Em memória do Samuca
Nesta semana foi inaugurado o jardinete ‘‘Samuel Guimarães da Costa’’ em Curitiba, oportunidade em que rememoramos a atuação do jornalista, escritor e agitador cultural. Da nossa geração ele foi o guru, o preceptor da sintonia fina em documentos sindicais. Ninguém melhor do que ele, como codificador verbal, para textos oficiais ou rebeldes. Naqueles colocava a dosagem de amor ao progressismo político-social; nos nossos, quanto mais vandálicos e de viés iconoclástico, temperava com prudência e sabedoria e que com isso não perdiam a força original.
Por isso lhe atribuímos a tarefa de produzir as teses de encontros regionais, como um em Londrina, em que colocou uma tese provocativa ‘‘São Paulo, imperialismo interno no Brasil’’, mexendo com raízes telúricas do setentrião e instigando-nos a uma busca de utopia regional de referência como nossa identidade. Outro, em Ponta Grossa, desafiando a elite rural ao tema ‘‘Reforma agrária nos Campos Gerais’’. Tão elegantes foram os possíveis alvejados pelas reflexões do Samuel que em Londrina fomos homenageados pelo Godoy em sua mata famosa e em Ponta Grossa por um líder de causas afins (contra o reformismo janguista que andava na moda), o Horácio Vargas.
Uma ocasião, Ney Braga, ainda numa transição entre a aceitação das reformas de Jango e a ruptura, precisava de um texto para responder ao governador da Guanabara, Carlos Lacerda: fui convidado para elaborá-lo. Em outras duas salas, um filósofo – Ernani Reichmann (o maior conhecedor de Kierkgarden no Brasil como Spinoza está para Marilena Chauí) – e o Samuel desempenhavam a mesma tarefa, sem que um soubesse o que outro estava fazendo. Acabaram montando um mosaico de visões tão diferenciadas. Samuca tirava de letra essas missões e operava como um psicanalista, buscando identificar tonalidades afetivas, a sensibilidade, enfim, dos que o convocavam.
A visão histórica do Samuel lhe permitia ousadias analógicas entre estadistas de épocas diversas, que existiram muito mais no passado, talvez porque a distância nos leve a idealizá-los. O conhecimento da humanidade dessas pessoas a partir especialmente de Manoel Ribas lhe permitia interpretações avançadas e os mais novos tiravam sarro, sugerindo que fizera discursos e relatórios até para o Conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcellos. Mais do que ninguém, descobria a medida apolínea (comedimento, sobriedade, disciplina) e dionisíaca (a alegria vital) dos personagens e que nele eram visíveis de forma visceral. -
COMUNHÃO
O receio de romper o sacrifício: engolir um mosquito na ida ao templo ou o de morder a hóstia. Sairia sangue, na certa, é o que diziam. Necessidades fisiológicas que ocorressem levavam-nos ao desespero, impulsos tão negadores da espiritualidade. Pois uma ocasião me senti assim perto da Catedral e fui para o ritual chão num terreno baldio: lá, como se estivesse em meio a uma cena de sibaritas, mulheres do trotoir, nuas, atraiam-se, tocavam-se, satisfaziam-se. Parecia sonambulismo, absurdo demais, por estar alguns metros da praça mais central da cidade, a Tiradentes, que no passado foi, segundo a lenda, cemitério dos índios
LIBERALINO, A AUSÊNCIA Alguém deveria, o quanto antes, reunir as quadras e sonetos do poeta populírico Liberalino Estevam. Nos anos 70 – quando fazíamos aqui neste jornal a ‘‘Folha Esportiva’’ que saía às segundas-feiras e que era secretariada, em Curitiba, pelo Hélio Teixeira – o Liberalino, que adorava aparecer, aceitou ‘‘posar’’ em fotos com as camisas do Coxa e do rubro-negro na promoção de um Atletiba. Engraçadíssimo, de calção, com as suas melenas enormes e a expressão de louco, serviu de ilustração para as quadras, já que um dos personagens era o Castilho e outro o Marambaia.
O cabotinismo ali chegava à sublimidade: uma vez ele saiu com uma espécie de biga romana para vender poesias e em outra puxou um burro, enquanto oferecia seus livros para o público. Um cartaz na orelha do animal: ‘‘Não gosto de poesia’’. Poucas pessoas vendiam poesia, que sabidamente é menos procurada do que prosa, como ele no Brasil. Chegou a vender 20 mil exemplares de uma só vez, façanha que nem Drummond de Andrade ou Cecília Meirelles conseguiriam (mesmo o JG de Aráujo Jorge dificilmente o faria) em Curitiba.
Seu método de venda era agressivo: procurava empresários, banqueiros, políticos e fazia uma espécie de livro ouro anunciando que tinha reservado 30 ou 50 livros que o cliente poderia dar de presente a amigos e empregados. Aí alguém como o Slaviero reclamava: ‘‘Cinquenta é muito. Quero quarenta!’’. Nessa base Liberalino, que vendia revistas nacionais para seus clientes, chegou aos 20 mil exemplares.
Tirava a dentadura ou andava com um cachorrinho chiuaua no bolso do paletó para fazer o gênero enlouquecido. Pode ter sido o pioneiro do quadro da tevê daquele cara que diz convicto ‘‘eu sou normal!’’
JOGO DA VERDADE Uma das modas dos anos 60 era fazer o psicodrama chamado de ‘‘jogo da verdade’’. Num deles vi um materialista, pressionado, admitir, com mil eufemismos, que acreditava em Deus. O pior foi a descrição meio patética de um que narrou, em detalhes, a tentativa de suicídio e o recuo, lá de cima de um edifício, a névoa cobrindo a cidade, a solidão apertando. A crueldade era componente permanente desse exercício. Intelectualizar emoções, sentimentos, quase sempre rendia um espetáculo falso e afetado.
GAFANHOTOS Lembro da praga de gafanhotos que enlouqueceu o Brasil. Aí veio uma inevitável marchinha de Carnaval: ‘‘Gafanhoto deu na minha roça// comeu, comeu toda minha plantação// Xô gafanhoto, xô xô// deixa um pé de agrião// pro meu pulmão!// Gafanhoto, isso não se faz// Deixa minha roça em paz!// Minha verdura, gafanhoto comeu// a rapadura, gafanhoto comeu// Não há mais nada// nem quiabo// não há couve// que diabo// o que é que houve?// gafanhoto comeu’’.

mockup