Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Centro Cívico, conflitos
O impacto das obras do centenário do Paraná, em 1953, foram de tal ordem que exigiram cautelas especiais do governo Munhoz da Rocha para impedir que o rush não criasse problemas para a construção civil. Assim, tornou-se indispensável importar trabalhadores, boa parte do Nordeste, para não fazer concorrência com a indústria local, uma vez que havia, em função do café, um ritmo excepcional de construções na capital.
Reservas de mármore do Paraná foram exploradas em alta escala em razão das obras, tanto que é daí para a frente que esse setor ganha significação forte no conjunto da economia. Os trabalhadores de fora, em função do frio, tinham notórias dificuldades de convivência e eram comuns os choques entre eles e as empresas construtoras que, por sua vez, obrigavam a polícia a intervir.
Numa dessas ocupações militares do canteiro de obras, a coisa transbordou para a Assembléia Legislativa com as cenas habituais: ocupação das galerias por manifestantes comandados pela esquerda populista e ala dissidente do PTB, já que a maioria apoiava o governo desde a campanha eleitoral e o célebre comício dos 50 mil de Getúlio Vargas, da sacada do Braz Hotel. Por isso, aliás, há ali um bar com o nome Getúlio.
Tomadas as galerias do Legislativo por ruidosos manifestantes, o presidente da Casa, o trabalhista Antonio Anibeli, pai do deputado atual, faz advertência com tom solene, alegando que se persistisse o barulho faria soar os tímpanos da Mesa e em seguida determinaria a remoção dos rebelados. Eu estava no comitê de imprensa, separado por uma pequena cerca do plenário (a casa é onde funciona agora a Câmara Municipal) e percebi quando o jornalista trabalhista Gamaliel Bueno Galvão transpôs o obstáculo e pediu um aparte ao presidente, seu correligionário. Anibeli, aturdido com a cena, ficou paralisado. Galvão era meio gago e tascou: Vo-Vo-Vossa Excelência é um tra-tra-traidor fi-fi-filho da ma-ma-mãe!
Como se vê, o Centro Cívico já tinha essa função, a de unir o povo, seja para ouvir ou ser ouvido, desde 1951, portanto 48 anos atrás. Pois o Lerner e o Cassio Taniguchi querem revogar a história e o passado por causa da paranóia do presente.
A POESIA
Amor visceral pelo Brasil era o do professor Butler: guardava em frascos amostras de águas dos rios do País. Paixão animista do velho da Letônia que acreditávamos fosse inglês. Na coleção de fragmentos de minérios e das águas, o encontro do cosmopolitismo com o nacional
FLASH Não seria, desde aquela época, o homem nu da Praça 19 de Dezembro um símbolo profético dos sem-terra que viriam tirar, meio século depois, o sono dos governantes?
Sobre a célebre escultura há histórias: o professor Raul Gomes, o nosso mais polêmico mestre da Universidade, chamava a peça de obcenonstruosidade. A bronca era anatômica (quase assexuada, pois o pênis era enrustido demais) e também antropométrica.
As gerações mais modernas acharam um apelido mais conciso para o homem nu, que volta e meia cobrem com camisas do Coritiba e do Atlético na comemoração de campeonatos: o jogador de palitos, por causa das suas mãos às costas como se escondesse o segredo da sua jogada na porrinha.
CINEMAS Os poeiras mais famosos eram o Cine Rex, na Rua Silva Jardim, o Broadway na XV, o Odeon na Luiz Xavier e o poleiro do Palácio. Imperava aí a cafajestice. O cara soltava um traque no meio do povo, estrondoso, e lá vinha a observação nada judiciosa de outro também anônimo Tá me chamando, boquinha de anjo?. Do poleiro do Palácio era possível de tudo: até o arremesso de jornal com titica, em seu interior, em cima da platéia ou na direção das frisas. Um comunista retórico entendia aquilo como uma alegoria da luta de classes e a reação anárquica e ressentida dos mais pobres contra a elite.
Como se vê, molecagem primária é mais do que cultura, fede erudição.
SENSORIAL Nunca mais, nesta Curitiba, se degustará o risoto como o do pai do nosso maior artista gráfico, o Poti, o velho Lazarotto, no fabuloso Trem do Armistício, lá no Capanema, referência aos acertos da Primeira Guerra Mundial. E também não teremos o sanduíche do Bar Pérola que a Confeitaria Cometa tentou copiar e ficou no especial de pão torrado com lascas de pernil e queijo. Muito menos a sopa húngara do Bar Paraná que eu, Sílvio Back, René Dotti, Valmor Marcelino comíamos por prazer, mas, sobretudo, por economia.
LAMENTO A pulsão para o amor platônico era comum entre os jovens. Não havia essa moleza de hoje para a vida sexual. Ao sexo se ligava quase uma idéia de subordinação de classe: as empregadas domésticas ou então as prostitutas que eram as sem-bordel da época, e batalhavam no trottoir do Passeio Público.
As amadas especiais, essas que eram a razão dos nossos poemas, muitas vezes as cultuávamos à traição. Não sabiam elas que ficávamos rondando as ruas próximas de suas casas, o olhar enternecido, coração disparado, tentando descobrir sua silhueta na luz mortiça do seu quarto projetada na cortina.
CRUELDADE PUNIDA O professor Becker era o mais velho de todos do Ginásio Paranaense e também o mais acabado. Dava aulas de Francês e Espanhol. Os alunos o sacaneavam por causa da deficiência visual: depois de responderem à chamada, arrastavam-se até a porta e educadamente perguntavam se podiam entrar, ao que ele negava e às vezes até perdia a linha gritando taberna de italianos bêbados! e batendo com a bengala na mesa com cobertura de vidro. Por vezes, havia menos de dez alunos numa sala de 50, uma desoladora maldade contra o mestre. Aquilo se repetia sistematicamente: num dia, a classe recebeu a comunicação de que o mestre Becker havia morrido. Os que fugiam da sala não perderam o enterro. A maioria chorava. Remorso coletivo.





