Luiz Geraldo Mazza
Jornalismo não oficial
Um dos maiores orgulhos de minha vida é estar nesta Folha. Ninguém a supera nos momentos cruciais, seja na avaliação da morte de Aníbal Khury, seja neste feito excepcional, em rigor de cobertura, que foi o desmantelamento do acampamento sem-terra no Centro Cívico.
Toda a equipe, mobilizada para a reportagem, foi sincrônica ao desencadear dos acontecimentos. A PM levou vários dias entre programação e execução - do despejo; a equipe jornalística despertou, com o grasnar dos gansos do Capitóleo, ajudada pelo povo espantado com as dimensões da operação de guerra.
Um jornalista não é neutro, embora uma imposição profissional o obrigue ao distanciamento para buscar o relato isento. E foi o que fizeram todos os profissionais destacados para a tarefa: tiveram que usar de malícia porque a PM não queria imagens muito vivas dos acontecimentos, e mostrar habilidades guerrilheiras em movimento para burlar a vigilância militar. Resultado: o documento demonstra a obviedade de que é impossível uma operação dessas sem uma cota de violência e autoritarismo.
O acampamento era um símbolo: para os basistas, de pressão e até vitória sobre o poder instituído; para a maioria da população, expressão da frouxidão do governo que foi um tanto quanto covarde no cronograma da remoção, saindo da tolerância pastosa à violência, urdida de madrugada. Na verdade, o governo não teve alternativa: por ter sido conivente com as invasões e posteriormente com as violências de ruralistas, que não reprimiu com a ênfase devida, estava perdendo a condição de mediador com a fúria dos radicais que, semana passada, desocuparam duas fazendas.
Tanto a ocupação como a desocupação são atos simbólicos, sejam a da terra ou a do Centro Cívico. Seus significados se esgotam, especialmente quando não há mártires que poderiam ter emergido do processo. A rigor, havia imobilismo nos dois casos, em que pese a aparência em contrário, de tensão permanente.
O medo máximo do governador nesses enfrentamentos é o de ser punido por ter abusado das vicissitudes sofridas por Alvaro Dias ao reprimir a passeata dos professores em 1988, que explorou à exaustão, em seu proveito, na campanha de 1994. Teme a justiça poética e daí resulta a sua omissão que não decorre, como querem alguns áulicos, do seu espírito democrático e de tolerância.
O melhor de tudo, desculpem, foi a documentação desta Folha, que agiu nessa guerra alegórica como uma também alegórica Cruz Vermelha, menos para curar feridos do que para identificar bem a moléstia da questão fundiária.
BIZARRICE
Em função da Terra Nostra, que continua deles, e do linguajar na base do ecco, surgiram variações aplicáveis ao Paraná como é covarde, é corrupto, é conivente, é comparsa. Não se incluem na relação as siglas Ecovia e, especialmente, a EcoParaná, que foge do Tribunal de Contas como o diabo da cruz
AXIOMA Segundo a Pastoral da Terra, pelo tom dramático das condenações, ao governo Lerner só faltou chamar as tropas da Otan para remover os sem-terra do Centro Cívico. Duas coisas ofenderam o governador: a de ter sido chamado de nazista por causa do despejo e, isso numa medida inconfessável, o fato até de turistas estrangeiros estarem fotografando mais o acampamento do que o Ópera de Arame e o Jardim Botânico.
GLOSA Um áulico foi à televisão para dizer que com o dinheiro gasto no acampamento sem-terra (Prefeitura de Curitiba e Estado), que chegou a R$ 500 mil, daria para fazer quatro creches. Só que o próprio Cassio Taniguchi vai despender essa mesma importância para o oba-oba da passagem do ano no Parque Barigui. Pelo jeito, o foguetório tem a intenção sub-reptícia de expulsar as aves, os roedores, o jacaré, as borboletas, com a mesma eficácia com que tiraram os sem-terra diante do Palácio Iguaçu.
SPRAY O pior de tudo é a justificativa de que se vai fazer no Centro Cívico uma revitalização da área quando quem está precisando urgentemente de uma é o governo, mais do que ninguém. - Maior escândalo é o seguinte: atribui-se ao governador e à prefeitura da capital um domínio, como em nenhum outro lugar, das técnicas urbanísticas. Pois bem: o Centro Cívico, apesar do seu peso estratégico na capital, não tem um Plano Diretor. As evidências estão no desprezo às sugestões feitas por Burle Marx, o absurdo de prédios pesados como o do Fórum, felizmente condenado, que nada tem a ver com o estilo moderno e leve da maioria das edificações. - Quando da implantação do Centro Cívico, nos anos 50, havia normas rigorosas que limitavam o gabarito dos prédios do entorno da área. As próprias unidades abusaram, como os anexos da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Contas. - Antes do Plano Diretor de Wilheim, na gestão Ivo Arzua, já andara por aqui o urbanista (bem mais importante do que os badalados da terra) Prestes Maia, que fez a Ney Braga, então prefeito, algumas recomendações, das quais muitas delas referentes ao Centro Cívico. - É ridículo tentar maquiar o temor das manifestações populares com medidas como a do estacionamento de veículos (vai ser a festa dos ladrões, já que não temos polícia para a segurança do cidadão e de sua propriedade) e a construção de playground e canchas esportivas. - Um detalhe sobre o episódio da retirada dos sem-terra: o governador sai fortalecido do episódio junto à maioria da população. Nosso povo é assim e querer revogá-lo é coisa de fascista. Maioria discordava, desde o início, do acampamento. Só os fanáticos não enxergam. - Se houver pesquisa sobre o assunto, isso ficará bem demonstrado.
FOLCLORE Por falar em pesquisa, há uma da Prefeitura de Curitiba que diz que só a candidatura Roberto Requião levará o pleito para o segundo turno e que assim mesmo Cassio Taniguchi vencerá. Requianistas contestam, dizendo que essa amostra foi tomada na prefeitura. Só que as do PMDB, que dão Requião vencendo tanto Greca quanto Lerner, também saem do seu esconderijo.





