Luiz Geraldo Mazza




Descontos e ‘‘títulos podres’’
O Paraná perdeu muito dinheiro com os títulos públicos de vários Estados e municípios do País. A façanha da Corretora Banestado, no filtro do saneamento da organização, deu-se no governo pródigo de Lerner, o que acelerou a quebra da instituição com operações perniciosas que não se limitaram aos episódios da Leasing. O ‘‘mico’’ dos títulos é de R$ 590 milhões e apareceram nessa peça de realismo fantástico que é o orçamento estadual, num artigo que lhe permite vender ou permutar esses papéis.
Como negociar títulos é área de risco – e eles eram de Santa Catarina, Alagoas e Pernambuco e dos municípios paulistas de Guarulhos e Osasco – ver-se-á quando muito no fato um exercício temerário e de incompetência e não necessariamente de suspeita e fraude, como os dos eventos da Leasing.
Quanto tempo levaremos para que questões como as do tombo no Banestado sejam examinadas pela Justiça? Certamente um período longo, tal qual ocorreu com as havidas na gestão Alvaro Dias (o desconto em favor de 50 empreiteiras é, antes de tudo, algo que define o traço sinuoso e perigoso das relações de clientelas com o aparato estatal, como de certa forma se dão em escala nacional) e só agora aparecem movimentando o Ministério Público federal, que enquadrou toda a diretoria do banco, nos eventos de 1990, no crime do colarinho branco.
Ensanduichado entre esses dois períodos governamentais está o de Requião que certamente há de ter coisas também interessantes, aliás apropriadíssimas aos bancos públicos, como agências de acomodação de interesses. Como também no de Richa tivemos os casos do Banco del Parana, a história dos cisnes que Alvaro Dias manobrou com sua compulsão pelo marketing da moralidade, que ora afeta o seu período governamental. Quando as retaliações entre Requião e Mário Pereira se aguçaram, houve aquela denúncia clássica do homem do carrinho de cachorro-quente em Ponta Porã (no outro lado da fronteira, Pedro Juan Caballero) e em cujo nome se movimentava o equivalente a US$ 1 milhão por dia.
Na verdade, o que isso dá a entender é que o banco estadual pode ter sido tudo, menos público, porque o que se sabe dele é de privilégios privados.



BIZARRICE
Às vezes, por certas coisas que diz e faz, dá a impressão que Lerner é um médium que acolheu o espírito do Rafael Greca. Essa, por exemplo, de sugerir à Renault que crie um carro com o nome de ‘‘Colibri’’. Para esses tempos bicudos, as coisas estão mais pra urubu do que pra colibri

AXIOMA Dizem que a Igreja Universal do Reino de Deus estaria interessada na compra da Universidade Tuiuti, de Curitiba. Ela acaba de comprar um time de futebol no Rio e que vai disputar a segunda divisão carioca. De chutador de santo – e isso aconteceu com um dos seus bispos – passa a chutar coisa mais adequada: a bola.
GLOSA Quando demos a notícia que a Cherokee do gabinete do governador havia sido roubada, e que ela tinha sido presente da Chrysler – a partir de informações de gente do próprio governo – houve rápida explicação oficial: a de que era objeto de um comodato. Como é comodato, não há porque o governo, à moda da novela, ficar incomodato. O correto, como sempre, é manter-se acomodado.
MÍTICAS O fotógrafo desta ‘‘Folha’’, Kraw Penas, conseguiu ontem um flagrante forte em Curitiba: um cavalo morto na fonte de captação de água potável da Sanepar. Pior seria se fosse já na Estação de Tratamento, como as lendas no passado sugeriam ter ocorrido com um homem, ao lado de outra, igualmente mítica, que narrava o caso da morte de um trabalhador no poço de uma fábrica de refrigerantes.
SPRAY Apesar de todas as cautelas, a PM não conseguiu evitar o vazamento da informação de que haveria novos e sucessivos despejos contra o MST. A Pastoral da Terra botou a boca no trombone e deve obter uma dissuasão na idéia. - UDR e outras facções ruralistas, empolgadas com o desmantelamento do acampamento do Centro Cívico, sentiram-se não inibidas, como esperava o governo, mas dispostas como nunca a despejos por fazendeiros organizados. - Todo o clima é fator de preocupação do governo, e especialmente da Polícia Militar. Se a PM conseguisse deter, num caso concreto, ação de ruralistas poderia melhorar seu cacife e diálogo junto ao MST. - Presidente da OAB nacional andou pregando o fim das PMs, depois das ocorrências violentas de Brasília e o Paraná acabou citado como exemplo de uma corporação dada à prática de abusos. - Se com o PT no governo em Brasília, as manifestações exigiram também a intervenção da PM, dá para imaginar o quadro agora. - Beatificação do MST é um dos complicadores porque conta com indulgências plenárias para as invasões, roubo de gado, tortura e morte. Essa concepção penetrou fundo nos meios de comunicação como se sempre figurasse o ‘‘bem’’ contra o mal, que é o fazendeiro, o governo e a Justiça. Convenhamos que o raciocínio é safadíssimo, embora em algumas situações, o trio o mereça. - Bacharéis em Direito (UFPR) de 1954 (minha turma) comemora os 45 anos de formatura dia 17, às 20 horas, no Hotel Lancaster. - ‘‘O verão da leitoa gorda’’, livro de contos de Jamil Snege, sai brevemente. - Corre em várias mãos a listagem enorme dos brasileiros que fizeram operações CC-5 de 92 para cá, em remessas de dinheiro para o exterior. Total: R$ 7,4 bilhões em pessoas físicas, R$ 111,5 bilhões em jurídicas. - juiz de Araucária, Luis Orlando Borges Albuquerque, proibiu movimentação das empreiteiras acusadas de obra fantasma numa estrada e arbitrou multa diária de R$ 20 mil por desobediência.
FOLCLORE Antonio Carlos Belinati, com dedicação exclusiva numa autarquia de Londrina, estava ao mesmo tempo na universidade. É um caso de ubiquidade, menos suave do que o da ambiguidade, comum nos políticos como o pai e a mãe.
CROMO O cenário da ciclovia, na marcha matinal, é o mesmo: pássaros, árvores, companheiros. Dele sumiu apenas a Mona Lisa do Cristo Rei que me saudava apenas com o olhar grande e meio sorriso. Será que era real?
AFORÍSTICO O francês da multinacional falou e disse: ‘‘Curitiba muito bom pra indústria. Pena - que falta água’’.

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