A gênese do escândalo
Toda a articulação dos desvios nas autarquias de Londrina (Comurb e AMA) se dá após o batismo da venda das ações do Sercomtel. O curioso é que essa negociação, seguida depois da operação com o banco Fonte-Cindam, indiciado em tropelias no Banco Central, e a Copel, chegou a render uma CPI que, da forma a mais estranha, foi dissolvida logo após ser instalada na Assembléia. Só isso já é uma barbaridade, típica da nossa cumplicidade institucionalizada, que a todos compromete, classe política, órgãos de controle e mídia.
Num dos depoimentos mais relevantes ao Ministério Público – e feito na capital, sob a alegação de que o depoente carecia de proteção especial e com a vida sob ameaça – a venda das ações do Sercomtel é apontada como o divisor de águas da vida comportamental das autarquias, antes infensas a nódoas. Isso pelo menos no ponto de vista desse depoente.
O curioso é que o foco principal, a ter como verdadeira essa afirmação, parece esmaecer no que se tem dito sobre esses drenos para desvios de dinheiro público e sua aplicação em campanha eleitoral, tanto a do prefeito de Londrina, do governador (por extensão da vice governadora) e de candidatos a deputados estadual e federal da região.
Como no episódio Collor, só o tiro cruzado entre componentes do mesmo grupo é que pode efetivamente esclarecer. E é o que começa a acontecer.
GRAFITE
‘‘Requião: cadê os dólares?’’. Numa parede do Centro Cívico foi dada a resposta: ‘‘Tá no bingo do Greca’’. É a versão popular, rústica, da insinuação política, sempre mal intencionada. Agora há outras em cima do Cassio e que pelo menos guardam a virtude de não repetir o trocadilho ‘‘Cassio Níquel’’
BIZARRICE O acervo, dos mais importantes do Continente sobre a República, do historiador David Carneiro, está encaixotado, já que o respectivo museu vai ser demolido. Não espanta que num governo, que está sepultando o Paraná, se encaixote um museu.
O curioso é que para badalações discutíveis como Memorial de Curitiba, Arcadas do Pelourinho, anjinhos saltitantes, Faróis do Saber e mais o estabulamento do Centro Cívico haja recursos e falte para a preservação de nossa memória.
AXIOMA Justificativa do Marés para a demissão do Villas-Bôas: não teme ícones. Os que atentam contra ídolos -sejam imagens, estátuas ou pessoas – também poderiam usar a mesma argumentação.
Não temer ícones, não justifica que se os desrespeite. Se não aquele bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, ao chutar a imagem de Nossa Senhora, estaria a salvo de qualquer censura, ainda que infringindo dispositivo penal.
GLOSA O mundo virtual é distante do real: o anúncio do Oscar falando das praias e exaltando as qualidades da telefonia não se aplica aos celulares pelo menos em nosso balneários, com serviços lamentavelmente terceirizados.
GESTUAL Alex, talvez o maior jogador do Brasil hoje, ao fazer seu gol-arte anteontem, beijou o anel de noivo numa saudação à noiva. Gesto poético e mais terreno do que o dos braços estendidos para o céu.
SPRAY A denúncia do repórter Israel Reinstein em torno da Fundação Metropolitana de Desenvolvimento Social e Econômico (Fundese), que estaria operando como regularizadora de ocupações em áreas críticas, em nome do governo (tanto Lerner quanto Cássio aparecem como curadores da entidade) deixou o Centro Cívico em pânico: ninguém queria assumir responsabilidades. - Cassio Taniguchi chegou anteontem a ameaçar processar aqueles que botaram seu nome no conselho, mas ontem imperava o silêncio na prefeitura sobre o assunto. - O mais grave é que a Universidade Federal se recusou a assinar um convênio com a instituição, o que amplia o raio de dúvidas. Uma das questões é técnica e ética: pacto ambiental para agredir, paradoxalmente, a ecologia, regularizando o que não pode e não deve ser feito. - O governo que ‘‘terceiriza’’, que cria entidades paralelas como as tais organizações sociais (ParanaEducação, EcoParana), está sujeito a abalos. Haja vista para o seu mais ambicioso projeto, o do pedágio. - Na Babel dos trapalhões isso é rotina. - Atônitos andam também os vereadores com as novas regras para os dispêndios camaristas. Corte de aspone e fantasma é sempre doloroso. - A demagogia das invasões urbanas está matando Curitiba. Só que essa, que deu origem ao Zumbi dos Palmares, Guarituba, com mais de 5 mil famílias, matou um tributário importante da Bacia do Iguaçu, o Palmital, e que o governo vai resolver pelo método mais caro: o de suprimir esse rio como já se fizera, desde o início da captação da BR 277, com o Atuba, pelo motivo de estar super poluído. - Detalhe curioso: o político que comandou essa invasão era partidário de Lerner nos tempos do PDT, a rosa do populismo. - Dos 88 tótens de Curitiba, quantos estão em pé, quantos funcionam? Essa é a rotina dos que sobrepõe o virtual à virtude de por os pés no chão.
SILOGISMO Se o Carnaval de Curitiba fosse tão intenso quanto os debates que provoca sobre sua inocuidade, bateria o do Rio de Janeiro.
EPIGRAMA Realismo fantástico é a econometria dos clientes da área pública. Seja de empreitada, de custo de tarifa. Aliás, pode-se dizer o mesmo de muitos dos planos de viabilidade técnica e econômica.
FOLCLORE O assaltante entra no banco e ainda faz humor: ‘‘Isso é um pedágio’’. Como poderia dizer: ‘‘É um IPVA antecipado!’’
CROMO O motorista morreu em acidente e foi pro céu. De repente se viu diante de anjos, serafins e querubins, em postura burocrática, antecipando-se a São Pedro. ‘‘Aqui também uma cancela do pedágio!’’, chiou.
AFORÍSTICO Nas pesquisas, Lerner está bem acima de Olívio Dutra e Mário Covas, figurando em primeiro e segundo lugares, Roseana Sarney e Jereissati. Nunca na história do Paraná um governador esteve tão mal no ‘‘ranking’’. Como ouve mais os áulicos do que a opinião pública acha, todavia, que é presidenciável.

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