Luiz Geraldo Mazza
O caminho das pedras
Percebe-se que o caminho das pedras para políticos e suas clientelas na Câmara Federal continua inalterado e tem escala necessária pela Comissão de Orçamento, aquela que celebrizou os anões e que se acreditava, pela divulgação feita em torno das cassações, ter sido removida a metástase que minava aquele setor do parlamento.
O líder do PTB, Pedrinho Abrão, é acusado de cobrar comissão da empreiteira Andrade Gutierrez na construção de barragem no Ceará. É agora ameaçado de cassação. Mas o deputado paranaense Paulo Cordeiro acabou, na sequência, aparecendo com destaque ao esmurrar o chefe de gabinete de Gustavo Krause, autor da denúncia.
A amnésia política é proverbial no Brasil: houve tudo aquilo com Collor e ele aparece ainda com algum destaque em pesquisas como solução presidencial, a CPI do Orçamento se embrenhou até num nebuloso homicídio e tudo dá a entender que nem este caso e muito menos o impedimento de um presidente foram suficientes para mudar a rotina brasileira, em que pese o espetáculo moralista que foi então difundido.
Empreiteiras e demais organizações que gravitam em torno do poder deveriam se resguardar contra mordida na base da gravação, do flagrante, da denúncia. É que um dos motivos que levava esse setor empresarial a acertos estava na inflação e na demora dos pagamentos que induziam, por seu turno, ao ritual do superfaturamento ou dos aditivos contratuais.
Ocorre que há parcerias muito bem feitas entre essas clientelas e o sistema de poder que nasce na hora de obter fundos eleitorais e encontra o seu retorno em licitações formalmente legais, mas moralmente viciadas no recurso da pré-qualificação ou de outras e criativas formas de acerto prévio.
Solucionar bem este problema é tão simples quanto dar como limpa e justa a contabilidade das campanhas eleitorais. Não é impossível, todavia se trata de um exercício desafiante de democracia e civismo radicais.
BIZARRICE - O promotor da comarca de Mallet, anos 50, quis homenagear a noiva e o futuro sogro no seu primeiro júri e ofereceu o réu à sua futura esposa como se fosse um toureiro na arena espanhola prometendo dar a orelha do miúra à sua amada depois do sacrifício.
BRAINSTORMING - Conheci ontem uma instituição admirável: o Cepat - Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores -, que mantém uma Escola de Formação Política e que, a despeito de suas raízes religiosas, se empenha no pluralismo. Fui para um seminário de avaliação dos resultados das eleições e seu significado bem como identificar possibilidades e limites para a chamada esquerda paranaense.
Havia gente de todos os partidos e de várias cidades, cada um relatando casos específicos ocorridos no último pleito que para mim teve significado meramente localista e não nacional, como pretenderam estudiosos como Paulo Singer.
Fiz uma indicação, já que a esquerda está atônita não apenas aqui e chega a falar em Keynes no instante do desmonte estatal, que se recuperasse, na faixa do pensamento cristão, a contribuição do padre Lebret que com seu Movimento de Economia e Humanismo doutrinou e foi à prática de formas solidárias de desenvolvimento que englobassem o econômico e o social e não os tratassem de forma dicotômica, como se não pudessem constituir uma unidade indivisível.
SPRAY - Na pauta de ontem do Órgão Especial do TJ, as matérias principais se referiam a mandados de segurança junto a câmaras criminais contra acusados de crime do colarinho branco (fraude com guias do ICMS). - Havia 24 feitos ontem, entre os quais uma queixa crime de esposa de juiz contra um promotor e um procedimento administrativo da juíza Teresa Cristina de Paula Espíndola pedindo vitaliciedade. - Foz do Iguaçu inaugura neste domingo a sede luxuosa do seu forum no bairro Jardim Polo Centro. Chefes dos três poderes comandam a festa, importantíssima porque habilita a cidade a realizar em outro de 97 o 2º Congresso dos Magistrados do Mercosul, o que foi acertado em Florianópolis. - Enquanto isso ao Forum de Curitiba resta a dúvida hamletiana como a do Algaci Túlio que não sabe se vira vice ou fica deputado: implosão ou reconstrução? - Pesquisa da Rádio Difusora, no programa Carlos Simões de ontem, apurou que se houvesse hoje eleição para o governo, Requião apareceria com 44%, Álvaro com 29%, Rafael Greca com 6%, Stephanes com 2%. Enfim, a mesma ilusão que levou o Carlos a se imaginar prefeito de Curitiba quando dominava as preferências, até Lerner e Cássio entrarem em campo. - Segunda, dia 9, o presidente do TRT, José Fernando Rosas, inaugura em Rolândia a sede própria da Junta de Conciliação.
FOLCLORE - Havia um bar em Curitiba chamado Cinelândia na rua Ermelino de Leão, bem pertinho da Confraria dos Pés Vermelhos (Curitiba Palace Hotel), tocado pela dupla Vítor e Ligeirinho (Ronaldi Abrão), especializado em algo que hoje faria o escândalo de ecologistas: tatu, paca (cotia, também), polvo, jacaré, tartaruga. A peça identificadora do bar era um espremidinho de limão que o Ligeirinho restabeleceu no Juvevê, perto do Mercadorama nos nossos dias.
Um dia o Arapa, uma figura boníssima da Boca Maldita, corcundinha e que apreciava umas canjibrinas, chegou no balcão, tomou uma reforçada, deslocou-se até o banheiro e de lá, em seguida, voltou impressionado, confidenciando ao Ligeirinho que deveria parar de beber urgentemente, pois acabara de ver um jacaré nas instalações sanitárias. Ligeirinho acalmou-o, explicando que havia lá um jacaré de couro, carne e osso. Arapa tomou outra, como quem canta salmos.





