Luiz Geraldo Mazza




A regressão moderna
Falávamos de utopias regressivas como a do agrarismo, visível no fato de ser impossível na atualidade imaginar o campo com a densidade de trabalhadores do passado. Mesmo a China Continental, com toda a sua cautela, está reduzindo drasticamente o número de ocupados na lavoura. O processo atual brasileiro, com a questão dos sem-terra, evidencia que se trata de um saída emergencial, de médio prazo, voltada para a questão social – exclusão, desemprego, capitalismo no campo e concentração fundiária – mais do que econômica.
Contraditoriamente, porém, o que pinta como moderno e pós-moderno não passa de uma nova roupagem de uma doutrina nascida do agrarismo: a Escola Fisiocrata do francês Quesnay (1694-1774), que considerava a terra como a única e verdadeira fonte das riquezas e que há uma ordem natural e essencial das sociedades humanas, que é inútil contrariar com leis, regulamentos, sistemas.
A terra perdeu essa consideração, mas o conteúdo da doutrina persiste e o mercado é a síntese dessa dinâmica nos termos atuais. Há um novo imperialismo e um novo colonialismo beneficiado por essa cosmovisão.
O determinismo, que a informa, é às vezes enfrentado pelos românticos, tal qual se viu na resistência maravilhosa em Seattle (EUA) e nas barricadas que, de certa forma, a configuraram. Vejam, porém, a incoerência do sistema: não haverá corte radical dos subsídios à agricultura européia, conforme a decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC). Casuísmo que nega a filosofia interna do sistema em favor dos que detêm poder e contra países, como o Brasil, que sofrem restrições alfandegárias pelas razões mais absurdas, às vezes por causa do trabalho infantil, ora devido a incentivos fiscais, tolerados para os chefões do G-7, ora devido a patologias nem sempre comprovadas, como as que vigoraram quando do veto aos nossos frangos.
Outra contradição filosófica é o fato de haver hoje fundamentalismo econômico mais radical do que o imaginado pelos desdobramentos do marxismo-leninismo e que se aproxima em tudo do culto do bezerro de ouro bíblico. Associa-se ainda a isso tudo um hedonismo extremado na exaltação do prazer, especialmente do consumo exacerbado.
Nos tempos da Guerra Fria, em nome da civilização cristã e ocidental se dizia que o homem surgiu com uma destinação transcendente que decorre do fato de ele ter criado o Estado e não ser seu escravo. A escravidão de agora é ao mercado.



BIZARRICE
Lerner volta a viajar pela 32ª vez. Num país sério em pouco tempo seria ‘‘viajado’’

AXIOMA O deputado Nelson Justus, presidente da Assembléia Legislativa, não vai assumir o governo na saída simultânea de Lerner e Emília Belinati, já que viajará a Paris. Lá, por certo, dormirá o sono dos justus.
GLOSA Irregularidades do Banestado, governo Alvaro Dias, começam, depois de tanto tempo, a pingar na Justiça. Dá para esperar, mantido o ritmo, que as do governo Lerner (Leasing e Corretora) apareçam lá pelo ano 2020.
EPIGRAMA A surpresa que o MST está prometendo para Lerner já dá para imaginar: loteamento dos parques Barigui, Tingui e Tanguá entre os trabalhadores rurais; transformação da árvore natalina da Rua XV com Marechal Floriano, de Curitiba, em uma espécie de pau-de-sebo para uma olimpíada dos rurícolas; ocupação do Ópera de Arame e do Jardim Botânico, seguida de um pedido, depois de cinco anos, do usucapião. Algo, enfim, para marcar um novo século.
SPRAY A Justiça é lenta e justamente para garantir amplitude de defesa: só agora é proposta ação criminal na Justiça federal contra o ex-presidente do Banestado, Carlos Antonio Almeida Ferreira, e mais oito ex-diretores, gestão Alvaro Dias. - Acusação: a devolução de R$ 10,8 milhões a 50 empreiteiras, o que equivale a 62,6% do lucro no primeiro semestre de 1990. - O banco oficial, num caso rumorosíssimo à época, contratou em 1987 e 88 operações de crédito garantidas por notas promissórias e caução de direitos de crédito junto ao Departamento de Estradas de Rodagem. - O caso foi ligado, porque se deu também naquele período governamental, ao pedido de liquidação extrajudicial pelo próprio governo do Badep. - As empresas receberam dinheiro devido pelo DER e transferiram seus créditos ao banco. Enquadramento: crime do colarinho branco.- Se houvesse, naquele ano, o nível de liberdade atual e também a ação de um Ministério Público diligente, as coisas teriam fluído como no caso dos abusos da Leasing, agora no governo Lerner. Este, por sinal, mostrou a importância que dava ao fato nomeando o autor das irregularidades a secretário de Estado.- Lair Ribeiro vem aí de novo, e agora para sugerir aos ansiosos vestibas como enfrentar a parada com bom humor: em duas palestras no Centro Integrado do Empresário e Trabalhador (Cietep), em Curitiba), das 8h30 às 12 horas, e das 18h30 às 22 horas, no dia 9 deste mês, discorrerá sobre auto-ajuda no momento de testar a entrada na universidade. Ingressos custam R$ 15 e são vendidos no Cristal Club do Shopping Cristal. Renda será revertida em favor da maternidade e Banco de Leite do Hospital de Clínicas. - Conselho de Ensino e Pesquisa da UFPR está sendo muito criticado por ter negado a transferência do ex-deputado federal Ricardo Gomyde, secretário geral do PC do B no Paraná, do curso de Jornalismo da Universidade de Brasília. A UPE alega que houve discriminação política.
FOLCLORE O prefeito Cassio Taniguchi me alerta para o equívoco que cometi anteontem, quando disse que Piraquara significa ‘‘muito peixe’’ na língua tupi-guarani. Na verdade é ‘‘toca do peixe’’, como Araraquara é ‘‘toca de arara’’ e Tatuquara é ‘‘toca do tatu’’. Hoje, Piraquara e toda região de preservação dos mananciais é toca de invasores que degradam a área e o governo nada faz.
CROMO A estiagem faz renascer fantasmas nas represas: árvores sinistras exibem nas garras a natureza agredida, o lodo rachado feito cerâmica, a desolação também, como a morte, é uma forma de arte.
AFORÍSTICO Se o governador Jaime Lerner fizesse um diário das suas viagens, levaria o resto da vida escrevendo. E isso sem precisar justificá-las porque aí a parada seria invencível.

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