Luiz Geraldo Mazza




Desajustes previsíveis
Com esse primado quase religioso do mercado não é fácil voltar a falar em planejamento e qualquer tipo de intervenção, consciente e racional, do Estado é encarada como heresia, face à idiotice dominante e colocada como a verdade revelada. O Paraná é exemplo de falta de planejamento e entusiasmo excessivo pela abertura à globalização como se nada disso trouxesse efeitos colaterais, às vezes mortais.
O que está acontecendo com os fornecedores locais, tanto de supermercados como das montadoras, é exemplo de ausência mínima de previsão. O que é local, genuinamente da terra, é submetido ao holocausto do cosmopolitismo. Repita-se sempre a frase: Lerner multinacionaliza e desparaniza como se esses pólos não pudessem ser aproximados e justamente pelas artes da economia política.
Não há como ter mudanças no perfil da economia – e a do Paraná visa quase uma queima de etapas – sem desajustes. O fato é que o governo abriu mão, em seu entusiasmo infantil como o de FHC pela abertura, de salvaguardas mínimas para preservar espaços locais e nacionais.
A dinâmica está aí colocada na pressão dos fornecedores locais, tanto dos supermercados como das montadoras. Não vamos ter o número de empregos esperado, a malha produtiva montada não favorece o empresário na escala imaginada e a contradição precisa ser enfrentada, quando a parte maior desses investimentos é devida à poupança local, estatal, via renúncia fiscal. O que, convenhamos, é um paradoxo com traços autocidas.



EPIGRAMA
Nas crônicas do Dalton Trevisan lírico, dos anos 50, volta e meia havia referência ao aviso de uma senhora de Curitiba, desesperada, com o filho doente e que costumava pedir, sem necessitar, dinheiro às pessoas nas ruas. E recomendava ‘‘Não dêem dinheiro ao Gigi’’

BIZARRICE ‘‘A desparanização continua em ritmo acelerado e, o que é pior, com absoluta indiferença oficial. O Paraná está precisando de um novo Schindler, para que possa salvar suas últimas empresas.’’ Trecho final do editorial de ontem da ‘‘Gazeta do Paranᒒ. A advertência é válida, apesar das conotações etnográficas nela embutidas, o que pode lhe ressaltar o lado pedagógico. Dar a idéia de listas protegidas no quadro que aí está é temeridade, uma vez que a turma ligeira já se assanha.
AXIOMA O MST ergueu o presépio na Boca Maldita (fixado na estética do feio, vinculação orgânica) para pichar Lerner e chamá-lo de Herodes. Ora, Herodes foi o autor da matança dos inocentes nos tempos do nascimento de Jesus: no caso do despejo do Centro Cívico não houve matança, nem inocentes (nos dois lados).
GLOSA Margareth Tatcher, uma das figuras mais fortes do século, caiu por causa de um tributo inglês muito parecido com o IPTU. O samurai Taniguchi ouve a comparação e sorri, fria e enigmaticamente. E desaparece com a ligeireza silente de um ninja secular.
SPRAY Os telebingos voltam ao noticiário: o ‘‘Olho Vivo’’, que era apresentado na SBT, foi retirado do ar por falta de pagamento. Outro dia anunciou como prêmio uma carreta Mercedes-Benz, cujo valor com as peças completas chega a R$ 170 mil. - Telebingos dão sorte para uns, minoria, e azar para outros. Como se dava com aqueles que o Onaireves Moura e a CNT faziam e que deu origem até a processos. - A grita contra os bingos, mais recente, afetou o mercado e também o telebingão e, como se não bastasse, surgiram os prêmios da Megasena. Isso atingiu em cheio a promoção e, de tal forma contundentem, que a direção regional da SBT se viu impelida a suspender as transmissões. - Governo estadual e municipal se batem por causa do afunilamento do período legislativo: um por causa do IPVA antecipado, outro com o IPTU vitaminado e mais ainda o aumento do funcionalismo (3,92% em fevereiro e 3,92% em junho). - Secretário Tato Taborda tem que jogar no meio do campo, às vezes para cuidar do IPVA, mas em momentos mais dramáticos para segurar a onda em cima do Ministério Público, pretendida por alguns deputados. - Já no caso do IPTU há muito sofisma nas explicações da prefeitura alegando não haver aumento e sim ajuste a uma cota de 2%. O choque virá na hora de receber o carnê. - Outra coisa: o pagamento do IPTU ou do IPVA é prioridade? O fato é que pagar os dois numa vez só para ganhar os descontos vai ser complicado. - Como o contribuinte está matando cachorro a grito, a resistência não é pequena. Enquete na CBN mostrou que a maioria repudia. - Enquanto isso, o governo (quem mais, além dele, teria esse tipo de interesse) está fazendo, via telemarketing, pesquisa para ver como o povo está recebendo a antecipação. Um telefone acoplado com bina detectou que o inquérito é feito pelo aparelho 322-2651, atendido por Cláudia, Dulce e a secretária Polyana. Mistério! - PCB está com interventores, depois de dissolver a Comissão Municipal de Curitiba: Paulo Henrique e Wilson Previdi comandam. - Academia Paranaense de Letras reelegeu por mais dois anos a diretoria atual encabeçada por Túlio Vargas. Em sua última sessão homenageou o escritor Valêncio Xavier e o historiador Ruy Wachowicz, organizador das concorridas promoções sobre história regional. - Procon ferrou a Tim Celular com multa de 10 mil Ufir. Espera-se que a terapia funcione, pois o abuso irrita.
FOLCLORE Com o IPVA só o povo perde: o governo ganha e os deputados também, porque a urgência do tempo vai dar sessões extraordinárias e uns 12 paus para cada um. A não ser que o governo perceba que isso afeta o ‘‘caixa’’ comum.
CROMO ‘‘Quando a primavera// acontece// até o botão// do casaco// floresce’’ Artes do Retamozzo, poeta disfarçado de artista gráfico.
AFORÍSTICO Quando o governo vai bem, o povo, em maioria, vai mal. E quando o governo vai mal, como agora, o povo está em situação pior. Se refletisse sobre isso, o Palácio Iguaçu não faria pesquisas sobre antecipação do IPVA.

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