Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Paraná, usina de mitos
Há mitos bons e saudáveis como os que deram origem às nossas utopias como a da Colônia Cecília dos anarquistas, a de Teresa Cristina, do médico Maurício Faivre, e que se basearia em Fourieux, e o socialismo romântico, a saga da República Teocrática Guarani, e os saques modernosos como o de que seríamos, em médio prazo, o segundo Estado do Brasil, proposição do governo Pimentel, e o de agora, com essa insistente história de que superaremos o Rio Grande do Sul na condição de quarta unidade em PIB.
É bom lembrar, por sua força pedagógica, da meta pimentelista, segundo a qual só perderíamos de São Paulo pelo fato de que até hoje não temos tal colocação no próprio Sul, onde, se cruzarmos dados econômicos com os sociais, ficamos em terceiro e só não estamos em último porque a mais recente invencionice, nada científica, de caráter geográfico, incluiu Mato Grosso do Sul no pedaço, por sinal que em muitos indicadores à frente do Paraná.
Quem primeiro acenou com essa hipótese a de o Paraná superar os gaúchos foi justamente uma publicação daquele Estado, denominada Amanhã, e que opera com dados regionais. Ela colocou a questão há dois anos em função da massa de investimentos estrangeiros e nacionais induzida por vantagens fiscais e que se tornou de vanguarda à medida que o governo petista de Dutra desestimulava os investimentos com uma ranzinzice primária e nacionaleira.
O secretário Miguel Salomão, do Planejamento, acredita que o rush atual de investimentos, cujos efeitos só se darão, em termos fiscais, dentro de uma década, consolidarão o quadro de uma economia em mudança rápida como segundo (olha a referência numérica, cabalística, de novo) pólo automotivo. Afirma até que se a energia elétrica rendesse ICMS (não houvesse protecionismo cartorial em favor de São Paulo na Constituição de 88), já teríamos superado o Rio Grande do Sul. Aliás se vamos ficar na obsessiva reticência de Rudyard Kipling não houvesse o confisco cambial no tempo do café, seríamos um Eldorado.
Com os políticos frágeis que temos não será fácil essa parada até porque já tivemos, percentualmente, participação muito melhor na renda interna, próxima dos 7%. Basta ver nossa ingenuidade com os decantados royalties de Itaipu, que pouquíssimo representam, de forma ridícula até, para compensar as perdas.
BIZARRICE
Se as denúncias contra a Fenaseg prosperarem e, mais do que isso, forem comprovadas, e o mesmo ocorrer com a Prefeitura de Londrina, o PFL no Paraná vai ficar numa pior porque envolverão o presidente do partido e o segundo mais importante gestor municipal
AXIOMA Hoje não é mais preciso botar um placar na rua, como se fez com a votação das diretas, para identificar os inimigos do povo. O jornalista João Meassi os listou, no caso do IPVA antecipado na Internet. Está lá no site www.obagual.gov.br. O povo muge. Vaquinhas de presépio, não.
GLOSA Quando a Prefeitura de Curitiba lançou a contribuição de melhoria pelo asfalto das avenidas Paraná e Kennedy não foram poucas as pessoas que tiveram que vender a sua propriedade, fruto de poupança de décadas, para pagar a benfeitoria. Essa história kafkiana vai repetir-se com o IPTU, já que a maioria dos pobres que serão afetados não tem recursos para pagar advogado. O IPTU de Taniguchi lembra, e muito, a bomba americana que preservava a propriedade, mas não seus ocupantes.
EPIGRAMA O Sindicato dos Engenheiros vai entrar com ação judicial contra a prefeitura e o governo para que interrompam as obras do Centro Cívico. Quando houver decisão, a praça estará concluída, com o que a ação perderá objeto. No Brasil, os procedimentos judiciais são de tal ordem que o cidadão deve pedir habeas corpus bem antes de ser preso.
SPRAY O dossiê divulgado pela OAB sobre os episódios de corrupção em Londrina teve ampla repercussão: centenas de xerox do material publicado na imprensa operam como volantes de campanha eleitoral. - As operações feitas nas duas autarquias beneficiaram candidatos municipais, mas também o próprio Lerner, como se apurou. - Se houve em Londrina, por que não teria havido, na área pública, em outros municípios e em órgãos estaduais, tanto da administração direta, quanto da indireta? - Referências aqui feitas à compra de apartamento em Curitiba pela família do prefeito Belinati não guardam qualquer relação com os fatos investigados. Segundo o prefeito, em fevereiro de 71, seis anos antes de ser prefeito, ele adquiriu apartamento (Souza Naves, 682, 1º andar) e em 1983 comprou outro na Ângelo Sampaio, e em 84 ficou proprietário de um lote em Pinhais. Vendeu todos esses bens para a aquisição do apartamento que pertencia a Carvalhinho. - O autor do Plano Diretor de Curitiba, arquiteto Jorge Wilhem, não listou a nossa cidade como exemplo de gestão democrática no encontro mundial sobre poder local em Barcelona (março deste ano). E fatos recentes o confirmam: a tecnocracia incuba o autoritarismo e o fascismo, como se vê neste lance da mudança no Centro Cívico. - Positivo (3º grau) tenta apoio para o curso de Medicina junto ao Conselho Federal de Educação. Valer-se-ia das instalações do Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul.
FOLCLORE Primeiro a Fundição Mueller foi transformada em shopping com simulacro de restauração arquitetônica para atender o empresário Salomão Soifer. Agora ele modifica o Bosque da Família Gomm, no Batel, para construir um hotel e assim derruba as árvores e reconstrói a casa original na frente para sugerir, como no caso do shopping, que houve observância da lei. No primeiro caso, Lerner era prefeito, agora é governador. A história se repete como farsa, dizia Marx pretendendo corrigir Hegel. Nós aqui temos, é claro, mais farsa do que história e ela é que se repete.
CROMO O mundo microscópico animal vence fácil uma Bienal de Arte.
AFORÍSTICO Um governante que dissimula sobre as razões efetivas de suas viagens deve esconder muito mais quando permanece no seu posto.





