Luiz Geraldo Mazza
Quando a política vira alguma coisa como um bordel não há como se admitir que haja virgens no pedaço. Essa máxima, por mais cínica que pareça, parece expressar aquilo que o ceticismo, forma bem mais humana de pesar valores, afinal recomenda. E bordel com virgem só aquele da telenovela.
Pois há partidos e pessoas que insistem em vender esse peixe farisaico, que é o do moralismo e que sempre e em todas as quadras da história brasileira desnudou os que o empregaram, como acontece agora com o PT. Flagrado num ajuste com empresa de assessoramento técnico a prefeituras e que dava retornos ao partido, como aliás qualquer grêmio burguês costuma fazer, faz-se de surpreso e estupefato e promete providências de esclarecimento. Ora o caso tem nada menos do que quatro anos e estava incubado nas entranhas da seita partidária, ainda que devidamente denunciado com os burocratas botando panos quentes, inclusive o seu presidente de honra, o Lula.
Para o bem do Brasil e do PT, que é uma importante referência de esquerda, isso veio à furo. Assim quem sabe o partido tira essa máscara de vestal que já não assentou bem no companheiro José Paulo Bisol (PSB), vice de Lula, apanhado num pecado venial do tráfico de influência que para a Ku-Klux-Klan petista é no entanto pecado mortal, irremissível, só depurado na fogueira.
Não queiram, porém, os calhordas governistas se valer desse episódio para tentar a analogia impossível com a venda de votos para a reeleição, evento pior, sob múltiplos aspectos, do que as armações de PC Farias e que levaram Collor à renúncia. E a bateria dos meios de comunicação gira nessa direção e, o que é pior, tentando também sugerir que a burla faz parte das regras do jogo e que por isso deve ser tolerada. Como aceitamos a banalização da violência temos que assimilar a da corrupção, que faria parte da natureza humana etc.
As duas coisas são relevantes e revelantes, saem do mundo absconso em que se encontram para ganhar a luz do dia, afloram à nossa vista, dissimuladas pelo verbalismo das formalidades, o farisaísmo das práticas cotidianas. É, porém, monumental safadeza a comparação.
Da mesma forma que a corrupção menor não elide a maior e mais abrangente, também não se pode comparar a figura singela do personagem Jean Valjean, de Victor Hugo, em Os Miseráveis, que é perseguido e levado à masmorra por haver roubado um pão pelo Inspetor Javert, com um desses mega-ladrões do nosso país. Valjean roubou apenas um pão e os delinquentes da política afanam muito mais do que uma padaria. Se o delito menor, embora merecedor de sanção não apenas doméstica (a ex-prefeita de Santos, Telma de Souza, foi impelida pelo Tribunal de Contas a pagar R$ 15 milhões por ter feito aquele contrato e sem licitação), precisa e deve ser denunciado , o maior - que sustenta a falácia de austeridade de FHC, sabidamente um fisiológico por suas práticas com o parlamento - reclama ainda mais do que a ira e a indignação de todo brasileiro decente, uma atuação nas ruas e no Congresso exigindo a CPI.
Sem a CPI, o Brasil institucional ficará como um cadáver insepulto, um passo de gigante para a ditadura civil, a fujimorização.
BIZARRICE A capa da próxima Paraná em Páginas será Mário Celso Petraglia e o caso da corrupção no futebol. Cândido Gomes Chagas, dono da revista, age que nem o PT que anteontem meteu o pau em Lerner e no dia seguinte estava nas manchetes com o seu chuncho em São Paulo. É que ontem o presidente coxa, Joel Malucelli, time da preferência do Candinho, foi acusado de tentar cooptar o Bicudo que, além de árbitro, é investigador e está pedindo quebra de sigilo telefônico para comprovar que pretenderam comprá-lo no Atletiba anterior.
SPRAY Anibal Khury justifica sua ida à casa de Requião: tentou demovê-lo da insistência em paralisar os empréstimos do Paraná no Senado. Acho que há um lado generoso no guru capaz dessa iniciativa.- No caso da paralisação do Legislativo com as repetidas faltas de quorum a obra é toda sua até que fosse nomeado algum secretário do seu interesse. Quem tem um Legislativo como o nosso dispensa o Executivo e até o Judiciário.- Concentração hoje na praça Santos Andrade (9h30) pela CPI da reeleição. A pauta no entanto é tipicamente patrimonialista: defesa do serviço público (estabilidade, moleza, inchaço e ineficiência), contra as privatização (manutenção do Estado com elefantíase), contra o Proen e as reformas no ensino técnico (sustentação do status quo e resistência à renovação a qualquer custo).- Dizem que são os caras pintadas na rua outra vez. Os primeiros caras pintadas foram aqueles argentinos de direita que tentaram um golpe e quebraram a cara. É por isso que a oposição no Brasil fortalece o governo: é atrasada e populista e a maioria do povo repudia essas bandeiras, a exceção da CPI da reeleição, esta uma necessidade imperiosa.- Lerner reagiu bem em Irati e bateu forte em Requião e Álvaro Dias. Que não seja um fato isolado, pois o seu imobilismo já irritava toda sociedade.- Qualquer reforma secretarial não iria tornar o governo pior do que já está.-
Filha natural de Hermes Macedo ganhou ontem mais um roundna disputa com os herdeiros na 1ª Câmara Civel do TJ anulando registro de bens.-
FOLCLORE Rafael Greca na Casa Civil, por sua compulsão verbal, embora com mais talento, era comparado ao Serjão Motta. Vai ser o alter-ego do Lerner? Ora se o Serjão era um trator, o Rafael lembra mais um pedalinho daqueles em forma de cisne do Barigui. É o barroco-rococó embarcado.
AFORÍSTICO Garcia tolerará que se diga que o Banestado é tocado por ladrões?





