Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Biodesagradáveis em ação
Quando prefeito de Curitiba, Rafael Greca se irritou com as investidas do grupo ecológico dirigido por João Belo e que combatia, a um só tempo, a canalização do Rio Bacacheri e a implantação do Instituto de Qualidade e Produtividade daquele logradouro e chamou-o de biodesagradável. Mas Greca levou a pior, apesar da boa piada: é que o arqueólogo Igor Chimz detectara material cerâmico que poderia indicar que fosse exatamente ali a chamada Vilinha, núcleo de ocupação que o historiador Júlio Moreira apontara como localizado no Atuba.
Assim, pois, quando não são os ambientalistas, aparecem arqueólogos para colocar em cheque os utilitarismos das obras públicas. Isso aconteceu na área em que foi erguida a Renault e, antes disso, também na represa do Rio Iraí para evitar o desaparecimento de uma espécie de ave, o macuquinho da várzea.
Já tive passagens ambientalistas, bem antes de isso se transformar em moda: aqui mesmo, neste jornal, fim dos anos 60, coloquei em discussão a falta de cautelas ambientais na área da Hidrelétrica Capivari-Cachoeira. Foi um rasgo profético, já que, logo depois de completada a bacia de acumulação, houve problemas com mortandade de peixes e acúmulo de algas nas turbinas, o que obrigou deslocamento de dezenas de operários para a remoção. Houve teste de combate físico e químico: bombeamento da represa e uso de substâncias.
Naquele tempo não se falava em Relatório do Impacto ao Meio Ambiente, hoje não se faz uma usina sem esse documento, e tomada de cautelas em torno da fauna e da flora. Mas havia gente séria, preocupada com o tema, como o mestre Edwino Tempski, médico e biólogo, empolgado com a questão e que brigou muito para que se criasse o Parque do Capivari justamente para preservar o ambiente.
VILA VELHA
Em 1961, quando da abertura do Parque de Vila Velha, já que a rodovia o cortara ao meio, como integrante de uma comissão que estudou seu planejamento (ela era presidida pelo engenheiro Armando Júlio Bittencourt e a compunham, entre outros, o arquiteto Romeu Paulo da Costa e o pintor Nilo Previde) tivemos uma dividida com o bispo de Ponta Grossa, D. Geraldo Pelanda, que queria espaços para uma igreja, um seminário, obras sociais. Sugerimos, então, que se fizesse (o Concílio estava a toda) um templo ecumênico. Se saísse, seria o primeiro do mundo. Como advogado do grupo, dei o parecer contra as pretensões da Igreja com fundamento no Código Florestal que o impedia, e no caráter laico, não confessional do Estado. Agora, quando há mais um incêndio no parque como as brasas vivas, volta tudo à memória
APELIDO Com o rosto cheio de bexigas foi visitar Paranaguá e ganhou o apelido Reboco de Igreja Velha.
O LÚDICO Para se ter uma idéia da pobreza que nos cercava, lá pelos anos 40, a maioria da turma andava descalça ou, na melhor das hipóteses, com alpargatas Roda, feitas de encerado. Nos desfiles escolares o uniforme era engomado e com alvaiade fingíamos que o tênis era novo. Disputávamos partidas de futebol por cachos de banana e estatuetas de barro, enfaticamente barrocas e de um mau gosto funcional. O Centro Cívico era aquele tempo terreno dobrado, cheio de morros, e erguendo as estatuetas, na carroçaria de um caminhão, como se antecipássemos o gesto de Belini em 1958 na Suécia, urrávamos de prazer.
Éfe rá, frá; éfe ré, fré; éfe ri, fri; éfe ró, fró: éfe ru, fru. Frá-Fré-Fri-Fró-Fru. Fechávamos o grito de guerra com o nome do time.
Havia compensações nobres como a de tomar banho de água mineral em nascente que estava ao lado dos prédios, hoje, da Assembléia e do Judiciário.
PASSARINHOS Num daqueles latifúndios, uma chácara, havia cercas vivas de espinheiros e adornadas por ameixeiras. As frutas caíam nos espinhos, em ponto mais baixo, e eles as adoçavam. Só na memória existem frutas como o são-joão, que tinha a forma de um balãozinho e uma miniamora que pelo dado táctil era apropriadamente chamada de veludo, comidas de passarinho. E nós éramos como eles, pássaros: livres e errantes, o mundo inteiramente nosso, infenso às cercas e aos limites. E sem correr o risco do estilingue e do bodoque, que quase sempre estavam em nossas mãos.
NAUFRÁGIO Ivan Gonçalves Pereira, ex-goleiro do Atlético e da seleção universitária, conta que numa das olimpíadas a equipe de waterpolo pulou na piscina, deu o grito de guerra e a maioria afundou porque ou nadava muito mal ou não sabia fazê-lo. Blug, blug.
O OLHAR Há quem explique a introversão curitibana como algo cultivado: o horror ao Carnaval, por exemplo, decorre do patrulheirismo, isto é, dos críticos e que debocham dos que estão brincando. Esses patrulheiros, como são notória maioria, parecem estar a serviço de algo diabólico para confirmar o arquétipo a respeito dos curitibocas.
Uma ocasião, eu me achando um revolucionário em agitação de rua, animava a greve dos garis, os lixeiros (o vereador Bernardi quer chamá-los de operadores ecológicos), então operários da prefeitura. No meio lá estava no coro, em duas e três vozes, entoando: Estamos com fome!
Foi, então, que descobri que o curitibano é uma esfinge com a força da figura mitológica: da porta da loja da Singer, máquina de costura, ele me costurava com seu olhar de Rasputin, meneando a cabeça em sinal de desaprovação e de deboche, lembrando que nem numa sessão espírita se transforma um bacharel disponível em lixeiro, mimetismo a que todos nos dedicávamos. Hoje, garis, amanhã, metalúrgico, depois da manhã feirante, e assim por diante.
BOLINA No bondinho a senhora irada, sombrinha transformada em arma, como se tentasse atingir seu algoz, acusa a existência de um bolina no recinto. Hoje há bolinadores que se transformam no homem-aranha para com os cotovelos, o joelho, o nariz, as mãos tocarem o corpo das mulheres. Um dia, no ônibus de Santa Felicidade, a guria chiou quer baixar a espada? e lá se foi, denunciado e humilhado, o bolina agachado para esconder o flagrante.





