Luiz Geraldo Mazza




Como sempre
Com toda a aura emblemática em torno do ano 2000 a transição se deu como sempre: a esperança maior do que a depressão, em que pese o fato de haver registros de suicídios, uma forma extrema de renúncia, nem mais exaltada do que a do ‘‘mala’’ russo, o Yeltsin. No caso brasileiro e paranaense fica bem nítido que as coisas serão certamente melhores do que neste 1999. A economia deve sair da estabilização para um leve aquecimento e aqui, regionalmente, será maior do que na média nacional.
O baixo-astral pega o nosso governador, sempre um campeão de pesquisas e agora num tobogã, sujeito ainda a atritos por não dispor daquele saco de aniagem que neutraliza a fricção. O Datafolha foi uma ducha de água fria no clima, normalmente triunfalista e irresponsável, do Palácio Iguaçu. Se Lerner tiver a humildade do seu colega do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, que procurou extrair algum exemplo da sua condição de penúltimo lugar na lista de dez governadores, pode reverter o processo. Para tanto será indispensável dar férias aos áulicos que o sufocam com o ufanismo cotidiano.
Há tudo para o nosso governo melhorar. Aos poucos teremos a resposta do novo perfil da economia, já visível em indicadores que colocam bem o Paraná, tanto na sua vocação tradicional (agroindústria) como na da indústria e que acabam se refletindo no desempenho superior do setor de serviços, o que mais cresce.
Indispensável que o governo seja mais virtuoso e menos virtual ou que seja virtual apenas para alcançar objetivos virtuosos como o de investir na cidadania e não na cumplicidade, como ordinariamente acontece.
Lerner foi pioneiro na questão previdenciária, um dos pontos estrangulados do ajuste fiscal. Aí não depende apenas de si, mas dos tribunais, até aqui com a tese de sua inaplicabilidade, com alguns ministros, antecipando julgamentos, o que é um absurdo, sugerindo que o tipo de direito adquirido alegado seria uma ‘‘cláusula pétrea’’. Convencido o Judiciário da impossibilidade de o País atingir níveis de desenvolvimento auto-sustentado com o absurdo dos privilégios do setor público certamente fará uma revisão daquilo que parece dogmático.
Para Cássio Taniguchi o final de 99 foi bom. Para Belinati, péssimo. E ambos são aliados relevantes no processo eleitoral de 2000. Também a perspectiva eleitoral não é negativa para o governo e isso não por ausência de erros, que são muitos, mas pela fragilidade orgânica da oposição, sem quadros e sem contar com quadros hábeis e competentes para promover melhorias. Essa carência fatal de oposição é o nutriente maior de um governo frágil mais no plano moral do que no técnico-administrativo.



BIZARRICE
Dentre os rituais praticados, ontem, tivemos o uso de roupa branca, a adoção de ‘‘simpatias’’ (lentilha, evitar aves que ciscam para trás) e o ‘‘estouro’’ de champanhe. Um ar de mistério, numa das comemorações, onde quase se reproduzia as celebrações da Fórmula 1, surgiu quando apareceu um disposto a colecionar rolhas. Que fazer com as rolhas? perguntava um filósofo, enquanto maliciosos riam.

AXIOMA Durante toda a manhã de ontem os ‘‘terroristas’’ do trote ligaram para emissoras de televisão e rádio anunciando que iriam colocar bombas no Parque do Barigui. A polícia tirou sarro: o anúncio é mais frio do que o ‘‘bug’’. Era claro, também, que a aglomeração criaria problemas no trânsito, apesar da redução de mais de 25% da frota.
O trote de telefone pode ser apurado. Basta uma polícia preparada.
GLOSA O ‘‘bug’’ do milênio para alguns funcionários estaduais foi a revisão dos holerites determinada por Gionédis, mais um ‘‘round’’ do jogo de braço com a secretária Maria Elisa Paciornick. Consta que num deles, no CRAFE, Giovani chegou a botar um revólver em cima da mesa da reunião. Cristóvão Colombo era mais sutil e o fez com a manobra do ‘‘ovo em p钒.
EPIGRAMA O sonho dos militares da reserva (alguns, é claro) com relação a FHC acabou acontecendo na Rússia com a renúncia. Mas nem ele passou por um grande constrangimento como o de sem-terras se postarem diante de sua fazenda.
SPRAY A transição para 2000, que não é o novo milênio, o que aliás dará mais motivo para celebrações dentro de um ano na área do turismo especialmente, teve seu ponto alto no Paraná em Curitiba, não apenas no Parque Barigui. - Em seguida tivemos as comemorações no Litoral com cerca de meio milhão de pessoas ocupando a estreita orla. As festas mais fortes foram em Guaratuba e Caiobá. - Na Ilha do Mel, apesar do controle da frequência, limitada a 5 mil pessoas, houve muita vibração, campings e pousadas lotados, embora os preços destes últimos. - Houve duas mortes por afogamento na véspera, atribuídas por oficiais bombeiros à imprudência de banhistas, inclusive atirando-se ao mar na madrugada. - O equipamento dos salvamentos não é lá de primeiro mundo. No feriadão de setembro um adolescente morreu entre Caiobá e Matinhos porque não havia lancha ou jet-sky à disposição e o salva-vidas teve que encarar o mar adverso na braçada. - Condições de balneabilidade, antes da chegada em massa dos banhistas para o réveillon, eram satisfatórias. Na sequência a coisa vai piorar, especialmente na temporada cheia, face às deficiências conhecidas de infra-estrutura, especialmente no saneamento. - No norte animadas as festas em Londrina, Maringá, Paranavaí. No oeste, destaque para Foz do Iguaçu, esta sim uma comemoração para turistas, inclusive do exterior, embora a concorrência do Rio de Janeiro com seu megaespetáculo.
FOLCLORE Se o ‘‘bug’’ fizesse desaparecer as dívidas do Paraná, e também as tabulações das pesquisas políticas, o governo estadual comemoraria.
CROMO A barquinha azul celeste, com flores e sem Iemanjá, o lugar comum de hoje em todas as praias.
AFORÍSTICO Que 2000 na política seja mais de caráter, menos de karatê.