Luiz Geraldo Mazza




A aftosa e a democracia
Mais seis unidades federativas, dentre elas o Paraná, estão livres da aftosa. Foi preciso um esforço interno muito grande para que, além do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, fosse ampliada a área de liberação. O ideal seria que os níveis de higidez democrática fossem monitorados como a aftosa e a reunião de militares, a maioria da Aeronáutica, a pretexto de um desagravo ao ex-chefe da Aeronáutica, brigadeiro Walter Brauer, mostrar-se-ia inoculada pelo vírus do golpe que tanto a direita quanto a esquerda costumam cultuar em seu oportunismo.
E se há cenário no Brasil para encenações do gênero, a serviço da sociedade do espetáculo, nenhum deles supera o Rio de Janeiro e sua velha nostalgia de pretender transformar-se em ‘‘olho do furacão’’ como se não lhe bastasse a circunstância de ser apenas e tão somente a capital da indústria cultural, enquanto a Globo não se decidir por São Paulo. Os militares, a maioria da reserva, embora sua tradição de presença na vida política brasileira, agiram como se estivéssemos ainda nos anos 50, quando um discurso de oficial da ativa no enterro de um companheiro histórico deixava o País em suspense.
Há uma carga de nostalgia nisso tudo: a vocação para o golpe e as saídas de cunho autoritário, à destra e à sinistra, mostram a convergência por exemplo entre Lula e o Jair Bolsonaro, ambos vendo no Hugo Chávez, da Venezuela, uma referência paradigmática, quando se trata de reedição de arquétipo comum nas Américas do Sul e Central, Somoza e Trujilo aclimatados. Como se dá com essa figura bem ao estilo da moda fascistóide, o Fujimori, do Peru.
Estamos longe de obter um certificado de sanidade democrática como o concedido à aftosa em oito unidades federativas. O tempo da armada tutelar acabou: funcionava na guerra fria e numa sociedade militarmente hegemônica perdeu o sentido. O pior é a suruba ideológica unindo a esquerda e a direita no estuário atrasado do nacionalismo. Não que a globalização seja fatalidade sobre a qual não se pode intervir, ditar ritmo e cronograma. Ao contrário é indispensável recuperar a visão do interesse nacional que a galinhagem servil tenta subestimar, sem retorno, porém, aos anos 50 e suas fantasias.



BIZARRICE
A idéia de ‘‘aparelho’’ é uma constante na vida brasileira: ora a Igreja, ora o sindicalismo, mais frequentemente no movimento estudantil, cada vez mais fraco, o que não lhe reduz a arrogância, e até nas Forças Armadas. No ‘‘aparelho’’ abstrai-se a realidade externa e tomam-se decisões que vão a de declarar o fim dos Estados Unidos da América, como nos encontros da UNE, ou a do fuzilamento do presidente FHC, como se viu anteontem

AXIOMA O Vitório Sorotiuck insiste em impedir a megafesta do Barigui. O que não falta é soro, que tem até no nome, o que é melhor do que choro. Agora que tem razão de impugnar, por suspeição, o despacho de um ex-auxiliar executivo de Lerner e advogado de campanha eleitoral, não se pode negar. É que nem esperar um relatório do cunhado, o Henrique Naigeboren, no Tribunal de Contas, que seja contra o governador.
GLOSA Já que vão botar dezenas de milhares de pessoas no Réveillon do Barigui seria interessante a aspersão de grande quantidade de perfumes de ‘‘O Boticário’’ para disfarçar o odor local que todos sabem é de cloaca.
EPIGRAMA Lerner, falando ontem sobre o seu período de governo, lembrava o Pangloss, de Voltaire, para quem tudo estava no melhor dos mundos. Fez de um Estado quebrado a descrição de um oásis em meio ao drama nacional, uma ilha de prosperidade e paz. Enquanto fazia isso, o megasecretário Giovani Gionédis mandava recolher as folhas de pagamento para delas retirar o pagamento integral das férias, autorizado pela secretária Maria Elisa. Quer dizer: tiveram que mandar confeccionar novos holerites. Eficiência é isso aí. E, é claro, harmonia e integração da equipe. Renato Aragão acaba no analista.
SILOGISMO São tantos os alertamentos sobre não desligar computadores ou ligá-los demais que o ‘‘bug’’ do milênio é essa bagunça programada na base da paranóia e da perplexidade.
SPRAY A confusão havida com as folhas de pagamento do funcionalismo dá bem a medida da crise financeira que mina o governo: a transição do ano vai se dar com empreiteiros, prestadores de serviço, de mãos abanando. - Locações de imóveis e terceirização de veículos figuram entre as inadimplências mais comuns do estado. - Vereador Jair Cezar, de Curitiba, quer o Parque do Atuba. Só que o Rio Atuba, que ali passava e represado formava o Tanque do Glaser, cartão postal dos anos 60 e 70, não pode mais enfeitar o local por sua carga poluitiva. Tanto que na altura da captação da Sanepar, no Iguaçu, ele foi desviado. - Detalhe pouco referido da pesquisa Datafolha: a margem de erro é de 5 pontos e isso tanto pode favorecer Taniguchi ou Requião e prejudicá-los. - Lerner tinha todos os motivos, inclusive a crise, para vetar a lei que proíbe as multas eletrônicas. Como tem ganho tudo do Legislativo, inclusive o absurdo da antecipação do IPVA, não se achou disposto a uma queda de braços com os deputados, especialmente Hermas Brandão, o Aníbal regra 3 da quadra atual. Aliás cada crise tem o chefão que merece.
FOLCLORE Pela lista de adesões hoje constante no PPS, dominando especialmente a área do Graciosa Country Club, dá para sugerir que se troque de imediato o nome da agremiação para Partido Popular Socialite. Nem a Arena conseguiu tanto, mesmo nos tempos do regime militar, segundo uma caricatura corrente, bastante exagerada, mas, de qualquer forma, educativa.
CROMO E de novo como se repetisse o gesto de Verônica enxugando o rosto de Jesus na toalha de linho e imprimindo-o encosto na imagem de tua face que me vela o sono e aguça o sonho.
AFORÍSTICO Quando a oposição é muito ruim como em nosso caso, o governo, mesmo péssimo, acaba transformado em alternativa possível.

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