Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Precedendo Godard
Uma câmera na mão, uma idéia na cabeça. O fundamento do Cinema Novo trazia parentescos com a nouvelle vague, esta mais rebuscada. Pois em Curitiba, no antigo Canal 6 dos Associados, o ator Sansores França precedeu o Jean-Luc Godard: num sketch final de teleteatro, ele estava morto em cena e quando apareceram os créditos sobrepostos à imagem, o homem se levantou e fez o gesto clássico de positivo, como quem pergunta se está tudo legal.
Em O acossado, de Godard, o Jean-Paul Belmondo leva um tiro nas costas, cai na rua e quando a câmera vai explorar o rosto da vítima, ela solta a baforada do cigarro que estava tragando antes de morrer. Este quadro é mais sofisticado, sem, no entanto, ter o tom de surpresa dos tempos heróicos da TV sem videotape.
COLIBRI
Como Lerner é tido, na condição de marqueteiro, de pessoa que domina as artes da propaganda, foi ouvida, com a maior seriedade, a sua sugestão aos dirigentes da Renault, para que dessem o nome de Colibri, numa homenagem à fauna brasileira, a um dos futuros modelos da fábrica. Como o Paraná, em termos de capital e oferta de vantagens fiscais, é um sócio oculto da organização (e preponderante) de repente é capaz de emplacar. Beija-Flor seria também um apelo de paz, de agilidade e delicadeza, e que ficava bem ajustado à figura do Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro, e que parava no espaço para fazer gols de cabeça. Dá para ir pensando em outras designações: Perereca, por exemplo, que também é da fauna, apesar dos outros significados, pouco semânticos.
CASSIO TAMAGOSHI Glória Maria, apresentadora da Globo, citou vários nomes errados na inauguração da fábrica de motores, mas o que maior atenção chamou foi o do prefeito: Cassio Tamagoshi. Um oposicionista requianista diria que ela errando acertou, pois o prefeito seria uma criatura virtual nas mãos de Lerner. O Tamagoshi morre, o Cassio não, pelo menos por enquanto.
De troca de nomes em solenidades nada se assemelha ao ocorrido com o ato inaugural do estádio do Primavera Loprete Frega. O Loprete estava vivo e um dos oradores, ao homenageá-lo, levou mais de três minutos para acertar-lhe o prenome e o nome. Disse Lofrega Prete, Frelote Prega, Prefrega Lote, Prelote Frega e assim por diante. Quando acertou foi ovacionadíssimo.
EDITORIAIS Anteontem, a Gazeta do Paraná, ao comentar o caso de transferência de dinheiro para o exterior pelas contas CC-5, lembrou o discurso do generalíssimo Dutra, na sacada do Braz Hotel, dirigindo-se ao povo da terra das araucarías e não araucárias. Consta, do folclore político, que Manoel Ribas, o ex-interventor, achou legal porque afinal não se diz estrebária e sim estrebaria. Era a velha onda de negar sabedoria a Maneco Facão e reduzir-lhe o conhecimento aos cavalos.
No domingo, O Estado do Paraná, em editorial, com trecho reproduzido na primeira página, comentava o despejo do Centro Cívico e dizia assim: Teve que ser na marra. Com ternura, mas com rigor. Se há mais ternura do que rigor, o despejo não sai. Logo o silogismo completa: houve, sim, muito mais rigor do que ternura. No choque de Brasília nenhum tico de ternura.
MUTANTE Godot já passou e o 13º dos funcionários estaduais ainda não chegou... Mais uma do anarquista Elísio Marques.
ESPIONAGEM Que a Polícia Militar é vulnerável nos serviços de inteligência e contra-informação todos sabem. Tanto é que agora a Pastoral da Terra saiu na frente com a denúncia de que haveria quatro despejos no interior, o que se for um chute acaba tendo efeitos dissuasórios em favor do MST.
Pois no dia do pega no Centro Cívico (a operação foi, sob o ponto de vista logístico, perfeita) houve situações curiosas como a daquele soldado do Hospital da PM declarando numa rádio que o quarto andar estava vazio para receber os feridos de ambos os lados. Talvez esteja aí a causa da proibição do pessoal boquejar sobre assuntos institucionais e andamento de ações.
SEXUALIDADE Lá pelos anos 40 e 50, os homossexuais da cidade, homens em maioria absoluta, já que mal se imaginava que tal se desse com as mulheres, não fechavam uma lista de dez. Dos que faziam sexo oral, então, não havia mais de dois, olhados como figuras épicas que rompiam com a normalidade comportamental. Só que quando um deles ia no cafezinho era um drama a postura dos que estavam na fila para a degustação com horror da xícara usada.
O mundo fechado dessa questão criou situações constrangedoras como a do celebrado Clube das Tulipas Negras. Como ninguém sabia ao certo quem eram as pessoas que o frequentavam, sob os ritos de Eros-Afrodite, a maldade da praça exercia suas artes sugerindo que essa e aquela pessoa eram do elenco.
Outro grande escândalo, fim dos anos 50, foi o celebrado processo dos menores. Na verdade, não eram tão menores assim em maioria. A cidade descobriu, estarrecida, que as gurias davam, e quem se divertia com elas eram figurões da alta burguesia, políticos, empresários.
Descobria-se também o ciclo das drogas, adicionadas às bebidas. O jornal que deu as notícias em detalhes, a sucursal da Última Hora, vendia 60, 70 mil exemplares e provocou numerosos desquites na sociedade. Os advogados faziam um trabalho de terror, pedindo às meninas, em seus depoimentos, que dessem o maior número de colunáveis, que nem sempre participavam das orgias.
ESPANTO Viajo por um álbum de fotos do artista Peter Scheir, que nos deixou mais de 50 mil negativos daquela passagem (de 51 a 53), nas comemorações do Centenário: redescubro o Pedrinho, jornaleiro, menino assistido, que mais tarde seria o gênio repórter fotográfico da Tribuna do Paraná e de UH, um riso de confiança no amanhã, e também um carroção de colona passando diante do Colégio Estadual do Paraná e ao fundo a Casa do Estudante em construção.





