Luiz Geraldo Mazza




Ascensão e queda: Curitiba
Muitos acham que os feitos de Lerner na capital ainda o levarão à Presidência. Até porque, haja mito, Curitiba seria a capital dos lançamentos para marketing: inovações comerciais, comportamentais, urbanísticas.
Pois o Anfrísio Siqueira, presidente da Boca Maldita, sempre lembra que foi no jantar da instituição que começou a arrancada de Collor à Presidência. E agora quem esteve lá, confiando no talismã, foi o Ciro Gomes.
Mas a capital paranaense pode também ser uma referência aziaga. Em 1953, oito meses antes de suicidar-se, Getúlio Vargas, presidente, veio até aqui para as celebrações do centenário de emancipação política. Presidiu reunião da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai (CIBPU), que envolvia governadores ligados por esse fundamento geográfico, e, como se dirigia a representantes dos Estados que detinham maior potencial hidráulico, anunciou a criação da Eletrobrás. O encontro foi no salão nobre da Faculdade de Direito de Curitiba e eu estava lá, testemunhando o ponto alto do discurso da Vargas anunciando mais intervenção estatal num momento em que o País já era inundado pela forte campanha da grande imprensa a favor do capital estrangeiro.
Lembro que o anúncio de Getúlio acabou mexendo nas bolsas internacionais, mas um desses chefões de cartéis, que pescava trutas arco-íris no Canadá, partiu para a contestação, subestimando a fala presidencial e buscando acalmar um mercado tenso a declarações nacionalistas.
Vargas estava com a corda toda: havia criado a Petrobrás e partia, agora com todo o entusiasmo, para a Eletrobrás. As estatais vão aparecer na Carta Testamento que garantiria a vitória de Juscelino e a moratória para o golpe, já incubado, em 55 com o impedimento de Carlos Luz. Que era uma espécie de luz no fim do túnel para os falsos liberais da UDN que queriam permanecer no poder, o que vinham conseguindo com Café Filho.



A FICHA
Quando Requião abriu os arquivos da DOPS havia muita expectativa sobre o que constava do fichário das pessoas. Um fim de tarde, no ‘‘Correio de Notícias’’, chega o assessor da Segurança, jornalista Robertinho Massignan, com uma ficha, cujo tamanho, à medida que desenrolava, parecia um desses tapetes de monarquias faustosas. Era a minha ficha, maior do que o repórter que a desenrolava. Houve comemoração e o acontecimento, engraçadíssimo, virou notícia de primeira página e um registro na coluna da Débora Iankilevich.
Os assentamentos traziam coisas curiosas como o comício na praça Tiradentes contra a invasão de Cuba por mercenários ianques (baía dos Porcos) em que fui orador juntamente com o Léo de Almeida Neves e o Candinho, o hoje secretário de Segurança, o mais radical de todos nós. E também manifestos pela legalização do Partido Comunista nos quais apareciam assinaturas como as de Aníbal Khury e João Vargas de Oliveira que jogavam do outro lado.
Relatório pesado vi um contra o meu tio, Raul Mazza, chefe da telegrafia dos Correios (talvez por isso a vigilância), pelo agente Neves. O cara seguia o meu tio por toda a parte: do cafezinho à repartição, do jogo de sinuca às suas idas para casa. Dava um conto de Kafka, vertido em literatura: a perseguição e os relatos rescendiam ao tédio burocrático, à inutilidade nervosa.

O AMOR Os primeiros sinais de paixão, desde o jardim da infância, Eloá, de tranças, depois Eda, este um amor à traição. Coração disparado só ao ver a eleita. Vocação aguda para o platonismo, o amor sem corpo, como o do romance de Joaquim Manoel de Macedo em ‘‘A Moreninha’’. Essa aflitiva simetria entre a vida e a arte, o sonho como componente necessário, a paixão pudica.
Essa pulsão para a idealização, imaginem, enunciada por uma namorada que se mandou para um convento. Ela, com toda essa busca, me tentava atrair para o campo terreno, objetivo, longe da abstração. Inútil: quem adejava era eu, na ansiedade de ler-lhe as cartas e tentar descobrir mensagens ocultas no nicho das entrelinhas. Ainda bem que passou, mas marcou.
EMULAÇÕES Imaginosos nas emulações do jogo de bolinha de gude, futebol de botão (depenávamos as roupas da casa, paletós especialmente, para montar os times; daí talvez advenha a cultura reflexa pelos clubes do grande centro, Rio e São Paulo) e até na masturbação em beira de rio para ver quem saía na frente quando o mérito deveria ficar com quem demorava. Isso só o tempo ensinaria. Fazia parte de uma dimensão do espírito: o lúdico que se espraiava entre o melhor empinador de raia (pandorga, papagaio), o que pegava mais balões (de olho num espelho, como se fosse um precedente do radar) víamos travesseiros, cruzes, estrelas, mimosas vagando no céu azul. O espelho era simpatia para ‘‘puxar’’, magnetizar e fazer cair os balões. Por isso todos acreditávamos em Deus, embora vivêssemos provocando-O.
Esse Deus também era lúdico e a nossa precária consciência sugeria que ao devolvermos uma borboleta, um besouro ferido à natureza, sobreviveriam. Às vezes tudo não passava de um remorso por termos abatido um inseto.
CARNAVAL Não me ligava muito em Carnaval. Na minha casa vários irmãos eram da Escola de Samba ‘‘Não Agite’’, várias vezes campeã. Mas me emocionava quando a bateria, de madrugada, deixava meus irmãos em casa e tocando marcha-rancho. Aquele do Paulinho Soledade, parnanguara morto este ano, ‘‘Estão voltando as flores’’, deveria ser o hino do Paraná. É surpreendente quando se está num congresso e cada delegação tem a sua música reverencial a bancada paranaense emudece. Consta que Soledade teria feito a composição ao ver os ipês amarelos, irradiados, na praça Tiradentes na saída de um consultório médico que lhe garantia a alta de uma tuberculose persistente. Um canto à vida, à esperança.