Luiz Geraldo Mazza
A tolerância, apontada como virtude, pode configurar terrível defeito. Ouvi uma pregação do arcebispo metropolitano de Curitiba, Don Manoel da Silveira Delboux, sobre o tema na perspectiva da escolástica e da teologia e me lembro da referência modulada entre a falta ou o erro de caráter relativo ao absoluto como nuances de situações.
Todos os dias nos batemos com esse problema agravado pela circunstância de vivermos um momento atípico da evolução brasileira com a perda referencial do dado legal ou ético do que pode ou não ser permitido. Tolerante demais, até para mostrar-se politicamente correto, o governo federal vinha (e continua) permitindo a frequência de abusos de toda ordem com aberto descumprimento da lei com invasões de repartições públicas, de propriedades urbanas e rurais. Nem a bucólica invasão do gabinete do ministro do Planejamento por perus, cabras, galinhas e porcos provocou o nível de indignação esperado: ameaças de processamento, de cobrança de telefonemas dados pelos dirigentes da Contag, foram as respostas. A própria incapacidade do governo em dar respostas aos problemas da terra, da moradia urbana, da saúde (a falta de vacinas, tanto a tríplice como a da hepatite é uma dessas evidências) leva aos radicalismos. Até os índios partiram para a pesada derrubando as torres da Eletronorte como pressão para a demarcação das suas terras.
E foi nesse contexto que o Brasil inteiro viu a invasão de conjuntos em São Paulo, que acabou em morte de três sem teto, e a provocação do Stédile, líder do MST, pregando a invasão de terrenos baldios nas cidades e saques aos supermercados numa reunião técnica em órgão federal. A PM diz que não atirou e tenta sugerir que os próprios invasores o teriam feito para criar vítimas na certeza de que o veredito da população, depois de Diadema, os favoreceria.
Sob o ponto de vista psicossocial estamos num cenário em que, a qualquer momento, o tecido institucional, já esgarçado, é rompido. A oposição, que não sabe tirar partido do melhor dos argumentos, aquele da venda dos votos, se perde ao dar cobertura aos desatinos selvagens dos imbecís que não enxergam a obviedade de que esse caminho não tem futuro.
Quais os limites da tolerância e os do revide? A reflexão é apropriada e dá para lembrar claramente o ocorrido no Peru: a primeira reação ao esmagamento do terror na Embaixada do Japão encheu a bola de Fujimori num momento em que se encontrava em queda. Ao haver a informação de que vários guerrilheiros teriam sido mortos quando haviam se rendido foi de tal impacto que houve uma queda de 15 pontos no Ibope do autoritário presidente.
A moderação é portanto um indicador de sabedoria. O presidente FHC não está absolvido ainda (e isso as pesquisas o demonstrarão) do episódio de compra e venda de votos porque está claro que o fisiologismo passou a ser uma constante das práticas do sistema. Ao indicar, porém, que vai reagir contra os abusos certamente há de ter colocado entre eles, caso comprovado, o problema da venda de votos revelado nas gravações.
Para complicar ainda mais o situacionismo o Plano Real começa a fazer água e o aumento de 8% nos preços do aço, a mexida nas tarifas, o garrote no consumo e a queda do PIB (com os corolários do desemprego e da recessão) favorecem a oposição, razão pela qual, se estiver disposta a respeitar as regras do jogo democrático, tem um tipo de munição bem mais eficiente, notadamente com o desgaste da venda de votos, para derrubar o governo a médio prazo do que o apoio aberto ou velado (este eticamente insuportável) à irracionalidade.
BIZARRICE Manchete do jornal A Tarde de Curitiba dos anos sessenta: Tensão na fronteira russo-chilena. Como dizia Jean Luc Godard A China é vizinha.
CHICAGO Curitiba está lembrando Chicago dos anos vinte: venda de segurança, comerciantes atendendo atrás das grades e agora um ataque a rajadas de metralhadora no Jardim Centenário na casa de assessor legislativo.
CASSAÇÃO Em 30 dias deve sair da Procuradoria para o TSE o processo de Requião e há um outro senador nas mesmas condições Romero Jucá de Roraima. Ex-ministro Vilasboas Correa funciona na acusação nos dois casos. Em ambos há a alegação de que os judiciários regionais perseguem os cassados.
ANAUÊ Não fosse a voz clássica e a declaração de Requião, anteontem, na Globo, pareceria em tudo o velho Plínio Salgado pregando revitalização patriótica. Nem todo espírito tem o médium que merece.
FOLCLORE O estafe do governo costuma culpar a imprensa por tudo. Se imperasse o regime militar estariam felizes porque ninguém saberia das indecisões de Lerner, mais frequentes do que as decisões. Contra a febre eles propõem a quebra geral dos termômetros. Só que antes verificam o quanto ela oscila em Celsius, Reaumir e Farenheit. Mas isso não é indecisão. É reflexão cultural de sintonia finíssima.
CROMO O baobá foi plantado no mini-planeta: as raízes, com o tempo, o acabaram esfacelando. Uma das muitas efabulações de O Pequeno Príncipe lança essa metáfora . A Folha do Paraná é um sinal apenas de que a sua fonte-nutriz, Folha de Londrina cresce com a pulsão de origem, aquela das cidades-cogumelo, e a têmpera ousada e não cerimoniosa, livre, dos pioneiros, para a missão integradora, física e cultural , de toda região. Uma floração mutante.
Quem não sabe ser fiel à sua origem não pode pretender a universalidade.





