Luiz Geraldo Mazza




A dúvida da dívida
Está aí o que dá colocar problemas no cenário político sem as cautelas: Alvaro Dias esteve anteontem no programa do PSDB, na televisão, contestando a acusação do Gionédis, que é um tanto quanto jejuno na área que ocupa, de que a dívida do Paraná, em 75%, foi gerada pelos antecessores de Lerner. É claro que o tucano também sofismou, o que aliás é regra nos políticos (‘‘a palavra foi dada ao homem para dissimular seu pensamento’’, conforme Taleyrand), valendo-se até de um depoimento do atual secretário de Segurança, Cândido Martins de Oliveira, quando conselheiro do TC, falando sobre a limpidez das contas do governo Alvaro Dias.
Uma situação dessas mostra apenas uma coisa: a inexistência de uma imprensa aberta e independente no Paraná, pois se houve tudo isso que o governo atual fala dos anteriores é porque agora, como antes, não há investigação. E vejam que da mesma forma que a gestão atual quebrou o Estado, quanto a isso deve haver consenso, não é verdade que as anteriores fossem tão austeras. Tanto que neste momento, o Ministério Público Federal enquadra no crime do colarinho branco toda a diretoria do Banestado do governo Alvaro Dias, por haver dado um desconto maior do que o ‘‘21’’ da Ana Paula Arósio (R$ 10 milhões, segundo os cálculos procedidos) em favor de 50 empreiteiras.
Como esses programas mais ocultam do que revelam, houve um desfile de pessoas, inclusive o senador Requião, o que sucedeu Alvaro e não o perseguiu, ao contrário do havido com José Richa, e que também deu um depoimento bastante positivo. O governo Lerner arrumou sarna para se coçar e não são as pessoas competentes, técnica e doutrinariamente, que falam sobre o assunto, o que é fator de fragilização no ataque.
Todos quebraram de uma forma ou de outra o Estado. Alvaro Dias fez três antecipações de receita para acertar as contas em fim de ano, é o autor da liquidação extrajudicial do Badep, num episódio nada transparente. Tanto ele como Richa e mais Requião tinham na inflação a âncora que corrigia fluxos de caixa, o que fazia um governo matungo parecer com saúde de vaca premiada.



AFORÍSTICO
Hoje, quarenta anos da guerra do pente em Curitiba, vale lembrar que o povão em revolta expulsou a PM da rua e só se acalmou com o Exército ocupando as vias. Uma guerra étnica no Paraná de todas as gentes: sírios e libaneses eram os únicos visados. No meio da massa, tentei levar a turba para instalações ianques e ainda bem que não me acharam com cara de ‘‘turco’’

BIZARRICE O sociólogo Ricardo Costa de Oliveira fez ironias com Greca e Requião, o primeiro por esconder o traço conservador-genealógico da família Macedo, o segundo por lembrar em tudo um coronel nordestino e também por ocultar o sangue aristocrático. Greca repicou no seu estilo: ‘‘Não sou bebê de proveta’’.
Psicanalistas costumam descobrir significados, os mais absurdos possíveis, no fato de algumas pessoas ocultarem o nome do pai. Um dos maiores presidentes que o País já teve foi um deles: Juscelino Kubitschek, que era Oliveira. O nome estrangeiro sempre confere idéia de moderno, de novo.
AXIOMA A Polícia do Paraná, apesar do episódio de Brasília, usou anteontem balas de borracha e bombas de efeito moral para controlar um distúrbio em Londrina. Pelo jeito, a borracha não é apenas para apagar escrita. A governadora Emília Belinati baixou determinação de que bala de borracha só será usada por ordem do secretário e jamais em manifestações espontâneas. O MST está fora da recomendação porque, para o governo, suas ações jamais são espontâneas.
GLOSA Amanhã, o Lair Ribeiro faz palestras no Cietep, em Curitiba, para vestibas com as velhas recomendações da auto-ajuda. Dicas como ‘‘sucesso não ocorre por acaso’’ e ‘‘a mágica da influência’’ fazem parte da pregação. Um galhinho de arruda na orelha, às vezes, é mais eficiente, especialmente quando o cara tem sorte.
SPRAY Só não enxerga quem não quer: o setor mais vulnerável do governo Lerner é a área de segurança. As ocorrências de Londrina o confirmam: se no caso do despejo dos sem-terra houve um mínimo de violência em Curitiba, no de anteontem, as baixas foram maiores. - A governadora em exercício, sensibilizada com as dimensões do episódio, provocou reuniões de Estado Maior para evitar agravamento da crise. - A coletividade, que já deu mostras de não se acomodar com abusos como os da prefeitura e suas autarquias, anda eriçada com a questão da segurança e entrando em seguidos e necessários conflitos com o governo. - Restrições ao uso de armas (balas de borracha, bombas de efeito moral) constituem algo que a Polícia Militar deve dominar em seus códigos operacionais. Se as usou, tal qual se deu com Alvaro Dias no distúrbio dos professores, é porque não teve outra alternativa. Nos IPMs, a polícia nunca se acusa. Vide o caso dos professores (e cá entre nós tinha razão porque a turba se aproximou demais do Palácio) e o dos sem-terra de Campo Bonito, onde lincharam três PMs e perderam seu líder Teixeirinha. - Desmanches de automóveis ainda na ordem do dia: tem havido choques seguidos por disputas de espaço no mercado. Curitiba vai virar uma Chicago, logo. - O Rubinho Ferreira está sugerindo ao governo, no caso do IPVA, que faça descontos correspondentes aos parcelamentos do anos anteriores como forma compensatória. - Os bingos são cassinos em escala ampliada porque pulverizados em todo o território nacional. Há quem fale em programação de resultados, o que já foi denunciado no andamento das discussões após a fala de Manoel Tubino, quando deixou o Indesp.
FOLCLORE Atleticano não gosta apenas de coxa-branca, como fez com Lerner e Cassio Taniguchi na inauguração da Arena. Anteontem, no jantar no Madalosso, cerca de 3 mil pessoas viram a surpreendente vaia na hora em que anunciaram o nome de Onaireves Moura como ex-presidente e ex-campeão do Atlético. Não perdoam quem prejudicou o clube, não o defendendo na acusação da Globo e CBF contra o ex-presidente Mário Celso Petraglia, e o condenando à masmorra do Pinheirão.
CROMO E essa floração tardia de ipês amarelos, tão poética, o que tem a ver com a antecipação dos royalties de Itaipu, tão prosaica e pouco escrupulosa?

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