Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Redundância regressiva
Quando Requião venceu Lerner em Curitiba, em 1985, o slogan do PMDB era Voltar atrás nunca mais e que pegou, apesar do mau gosto e da terrível redundância, parecida com aquela dos locutores de futebol de correr atrás do prejuízo. De lá para cá, não apenas Lerner, por mais de uma vez, e o próprio Requião infringiram a advertência voltando à cena. Há quem entenda até que a única saída para o PMDB resida na disputa necessária da prefeitura pelo senador, já que o clone de cabelos brancos, seu mano, não daria pra saída.
Mas não é apenas esse dado lamentável da política paranaense que mantém no cenário os mesmos quadros desgastados, incapazes de uma proposta nova. O MST, em que pese o seu lado positivo para pressionar o poder em favor dos chamados excluídos, é algo que navega na contramão da história e que se afirma numa das piores contrafações, a de uma utopia regressiva de um agrarismo sobre o qual o anátema de Marx é claríssimo no Manifesto Comunista. Não será com o cenário de um alqueire e duas vacas, a que se referia o direitista Gustavo Corção, que se fará a decantada reforma agrária que perdeu o bonde da história antes dos anos 20, nos quarenta da Constituição liberal-progressista de 46, que lançou o usucapião pro labore e, sequencialmente, nas décadas seguintes, passando pela do golpe com o Estatuto da Terra, do Bob Fields, e agora com os assentamentos de FHC, ganhos sob pressão.
Como se contaminado por essa utopia regressiva, timbrada pelo acampamento recém desfeito pela PM, o governador Jaime Lerner, juntamente com o Ippuc, desenterrou um projeto de remanejamento urbanístico do Centro Cívico, que mal consegue ocultar a sua intenção de impedir manifestações no lugar adequado que é a praça do Palácio, que está para o governo como a de São Pedro para o papa, no Vaticano. É tolice tentar fazê-lo porque o povo sempre encontrará formas novas, flexíveis, de apontar o bumbum do rei nu.
Intervenções no Centro Cívico têm sido perniciosas, uma das quais a feita na gestão Requião, talvez com o intuito de lembrar o comício de sua re-posse no governo, do qual fora caçado. É no mínimo suspeito um remanejamento feito logo após a remoção do acampamento, que só existiu por frouxidão do governador e que em nada servia a causa reformista, apesar do equívoco basista de confiar no significado metafórico de um cerco ao poder, gesto inútil e impotente.
Vamos retornar ao feudalismo com pontes levadiças e fossos. Quem sabe a história recomece como em 1215, quando o rei João Sem-Terra, da Inglaterra, criou a primeira Magna Carta, o processo constitucional, abertamente desrespeitado por essa revitalização lernerista que ignora o fato de que a Constituição em vigor, a de 88, criou a novidade da democracia direta e que nos remete, emblematicamente, à Ágora da Cidade-Estado dos gregos.
BIZARRICE
Burle Marx foi lembrado agora nas discussões sobre o remanejamento do Centro Cívico, pois havia feito várias propostas em sua área de jardinagem e paisagismo. Dá para lembrar de outro Marx, o Groucho, na paródia: Não frequento palácios nem praças que me admitem como visitante
AXIOMA A má vontade com políticos (criação de sete cargos pelos deputados no Tribunal de Contas é um desses acintes) está patente em tudo: a rádio dava a notícia da mulher de 60 anos, que assaltou uma pessoa perto do Carrefour. Quando detalharam que levava na bolsa uma peruca, tascaram: Deve ter tirado de alguns dos políticos que temem a calvície.
GLOSA Cada vez que apertam o governador para nomear concursados, ele alega a Lei Camata, cujos parâmetros máximos foram de longe superados no Paraná. E essa picaretagem do trem-da-alegria dos cupinchas do Tribunal de Contas, já aprovada por essa pegajosa Assembléia, como é que aí se ajusta?
Para os amigos do rei, tudo. Até o Caíto Quintana entrou nessa com incrível entusiasmo, como se viesse a partilhar do botim.
RIOCENTRO Há quem veja uma reprodução piorada do Riocentro nos efeitos do despejo dos sem-terra no Centro Cívico: o soldado Xavier, da PM, sofreu um acidente ao tropeçar no meio-fio com fraturas, e o governo tentou atribuir o fato a uma agressão, inexistente, que teria sofrido do advogado Darci Frigo, da Pastoral da Terra. De um acidente de trabalho querem fazer um atentado.
Atentado é esse governo que aí está: mata o passado no Centro Cívico, ao desrespeitar os fundamentos pré-fixados de urbanismo e de urbanidade e mete a mão no futuro na cupidez com que se atira nos royalties de Itaipu.
SPRAY A burocracia da informação na polícia começa perturbando: uma gangue de ladrões de banco e que portava 30 quilos de maconha deveria ter sido mostrada ontem e ficou para hoje. - Centralização das notícias dificulta a mídia e expõe a Polícia Civil a riscos nos deslocamentos pela cidade e que podem facilitar a ação de criminosos para render as viaturas com os presos. - Há substanciosos pareceres de constitucionalistas e farta jurisprudência que derruba a manobra da nomeação sem concurso de controladores do Tribunal de Contas. Cumpinchas estão assanhados, mas os juristas têm mais razões que emoções. - O Mônaco Bingo Show, de Foz do Iguaçu, foi fechado pela Polícia Federal e agora há pânico de credores atrás do empresário que dizem ser ligado ao futebol. - Churrasco ontem na Academia Militar do Guatupê reuniu quase 300 oficiais superiores da ativa e da reserva em torno do coronel Guaraci Moraes, novo comandante da PM, e que se saiu bem na prova de fogo da remoção do acampamento do MST.
FOLCLORE Sob o patrocínio do Rexona, voleibolistas, basqueteiros, salonistas, skatistas, patinadores, acrobatas, petequeiros substituirão os sem-terra.
CROMO Luciana, diante do espelho, remodela o corpo e o espírito e não se deixa apanhar pela prisão, a solitária, de Narciso.
AFORÍSTICO MST promete surpresa para Lerner: que não seja aquela da Ferrovila, de atrapalhar as celebrações natalinas no centro de Curitiba.





