Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Ganho e perda no despejo
Uma pesquisa de opinião revelará claramente que a maioria da população está a favor da desocupação do Centro Cívico. O paranaense médio, especialmente o metropolitano, é avesso às manifestações do basismo e, em particular, do agrário. Os que se manifestaram contrários à operação são os derrotados crônicos das eleições: a esquerda primitiva, o PMDB, organizações tidas como de massa e de ralos integrantes, Pastoral da Terra, alguns bispos (a CNBB-Sul condenou, em documento recente, as invasões de propriedades produtivas).
Os diretamente envolvidos no choque, aliás trabalhado ideologicamente na direção do pior dos maniqueísmos, por si mesmo a negativa do raciocínio, deitam e rolam em cima dos acontecimentos: ruralistas e MST contabilizam o que for possível com razões mais agudas do que as de governo e oposição. A vinda ao Paraná, por exemplo, de líderes religiosos e parlamentares visa desgastar o governo e manter viva a chama do MST, pois a solidariedade político-ideológica é chave para uma ação vinculada a essas características, mais do que o objetivo imediato do acesso à terra.
É o fermento, legítimo aliás, para mexer com as estruturas fósseis da sociedade desigual e com raízes no feudalismo. Só que ele, a despeito de sua carga de justiça, conflita com a ideologia dominante, o fundamentalismo econômico, o consumismo e que é hegemônica e confessional.
Com essa atitude, Lerner se situa bem junto ao PFL e fica mais distante do PDT, ao qual dava fundamento aqui no Paraná e na Região Sul. Recupera-se dos ônus da tibieza, da ausência de determinação e autoridade, revelados ao longo de sua gestão que transformou a região, especialmente o Noroeste, no paraíso das invasões. Pode animar-se com o sucesso e adotar um cronograma mais curto para despejos com o que perderia condição para encaminhar os conflitos à base do diálogo. A pressão basista vai continuar, talvez com maior cautela, pois se mostrar perda de garra sofrerá inevitáveis deserções, como se dá em cada caso concreto de desocupações com a base exigindo da liderança explicações que, por melhor formuladas, caem no vazio. Petroleiros tentam até hoje a volta dos demitidos, desde a derrota sofrida em sua última greve. É a solidariedade imperativa, obrigatória, o que não garante a vitória da causa. Mesmo a queda, quando não forja mártires como em Corumbiara e Eldorado de Carajás, não gera motivações. Corumbiara, por exemplo, está esquecida como também o sacríficio do Teixeirinha em Campo Bonito, onde, aliás, a PM perdeu três soldados na gestão Roberto Requião.
Lerner correu um risco parecido com o do seu antecessor o de perder o controle dos acontecimentos: naquele caso, com as baixas da PM e agora com uma ofensiva de ruralistas fazendo despejos na marra e em série. O sangue, que naquele caso não foi evitado, seria agora incontornável.
BIZARRICE
O cartel do ensino privado, para defender-se da Medida Provisória que proibirá expulsão de inadimplente, quer cadastrar fiadores com respectivos alunos. Pior seria que decidisse castrá-los
AXIOMA O Centro Cívico foi bolado para ser uma espécie de Ágora dos gregos, o núcleo de deliberações da Cidade-Estado, a democracia direta. Lerner, que se diz gênio do urbanismo, quer recuar a concepção ao feudalismo. Poderia fazer um fosso, com o jacaré do Barigui lá dentro, transposto por pontes levadiças. Lá em cima seus áulicos, com elmos e roupas metálicas, lançariam óleo fervente nas massas iradas de professores e aposentados. E é claro haveria catapultas.
GLOSA Se cercarem o Palácio Iguaçu, urge colocar o aviso em lugar bem visível: Não dêem pipocas aos animais! Aí um gaiato acrescentará: Nem votos.
EPIGRAMA Piraquara significa muito peixe na origem tupi-guarani. Hoje não tem sequer água, que só aparece por lá à noite. É um governo de gênios: água em abundância só no anúncio da Sanepar, hoje meio cosmopolita.
SPRAY A escolha do símbolo de Curitiba foi uma prova de que é possível derrotar o autoritarismo. Tudo estava pronto para consagrar o Jardim Botânico até que os ex-alunos da UFPR se mobilizaram e reagiram. - Pelo jeito, vai ser preciso fazer o mesmo para evitar o vandalismo pretendido no Centro Cívico para que os ouvidos sensíveis do reizinho não sejam afetados pelo grito das multidões: o desprezo aos fundamentos históricos de um dos projetos mais ousados, urbanisticamente, em Curitiba, está na raiz dessa toalete de traço fascista que ali se pretende. - Da mesma forma que negavam a raíz, no caso do símbolo da Universidade, para propor os kitschs lernerianos, agora viram as costas à história por temor paranóico às manifestações populares. - Se o papa voltar a Curitiba não vai ser possível reprisar o ocorrido antes porque serão tantos os obstáculos que o povo não terá acesso à área dos Três Poderes. - Isolar o Palácio com cercas metálicas, bosques e quadras poliesportivas é algo que não apenas tem a cara do PFL, como também define a sua essência. - Imaginaram alguém pretender mudar a concepção da Praça dos Três Poderes em Brasília (considere-se que lá o número de manifestações tem sido bem maior), planalto central? Esse tipo de especialidade e de genialidade só tem aqui na terra modelo, mais escatológica do que ecológica.
FOLCLORE Pelas concepções do projeto do Centro Cívico a revitalização que mata a democracia dá para perceber que há uma espécie de labirintos entre bosques e quadras esportivas. Está mais para o labirinto dos cretinos do que o de Creta. Quem se candidata a Minotauro?
CROMO Um raio de sol existe// à sombra do teu sorriso// bailando no lábio insiste// pequeno duende esquivo// Posto que o teimes velado// é sol nascente no rosto:// surge em mil multiplicado// como em prismas decomposto. Um fragmento do prisma de Mário Stasiak, poeta de Cruzeiro do Oeste.
AFORÍSTICO A pior das repressões não é o desmanche do acampamento que nem deveria ter se instalado, se houvesse senso democrático (não se pode ocupar sempre uma estrada ou o trilho de um trem e de metrô), mas a safadeza urbanística da reforma do projeto, este sim fascista até a medula.





