Luiz Geraldo Mazza
O senador Roberto Requião teria orientado seus advogados para pleitear na justiça o direito de resposta à fala de anteontem do governador Lerner na televisão, acusando-o de brecar os empréstimos do Paraná na Câmara Alta. É uma regra do jogo democrático que o senador não admitia quando era governador e submeteu o Judiciário aos maiores constrangimentos. Nem por isso devem os juízes deixar de examinar, com serenidade, o pleito do senador até para provar que nada têm de pessoal, de subjetivo, contra o polêmico ex-governador.
Se houver a concessão do direito de resposta, Lerner vai se arrepender de ter provocado o assunto. Além de tê-lo feito tardiamente e não com o sentido de desforço imediato, como deveria ter procedido, sabe que o senador o desafiará a abrir essa bolsa de Pandora em que se transformou o problema das concessões, que não foram poucas, feitas às montadoras e insistirá em dizer com aquela folga que o caracteriza que o Estado quebrou, faliu. Aí também tanto o governo como o seu secretário de Fazenda, a despeito da insistência com que se tratou do tema, jamais deram a resposta esclarecedora e com isso deixaram a dúvida no ar, beneficiando a denúncia vagamente formulada.
Há tribunais de Contas que já estão se manifestando sobre as montadoras. O do Rio Grande do Sul é um deles e seu presidente, Celso Testa, em avaliação não oficial, em caráter preliminar, estranhou a antecipação de R$ 253 milhões à GM sem juros. Aduziu: precisamos ver como os demais Estados trataram do assunto. Haveria diferenças entre o que o Legislativo gaúcho (aqui o nosso não teve qualquer acesso à intimidade do procedimento) autorizou o Executivo a assinar e o contrato de 30 itens firmado. Duas ações populares tramitam no Judiciário, uma do PT pedindo a devolução de R$ 30,2 milhões, estimativa do que a GM lucrará no mercado financeiro de março, data do empréstimo, a setembro, início das obras; outra do PC do B pretendendo a devolução integral.
Aqui desde o início, Requião anunciou luta em todos os fronts contra a vinda das montadoras. Aliás em seu governo como no de Álvaro Dias não tivemos qualquer investimento de porte. O ex-governador anunciou uma cautelar como preparo de ação popular contra o governo estadual. De qualquer forma deixou claro que manteria o estado de beligerância. Na sequência bloqueou os pedidos de empréstimo na Comissão de Assuntos Estratégicos. Agiu com uma rapidez não encontrável no governo e escudado numa decisão unânime dos seus pares, o que retira esse caráter pessoal da questão. Não é a Requião e ao seu eleitorado que o governador deve se dirigir, mas ao Senado como instituição e abrir ali as clareiras para uma ação política de envergadura.
Se ficar no pingue-pongue verbal com Requião enche a bola do senador e leva seguramente a pior. Discurso inflamado, manifestação de indignação só têm função política e depende do auditório que o assimila: os que desejam saber os termos do contrato com as montadoras continuarão cada vez mais insatisfeitos com as evasivas de Lerner, alegando segredo de Estado; e os que não gostam de Requião e do seu estilo dissolvente, desagregador, não aumentarão a sua cota, já imensa, de repúdio ao gauleiter do Bigorrilho.
BIZARRICE Um repórter aqui da casa procurava saber ontem no Palácio o quanto havia custado a fala do governador na tevê. É tão fácil de sabê-lo quanto conhecer os termos contratuais das montadoras. Não há cor obviamente em caixa-preta.
SPRAY Nervosidade ontem no mercado financeiro: Alagoas e Osasco anunciaram que não têm como pagar os títulos públicos emitidos que venceram domingo. União já avisou que não fica com o mico. Banestado entrou bem nessa. - Por falar em Banestado, esclareça-se que os maiores débitos e não honrados são da área agrícola ou melhor agroindustrial, dos usineiros, Atalla à frente. - O setor é campeão da inadimplência nacional e o Garcia Cid está prometendo usar o banco para fomentá-lo quando o único meio de recuperá-lo é justamente torná-lo duro e operativo como comercial, fugindo das manobras de risco, tal qual um punk foge de um desodorante. - A muda no banco ainda vai levar mais uma semana para o ritual das assembléias de acionistas, etc. O ritmo paranaense é incompatível com a velocidade das crises econômica ou política. - Manifesto de Requião chama Lerner de mentiroso e de haver levado ao Banco Central informe desatualizado sobre as contas estaduais, as de 95, pois as de 96 revelam, segundo o senador, que o Paraná quebrou. Nunca o governo deu resposta mínima à provocação e quem cala consente. Na verdade devemos tudo ao governo e à sua incapacidade de reagir no momento exato e com os dados certos. O Paraná não quebrou, mas quem dá a impressão de que isso aconteceu é o governo. - Requião no Senado e Álvaro Dias na Telepar produzem mais fatos políticos do que Lerner no governo que ainda por cima despreza os que sabem das coisas e adora ouvir o bobo da corte que sempre tem a última anedota de polaco pra agradar a fauna. - Juíza Anésia Kowalski, que presidiu a instrução do caso das bruxas de Guaratuba, assume em agosto a Vara Cível da Comarca de Colombo.
FOLCLORE 1 Mauro Baruque e Giovani Gionédis falando sobre modernidade na tevê e este, que abandonou a barba, se disse conservador. Já o Baruque, como conserva a barba, deve ser um progressista. Parem o mundo: eu quero descer!
É demais para um estudo de lógica e silogismos.
FOLCLORE 2 Lerner pediu à imprensa que o deixe em paz. O melhor seria o contrário, que ele esquecesse a imprensa. Ela é o espelho no qual se recusa a olhar.





