Luiz Geraldo Mazza
Um saldo positivo
O encontro de governadores foi além das expectativas: nas matérias de consenso, como a resistência à responsabilidade fiscal no cenário desigual que favorece a União, e a busca de melhores compensações em função da Lei Kandir, e de certa forma das de dissenso como da guerra fiscal, em que se chegou à compreensão de que o darwinismo das retaliações e das imunidades e subsídios não pode continuar.
Oportuna também a iniciativa do governador gaúcho, Olívio Dutra, em provocar a inserção do tema indesejável, o da guerra fiscal, nas discussões, o que afinal deu o tom de psicodrama e de jogo da verdade, que acabou valorizando o seminário. A hipertrofia fiscal que, a despeito das mudanças havidas de 1988 para cá, favorece a União em detrimento do pacto federativo é um fato que só a tecnoburocracia não enxerga. Isso é visível na resistência da área econômica, Malan à frente, a uma reforma fiscal sob o fundamento de que os resultados da arrecadação o justificariam.
Lerner se saiu bem na questão relativa ao encontro de contas do governo federal como condição prévia para a aceitação da lei de responsabilidade fiscal. Com a sua preocupação dominante em mostrar-se colaborador do FMI para assegurar a continuidade do fluxo de investimentos externos, a União impõe, de forma hegemônica, incontrastável, os ônus aos demais entes públicos, Estados e municípios. Essa é uma compulsão antiga: mantemos um modelo formalmente de traço federativo que oculta uma transição para a República Unitária.
Valha aqui lembrar o poeminha anedótico de Drummond: Enquanto o poeta municipal discute com o poeta estadual, o poeta federal tira ouro do nariz. E como há ouro nesse nariz privilegiado.
BIZARRICE
Vicentinho, o homem da CUT, em Veneza: a classe operária afinal vai mesmo ao paraíso
AXIOMA Mais uma descoberta de crime fiscal, envolvendo funcionários estaduais. Depois que o governador promoveu um diretor de banco, acusado de fraudes, a secretário de Estado tudo se poderia esperar. O exemplo, como diz o adágio, deve sempre vir de cima: tolerância gera tolerância.
GLOSA O Centro Cívico virou um campo de concentração com as cercas de ferro cingindo toda a área e até o seu entorno como a pracinha da Marechal Hermes próxima à rotatória. Tanto o povo quanto os agentes dos poderes instituídos vão ter um espaço estabulado como o dos bichos no Zôo. Só falta o aviso: não dêem de comer aos animais. E a alguns deve ser negado especialmente o voto.
PATENTE Há quem critique o ministro Rafael Greca pelo fato de ter criado uma instituição com o nome de Farol do Saber, uma obra do seu governo municipal. O título deveria, no entender dessas pessoas, ser do patrimônio prefeitural e impedido de apropriação por particulares. Lerner foi acusado também de ter se apropriado da patente do sistema de transporte coletivo de Curitiba e tentar vendê-la, no que foi impedido.
Lerner e Cassio transferiram para o escritório particular coleção (luxuosíssima), feita às custas do município, sobre a experiência de desenvolvimento urbano de Curitiba, para fins de distribuição e proselitismo.
RACHA Uma crise da pesada atinge neste momento o PMDB regional: troca séria de acusações, com representação, inclusive, no Conselho de Ética, atingindo o grupo de Acir Mezzadri-Doático Santos contra a equipe de marketing (Pisseti e Benedito Pires). Todos os dois lados, declarando fidelidade ao senador Roberto Requião, certamente confiando numa deliberação favorável. Entre as acusações está a de que o pessoal marqueteiro teria tornado o senador muito soft e que não teria explorado, com a ênfase devida, a questão do pedágio na campanha para o governo. De nada adianta lembrar que águas passadas não movem moinho e que provar alegações genéricas é muito difícil.
A representação no Conselho de Ética não teria sido aceita pela circunstância elementar de que os denunciantes não era filiados ao partido e com isso não se configurava a chamada legitimidade de parte.
Ironicamente dependem agora do equilíbrio do senador à moda de Salomão, não o Soiffer, mas o bíblico.
EPIGRAMA Professores arregimentados tentaram fazer chegar o seu protesto contra Lerner aos governadores. Já que não dava por via terrestre tentaram a água e imaginavam usar pedalinhos para aproximar-se do local do encontro e abrir as faixas de protesto. Como o pedalinho só funciona à tarde, quebraram, gloriosamente, a cara.
Em seu nicho especial, o jacaré a tudo observava.
PROMOÇÃO Durante o Pré-Olímpico, tanto Cascavel quanto Londrina, esta com óbvia vantagem, foram promovidas e numa medida superior até a da Copa América que tanto privilegiou Foz do Iguaçu. Faltou, no entanto, um pouco mais de empenho para dar uma idéia com um pouquinho mais de detalhes sobre o entorno urbano das duas cidades.
Terminados os jogos, será a hora do balanço nesse aspecto para ver o retorno do investimento e afinal quanto custou tudo isso para os municípios e se os ganhos ou perdas correspenderam ao esperado.
FOLCLORE Anedota corrente entre médicos: um pai se preocupa porque a filha, novinha, está há tempo numa sala com um menino da vizinha. Quando a menina sai, o pai pergunta o que ela estava fazendo.
Brincando de médico.
O pai arregala os olhos e pergunta se o médico era o menino.
Não se preocupe, pai. Ele não me atendeu: era do INSS.
Por enquanto a piada fica por aí, mas se a degradação do sistema prosseguir a história poderá ser modificada também para o médico de convênio.
CROMO Corsários da construção civil querem ocupar, mais do que já fizeram, os morros de Bombinhas, Santa Catarina. Em Zimbros houve reação.
AFORÍSTICO Vivemos todos um pouquinho de Franz Kafka diante do governo quando nos impõe, sem comprovação clara, multas de trânsito e vazamentos de água.





