Luiz Geraldo Mazza




Santos de pau oco
Não há uma pessoa de sensibilidade que negue o direito de os excluídos se organizarem para pressionar o governo e fazer avançar a reforma agrária. Mas é preciso ser um embotado pelo ódio ideológico para aceitar tudo o que o MST faz contra a lei, como se se tratasse de algo acima do bem e mal, com indulgências plenárias como um setor irresponsável da Igreja sugere.
Se a cada infringência da lei por parte dos sem-terra houvesse a providência imediata da Justiça para restaurar a ordem jurídica violada, a essa altura as coisas teriam evoluído para formas superiores de administração dos conflitos. Aquele caso, ocorrido há decadas, em Porto Alegre, quando os sem-terra ocuparam uma praça pública e a brigada foi desalojá-los, um ou mais de um dos militantes decepou com instrumentos agrícolas a cabeça de um miliciano. O caso ao menos foi ao júri inúmeras vezes, o que é uma forma de fazer ver ao MST que não pode sobrepor-se à lei.
Aqui no Paraná, além do caso desta madrugada, quando até sequestraram um líder de assentamento, dissidente do MST, o que também é direito indiscutível, já tivemos numerosos homicídios, torturas, roubo de gado (aí deve ser confisco e da mesma forma que a invasão é ocupação, linguagem revolucionária quando o que fazem não passa de uma gincana, já que inexiste enfrentamento), depredação da propriedade, queima de áreas de reflorestamento. A omissão do governo tornou algumas lideranças muito mais audaciosas.
O linchamento de três PMs em Campo Bonito por parte dos sem-terra, seguido da morte, em represália, do líder Teixeirinha por parte dos militares, deveria ter sido um divisor de águas nesse processo, o que não aconteceu, já que Lerner levou a questão para um sinuoso fair play que transformou o Paraná na área mais invadida do País e com aquele circo intolerável do acampamento.
A pretendida descriminação do MST é aceitável, desde que não haja abusos. O fanatismo é que gera a falsa idéia, fundada no maniqueísmo, de que o MST é o bem e o resto o mal. Essa ‘‘revolução à brinca’’ que está aí colocada precisa e deve ser submetida ao controle do conjunto da sociedade que em maioria repele a arrogância fascista de radicais do MST, da mesma forma que discorda do reacionarismo fóssil de ruralistas que vivem sob os valores do feudalismo.



BIZARRICE
Nada mais natalino do que uma vaquinha de presépio: essa foi a linha comportamental dos deputados na questão do IPVA. Por que eles não antecipam a sua própria saída do Legislativo? Seria um ato de desprendimento, parecido com o do padre de Umuarama que confessou ter engravidado uma paroquiana

AXIOMA Há um ex-governador do Paraná, não muito - remoto, não recente, que tinha um orgulho intelectual: o de acertar todas, absolutamente todas, as perguntas do programa do Sílvio Santos. Nós merecemos. Haja sorvete pra testa.
GLOSA O IPTU derrubou Margareth Tatcher e vai abalar Taniguchi. O efeito não será em 2000, ano de eleição, mas em 2001, quando a municipalidade poderá tascar a alíquota de 3% generalizadamente sobre o valor venal do domicílio de Curitiba, o que deixará até o olho do prefeito arregalado, embora isso pareça inviável.
EXEGESE Santinho do pau oco, o que é isso? No populário brasileiro, a acepção dessacraliza o santo (uma coisa por fora, outra por dentro). Isso decorre do uso, no Brasil colonial, do ícone vazio na parte interior para o contrabando de ouro, algo pouco religioso, ainda que muito bem dissimulado.
EPIGRAMA O governo (estadual e municipal) trata diferenciadamente as pessoas. O empresário Salomão Soifer, além da absurda concessão do Mueller de Curitiba em cima de uma falsa restauração arqueológica, volta e meia aparece como beneficiário de atividades na área pública (containeres no Porto de Paranaguá). E mais: está derrubando as árvores do imóvel de preservação permanente da família Gomm no Batel e ninguém chia, a não ser alguns vizinhos revoltados com o privilégio.
Privilégio tem origem na expressão ‘‘priva lex’’, lei privada.
SPRAY Quando Ciro Gomes apareceu em destaque no jantar da Boca Maldita, muita gente lembrou que aquele evento foi um dos pontos de escalada de Collor, isso há anos passados. - Outro, que já foi ‘‘presidenciável’’, numa das propostas do PT, foi o ministro Sepúlveda Pertence. - Ciro conseguiu proselitismo na UPE-UNE e isso significou um baque para o PC do B, que se acreditava dono do pedaço. - Uma nota promissória emitida por Simone Sales Belinati, no valor de R$ 340.016, 07, celebrou a transferência do imóvel de José Carlos Gomes de Carvalho aos filhos do prefeito de Londrina. Trata-se de apartamento no Edifício Monte Claro, na Rua Desembargador Otávio do Amaral, 770, em Curitiba. A venda se deu em fevereiro de 98. - Rose Colussi, nova presidente do Sindicato dos Judiciários, tem prioridade: acelerar os entendimentos para que a classe receba a reposição de 53,06% a que tem direito há anos, assegurada por decisão da instância superior. Rose é uma guerreira, aliás, na tradição do sindicato. - A OAB-PR apoiando o aumento das custas judiciais, solicitado pelo Judiciário. Ela vive em outra galáxia, mas não em todo Brasil. - Há, porém, algumas coisas graves como, por exemplo, o fato de os oficiais de Justiça que são obrigados a arcar com despesas que deveriam ser deferidas ao Estado. Talvez parte considerável desse ajuste se deva a situações como essa. - Outra dimensão da crise é a da perda havida nas gratificações dos trabalhadores dos juizados especiais.
FOLCLORE Um peemedebista argumenta que Lerner para o Brasil é mais viável do que no Paraná, porque quebrar o País inteiro é mais difícil.
CROMO No foguetório de 31 de dezembro no Barigui, o jacaré vai se transformar no Godzila para alegria geral.
AFORÍSTICO Bate-chapa na Associação dos Magistrados é olhada como efeito da morte de Aníbal Khury. Se assim era é porque a maioria concordava e isso não é um bom sintoma de democracia e abertura. Boato ou não, é o que falam.

mockup