Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Domesticar a massa
No imaginário dos nossos tempos jovens, uma das utopias era a de pretender controlar as multidões pelo discurso como Ben-Hur o fazia com a biga romana no Coliseu. Pois no segundo dia da Guerra do Pente, quando a plebe de Curitiba, em blocos, tomava conta das ruas para quebrar as lojas dos árabes um magote de uns 200 manifestantes passava em frente ao Diário do Paraná tentei, lá da janela, como se fosse o papa saudando os fiéis da Praça de São Pedro, fazer o discurso sedutor, o frio na espinha, a emoção mexendo com o tom da voz:
Povo de Curitiba!
Como numa cena congelada de cinema, eles ergueram a cabeça para a minha direção durante alguns segundos até que um mais decidido, no meio da patuléia, não teve dúvidas e arremessou uma acha de lenha para acertar o orador que mal se apresentara. O luminoso do jornal veio abaixo. Ainda bem que só ficaram nisso, já que havia mais lojas para depredar.
Se eu me dei mal nesse dia, tal não ocorreu com o hoje criminalista Élio Narézi nos tempos de universitário (dia 17, Hotel Lancaster, comemoraremos os 45 anos de formatura) num congresso extraordinário da UPE. Agíamos em comum no pinga fogo desses encontros, mas nesse dia eu tinha uma tarefa na secretaria da Federação Paranaense de Futebol e não poderia comparecer. Prometi aparecer assim que desse oportunidade. Fiz meus trabalhos e me dirigi à universidade. Olhei pro salão de Engenharia, local das sessões plenárias, e as luzes estavam apagadas. Fui ao bedel para saber se o congresso tinha sido transferido. E o russo, com seu jeito de falar, explicou:
Tava tudo agitado como sempre. Aí um baixinho foi à tribuna e fez um discurso e mostrou que o congresso estava convocado ilegalmente. Só ele falou. Parecia o Salvador de Maio num júri, convencendo todo o mundo. Não houve gritaria, nem nada.
O baixinho era o Élio Narézi, que depois me explicou: Levantei a preliminar da ilegalidade da convocação e a sessão foi suspensa!
Para quem conhece aparelhos estudantis, dá para imaginar que oratória sedutora foi essa que segurou a plebe excitada, disposta a resolver todos os problemas do Brasil e do mundo nessas quentíssimas plenárias.
APARELHO
Minha primeira experiência com aparelho foi numa assembléia estudantil no anfiteatro do curso de Direito. Esquerdista barbudo, tipo guerrilheiro de Sierra Maestra, é o de hoje; naquele tempo, o biotipo era o sujeito magro e de olheiras. Lá na frente estava um desses líderes, maioria como sempre da Engenharia, fazendo alertamentos dramáticos que anunciavam o domínio amanhã pelo fascismo como os evangélicos apregoam a chegada de Jesus. Caí na asneira de perguntar o que era fascismo na perspectiva dele. Aí foi o diabo: rumores de todo o lado e as acusações berradas: Provocador, polícia! Altair Cavalli, estudante também, professor secundarista, delegado de Polícia e com créditos enormes na esquerda, mostrou que a pergunta era pertinente e que em assembléias democráticas se tornavam indispensáveis. A pretensão dos dirigentes era quase sempre maior do que o seu conhecimento. A negação do outro, intrinsecamente fascista, era prática dos dois lados.
TINTA-SANGUE Improvisávamos comícios a três por dois, embora o alertamento da autoridade de que só deveríamos fazê-lo com licença. Um dia soubemos do assassinato de um jornalista em Goiás e botamos logo a procissão na rua: passeata e falação na Avenida Luis Xavier. Oradores: o presidente da UPE, José Cury, eu e o colega Jairo Régis. Como empregado da comunicação social oficial, eu conhecia todos os cinegrafistas e vi os da Flama Filmes, que apresentava um cinejornal toda semana, e alguns que possivelmente fossem dos chamados órgãos de segurança nacional.
Um detalhe ao mesmo tempo mórbido e melodramático: com o sangue da vítima, era o que se dizia, foi escrito num muro algo como aqui tombou mais um mártir da liberdade de imprensa. Teaser do tamanho de um discurso que poderia ocupar o sangue da vítima e mais daquele que grafitou o protesto.
FLASH Maria do Cavaquinho, mongolóide, deitava no asfalto da Rua XV, que tinha dois sentidos, e fazia mais estragos do que as ações dos movimentos sociais de hoje à exceção dos sem-terra e professores. Apoiada pelo rumor dos estudantes (a esse tempo éramos uma Cidade Universitária de fato), parecia uma seguidora de Ghandi nos tristes trópicos com atos de resistência passiva.
Na Índia, a jogada acabou atingindo o império britânico; aqui ela nos ajudava a desenvolver o humor que hoje tanto nos falta.
O PAPA O governo estadual insiste, com a paranóia dos movimentos populares, nas mudanças de layout no Centro Cívico. Não gostam nem de sem-terra e muito menos do papa, que pode voltar ao Brasil e que se vier a Curitiba não terá como reprisar a estada anterior com os aparatos de cerceamento da circulação. O povo ponham isso na cabeça! encontrará formas de protestar, mesmo que seja de cima de um escorregador, no vaivém de uma gangorra e de um carrossel, ou agarrado na trave de uma quadra de futebol de salão.
Convenhamos que seria redundante: manifestar-se e olhar em movimento.
ACALANTO Vejo na novela da Globo os filhos pedindo a bênção do pai e da mãe. Até a idade adulta me acostumei com isso: não podia dormir sem o ritual de ouvir a resposta Deus te abençoe, meu filho!. Isso é impraticável hoje em dia e não houve entre eu, minha mulher e meus filhos. Mas com Lucy, como também com minha mãe, as crianças dormiam ao som de cantigas de ninar. Senhora lavava// São José estendia// o nenê chorava// do frio que fazia.// Jesus-bebê chorando enquanto Maria e José se ligam em afazeres domésticos como o de lavar roupa, estendê-la e quará-la ao sol. Santidade terrena.





