Luiz Geraldo Mazza




Um saco sem fundos
Para fechar as duas folhas de pagamento em dezembro, o 13º e a normal, o governo teve que fazer acrobacias. Com sua notória incompetência para gerar renda, argumento que levou Lerner a substituir o sério e preparado Miguel Salomão, sob o fundamento de que a arrecadação estava deprimida, a gestão atual não sabe apelar a outra magia que não seja a antecipação do ICMS, o que tem feito com grandes empresas privadas e também as públicas, tal qual se deu agora com a Petrobrás.
O pior é que Jaime Lerner não parou de nomear. O escritório de Romeu Bacelar, um dos maiores administrativistas do Brasil, está provando na Justiça que, mesmo depois do concurso dos procuradores, que o Palácio se recusava a nomear, há 1.193 designações, noventa delas para cargos efetivos e as demais para cargos em comissão. É uma catadupa de razões que desmonta a frágil alegação de que a preocupação dominante é com as restrições da Lei Camata, às quais tentará se ajustar até o segundo semestre.
Nessas horas é que se percebe a contundência dos focos de corrupção e de aguda prodigalidade como os detectados no Banestado e em iniciativas de cunho irresponsável como a dos gastos delinquentes com propaganda (quase R$ 500 milhões em cinco anos) e com bobagens voláteis como os Jogos da Natureza, em que o recorde de irregularidades é maior do que os feitos atléticos.
No caso específico da não nomeação dos procuradores houve decisão inédita: a de impor multas, por descumprimento da sentença, à pessoa física de Lerner, o que é inovador e pedagógico. Pois até agora a administração recorre ao velho estilo que a caracterizou no episódio irresponsável da ocupação do Centro Cívico pelo MST: ganhar tempo, de forma elástica, fazendo da procrastinação o estilo e a dinâmica do grupo no poder.
A velhacaria já não pode ser chamada de inadimplência: aí estão precatórios acumulados bem como obrigações não pagas a prestadores de serviço, empreiteiros, locadores de prédios, férias de servidores ajustadas também na linha da moratória infinita, o que revela imprudência e ausência de pulso para tocar responsabilidades efetivas de Estado. Pelo jeito as pesquisas, que estão como a cara dos administradores estaduais, já fizeram o alerta e se, ao menos, houvesse sensibilidade política, a essa altura o governo procuraria fazer alguma coisa de concreto para evitar o vexame nas eleições municipais.



BIZARRICE
O maior drama dos paranaenses em qualquer congresso de que participem é na hora em que as delegações entoam suas músicas típicas: mineiros optam entre ‘‘O Peixe Vivo’’ e ‘‘Minas Gerais’’, São Paulo com o dobrado ‘‘Terra da Garoa’’, o Rio com seu hino ‘‘Cidade Maravilhosa’’. No Paraná há o silêncio quando temos, e já me referi a isso, a marcha-rancho ‘‘Estão voltando as flores’’ de Paulinho Soledade, hoje o hino dos Amigos do Hospital de Clínicas. Poderia ser a nossa senha até pelo fato de ser conhecida no Brasil inteiro.

AXIOMA Ônibus e táxis estão usando propaganda o que é uma sobre-renda que não entra nos cálculos das planilhas tarifárias. Dentro em pouco, caso o abuso se alongue, teremos ônibus e carros com tanta propaganda que lembrarão piloto de Fórmula 1. Afora o abuso há ainda a infringência do Código de Trânsito na parte do desvio de atenção provocado por tais reclames.
Fica ridículo lembrar ao usuário que vandalismo em ônibus e pula-catracas provocam aumento de preço da tarifa como se coubesse ao passageiro e não ao poder público evitar tais ocorrências.
GLOSA Uma carioquice imperdoável essa de eleger ‘‘Garota de Ipanema’’ a música popular do século no Brasil. A retórica e triunfalista ‘‘Aquarela do Brasil’’ de Ari Barroso é o nosso jeito de ser com o gongorismo e tudo.
EPIGRAMA Quem está fazendo demagogia no caso das cheias em Minas Gerais: o presidente FHC que inspeciona a região ou o Itamar Franco condenando como falsa a preocupação do primeiro mandatário do País?
SPRAY Incrível que o governador do Estado, tido como conhecedor das normas da arquitetura e urbanismo, ignorasse que não podia mexer no layout do Centro Cívico. - Um dos autores do projeto, o mais novo à época, nos anos 50, Sérgio dos Santos Rodrigues, condenou abertamente mais essa pisada na bola dos ‘‘intocáveis’’ e fez algumas observações sobre o que representou a iniciativa em termos nacionais (Lúcio Costa) e internacionais (um congresso que a apreciou na França). - Com uma das mãos esse grupo político e econômico finge preservar edificações (em casos como o do Mueller claramente para proteger um grupo como se dá agora com o Bosque dos Gomm em favor do mesmo empresário) e com a outra descaracteriza nossas raízes históricas. - Essa batalha vai longe e mostra que Curitiba precisa aprender com Londrina a mobilizar a cidadania para evitar abusos e fraudes. - Lerner iniciou sua carreira com os calçadões para preservar o pedestre e sua circulação e agora cuida de fazer um megaestacionamento no Centro Cívico. É coerência pra ninguém botar defeito. - O novo Centro de Triagem da Travessa da Lapa, Curitiba, é bem a expressão do que ocorre na Secretaria de Segurança: começa com cem presos quando a lotação máxima é para noventa. - A PM revistando os artesãos que cercavam a Universidade Federal, no início da tarde de ontem, como ação preventiva, apenas serve como exibicionismo a pretexto de devolver o perdido sentimento de segurança da população em pânico.
FOLCLORE – De que morreu, seu pai?
– De IPTU inflado e IPVA antecipado. Os dois de uma só vez...
CROMO ‘‘Vê, estão voltando as flores// Vê, nessa manhã tão linda// Vê, como é bonita a vida// Vê, há esperança ainda// Vê, as nuvens vão passando// Vê, um novo céu se abrindo// Vê, o sol iluminando// Por onde nós vamos indo//’’ É a letra da marcha rancho do Paulo Soledade.
AFORÍSTICO Ainda bem que há esperança porque está tudo nebuloso, apesar do ar de saúde de vaca premiada do Palácio.