casa e não tinha a sua pra morar) Valdemar, da funcionária maliciosa a Maria Calendária (saltou de pára-quedas e caiu na letra o), do catador de papel (Ó que vida triste e tão cruel// tem o homem que apanha papel// a sua profissão é um buraco// Só pode ir pra casa// depois de encher o saco//) enfim uma galeria variadíssima de tipos do cotidiano.
Durante a pressão para que o Brasil entrasse na guerra, o que em troca nos daria Volta Redonda e aeroportos como o de Natal e o nosso curitibano, posto que situado em São José dos Pinhais, acentuou-se a tal da política da boa vizinhança com a ida de Carmem Miranda para os States. Houve um samba aculturado com o bugue-ugue e que dizia assim: Chegou o samba, minha gente// lá da terra do Tio Sam com novidade// e ele trouxe uma cadência// que é maluca pra mexer com a cidade// O bugue-ugue, bugue-ugue, bugue-ugue// a nova dança que balança, mas não cansa// a nova dança que faz parte da política da boa vizinhança//.
Na campanha de Ulysses Guimarães, o PMDB desenterrou O retrato do velho que era a exaltação da volta de Getúlio Vargas. Bota o retrato do velho// outra vez// Bota no mesmo lugar// o sorriso do velhinho// faz a gente trabalhar. Getúlio foi dos mais cantados e nunca de forma crítica, quer na ditadura do Estado Novo, quer no retorno. No esforço de guerra era exaltado e colocado em confronto com Hitler. Era assim: Quem é que usa um cabelinho na testa// e um bigodinho que parece mosca// só cumprimenta levantando o braço// eh eh eh, palhaço!//Quem tem o G que representa a glória// e um V que ficará na história// um sorriso que nos dá prazer// eh eh eh, vitória!
Imaginem o que dava pra fazer nos dias de hoje com FHC e especialmente com o Collor! Aquele dos puxa-sacos se ajustaria a todos os palácios.
CALOUROS
Nos anos 50 e 60, o desfile de calouros já era bem mais importante que o Carnaval curitibano. Explica-se: a esse tempo éramos o que se poderia chamar de Cidade Universitária, marca mais legítima do que essa de hoje, fajuta e forçada, de ecológica.
O universitário e já me referi a isso, várias vezes rompeu os bloqueios da sociedade tradicional, metida a besta e de nariz empinado. O culto ao estudantado era geral. Um atleta da Engenharia, Medicina ou Direito, quase sempre de outros pontos do País, entrava nos clubes da alta como sócio-atleta e acabava noivando e casando com as moças da sociedade conservadora.
Como o Carnaval está próximo e logo teremos o desfile de calouros, é válido um exercício de nostalgia. O trote era de lascar: Kit Abdalla, médico em Francisco Beltrão, veterano, vivia golpeando os bichos, calouros. Pegou contribuições em dinheiro para que se assistisse um espetáculo no Colégio Estadual, uma revista nominada Volta, calouro. Chegava-se à porta do teatro e lá estava a placa convidando a voltar.
O BACANA Estudantes, em alguns casos, tornavam-se figuras dominantes na capital. Um deles foi o gênio da Vale do Rio Doce, Eliezer Batista. Apelidado de Bóris Bacana, ele se dizia descendente de nobre russo, foi o pioneiro da sunga e ficava na esquina da Travessa Oliveira Belo com a XV ostentando um cravo na lapela. Para os introvertidos curitibanos, aquilo era o máximo.
JÚRI Enfrentavam-se no júri popular o mestre Vieira Neto, como auxiliar de acusação, e o melodramático e eficiente Mário Jorge. Este para dar realce à defesa do réu, entrou no tribunal levando às costas uma picareta que dizia tratar-se da arma com a qual o seu constituído foi ameaçado. O cartorário Osvaldo Hoffman escondeu a picareta e Mário Jorge ficou angustiado com a falta da peça que iria dramatizar o quadro. Ganhou a parada, mas sem a picareta.
DEBATE Num programa de televisão (Canal 6, Associados), o elegantíssimo Newton Carneiro (UDN) acusou o seu colega deputado federal Vieira Lins de ter falhado, como líder do PTB, na crise que levou Getúlio Vargas ao suicídio (agosto, 54). E disse que ouvira isso de familiares de Vargas. Vieira Lins, ligeiríssimo, contestou: Deve ter ouvido na intimidade da Dona Ivete Vargas!. A elite curitiboca uivava e babava de ódio contra o adventício pernambucano que fazia insinuações malévolas contra alguém da terra.
SEXO E as duas francesas que vieram ensinar Curitiba as artes do sexo oral e que eram casadas e andavam na rua com cãezinhos? Até nisso se percebe a clara diferença entre o saxônico know-how e o delicado savoir-faire.
Era um tempo em que o cordão umbilical da cultura se ligava ainda mais ao francês do que ao ianque. Havia um bordel com o nome de Pequeno Palácio, o célebre Petit Palais.





