Luiz Geraldo Mazza




Sortilégios da praia
Conta o arquiteto e designer Manoel Coelho, que mesmo nas praias de Floripa é possível o banhista encontrar à flor dágua uma embalagem de plástico flutuando e com um conteúdo escatológico: titica humana. A essa ‘‘surpresa’’, sacana, os ilhéus chamam de ‘‘presentinho’’. É pelo menos como sintaxe, bem ao gosto da região com sua capacidade incrível de nominar as coisas com graça, algo bem menos agressivo do que costumamos avistar nas praias do Paraná, onde o conteúdo flutua sem qualquer embalagem.
Consta que à época dos filmes da moda, a série ‘‘Tubarão’’, situações de pânico (ou caberia o trocadilho de penico?) foram vividas em alguns dos nossos balneários por força de sua deficiente estrutura de saneamento. Coliformes fecais – destes que são flagrados apenas por microscópios de última geração, afinal invisíveis a olho nu – são bem mais miméticos, disfarçados, do que restos de privada como se agressores do meio ambiente decidissem fazer ‘‘deliverances’’ no próprio mar em que se banhavam.
De repente, um ar de inquietação tomava conta dos banhistas como se estivessem pressentindo o pior, um tubarão, tipo martelo, a tintureira ou mesmo seu primo bastante próximo, o cação viola, atraído pelo movimento de pessoas em suspensão na crista das ondas depois da arrebentação. A lembrança das cenas de horror dos filmes da moda, a descrença ou ceticismo nos alertamentos do Jacques Cousteau de que tais animais seriam inofensivos (a mesma linha de argumento dos samaritanos do Judiciário diante dos menores delinquentes que estão para nós como as vacas sagradas para a Índia) – tudo, enfim, criava o clima de expectativa para o pior, odor de sangue e morte.
Quando as pessoas já se preparavam para escapar do perigo, aparece flutuando nas ondas o horror e a náusea, como se tivessem lançado num mesmo ponto todos os dejectos da imensa multidão que ocupa casas e apartamentos: uma carga dos esgotos, in natura, crua e agressiva. Rebolando nas ondas, azar dos que não os desviaram e que esperavam a quebra da maré, atingidos por uma calamidade, pior do que vazamento de petroleiro. E da praia, em que sempre se procura o sonho, o pesadelo terrível desmentindo os boletins oficiais de balneabilidade.



BUENA DICHA
Serventuário da Justiça foi buscar estímulo na sortista para a sua disputa por uma vaga de cartório com a filha de um desembargador. Isso é que ter fé para ninguém botar defeito

ÁGUA VIVA Flor ornamental, de tons avermelhados e irizados, a caravela flutua no oceano verde opala. Sua beleza ganhou uma comparação adequada com imagem da mitologia greco-romana: ela é, por todos os motivos, a Medusa, uma das três Górgones, e que tinha serpentes à cabeça e petrificava os que a contemplavam. A medusa, essa do mar, petrifica também e posso dar um testemunho sofrido em torno do assunto porque o princípio urticante, talassina e congestina, entra rapidamente na corrente sanguínea e leva ao bloqueio dos rins.
Estou em Piçarras (SC), com Lucy e as filhas pequenas quando avisto no cocuruto da onda, além da arrebentação, a flor ornamental: pensando tratar-se de um equipamento de mergulho que boiava, fui atrás e quando me aproximei eu a vi, linda e tenebrosa, a dobrar-se na maré e acabei atingido. Tentava gritar de dor por socorro e a congestão me levava à sensação de vômito. Garrafas de vinagre foram usadas para tirar os pegajosos tentáculos de ação abrasiva sobre a pele, mas tive que baixar hospital.
No Japão, há urtigas do mar, da mesma família, que matam. Essa Górgone de Santa Catarina me petrificou mais do que a mitológica.
OS FALARES Como estudante de Direito, volta e meia me batia com o vocabulário, síndrome em todos os colegas. Flertava com uma garota de Itajaí e, como batia papo na frente da casa dela, achei que o mais correto seria num lugar em que estivéssemos mais à vontade. Não me passava pela cabeça a idéia de sacanagem. Justifiquei essa mudança de lugar para conhecer ‘‘arestas de sua personalidade’’. Punido pelo mau gosto e o pernosticismo da expressão, tive que ouvir um protesto bem açoreano: ‘‘Sem aresta, estupor!’’
Um dos saques comuns de pescadores açoreanos, como os da vila do Araçá, em Porto Belo, é se referirem aos peixes graúdos como ‘‘grados’’. Essa mancada da fala indevida com a guria de Itajai, é típica de um ‘‘grado’’ embotado.
FANTASMAS Fantasma mesmo é o pirata Zulmiro que teria morado nas Mercês e sido o autor do subterrâneo que ligaria as ruínas de São Francisco ao lugar em que está a fonte ‘‘Chico Mendes’’. É famosa na capital a estória do encontro de uma panela (antes isso do que penico, tal qual se deu na novela ‘‘Terra Nostra’’) cheia de ouro durante realização de obras urbanas nas imediações do antigo Palácio São Francisco, hoje Museu de Arte do Paraná.
Mas o corsário famoso tem o dom da ubiquidade. Tanto que entre Caiobá e o Porto da Passagem a Guaratuba há três morros que recortam o horizonte e os velhos moradores costumam dizer que num deles está um dos tesouros de Zulmiro.
CONCRETISMO Sebastião França, poeta, advogado, explicava os conceitos da poesia práxis, do poema-processo, poema concreto. Tentava demonstrar o lado visual, a exploração do espaço, a verbivocovisual. Escreveu no quadro negro a palavra ‘‘só’’ bem miudinha, perdida na imensidão. Acrescentou que isso reforçava a idéia, o senso visceral de solidão. Quase tão aguda – acrescentava – quanto a minha. Como era delicioso infundir o mito de que o artista tem que necessária e irremediavelmente sofrer. Não dá para esquecer o estigma de Chopin lançando a hemoptise rubra sobre o teclado alvo do piano. Intelectual até sem orelha ou com uma muito grande dá para aceitar. Sem olheira, jamais!