Luiz Geraldo Mazza




O socialismo divide o PT
Realistas, pelo menos na perspectiva dos idealistas, dominam o PT. E onde medra a ideologia, o pensamento e a reflexão sofrem: criados dois pólos rigidamente antagônicos, mergulha-se no maniqueísmo. A tendência majoritária do PT entende que se houver um programa socialista nas eleições de 2002, a derrota seria fatal. A frase é de José Dirceu, presidente do partido, e cuja declaração foi vista como de agudo oportunismo.
Em primeiro lugar, não é fácil imaginar um programa socialista para o País, ainda mais depois de tudo o que aconteceu na sequência da Queda do Muro. Aliás, aqui é complicado imaginar uma democracia radical, a qual se referiu FHC no encontro sobre a terceira via, na Itália. O excesso de realismo pode levar à realeza e com ela o retorno da monarquia, pelo qual muitos se batem. Mas pensar o Brasil sob a forma socialista quando, a despeito dos seus imensos bolsões de pobreza, vivemos sob uma sociedade complexa com os sinais até do pós-industrial, não é algo fácil.
Isso não anula a legitimidade de buscar uma utopia e que possa ter justamente o caráter socialista, tanto como a pensaram os renascentistas Thomas Morus, Campanella e Francis Bacon, ou como os da linha ‘‘científica’’ ou tida como tal através de Marx, Engels. O que vai restabelecer a busca do socialismo, e isso em novos termos, que não indique ‘‘verdade revelada’’, o que desde logo aparece como anticientífico, é a asfixia do pensamento hegemônico atual, o do fundamentalismo econômico, e que se revela incapaz de dar respostas mínimas a questões não resolvidas no campo econômico ou social.
O PT, nosso mais bem articulado grêmio partidário, não pode cair no extremo de mostrar-se pragmático demais e negar a busca de alternativas, inclusive as derivadas do socialismo, e muito menos delirante ao aproximar-se de modelos peremptos como os do Estado Policial, dos gulags e nomenklatura, do centralismo excessivo e da ausência de pluralismo. Como há uma democracia a construir e que só se realizará com a superação do capitalismo, há também meios de chegar a formas socialistas de organização. Norberto Bobbio, no livro ‘‘Direita, Esquerda’’, localiza a primeira na busca da liberdade, e a da igualdade na segunda, e sugere uma tensão dialética.
O que não pode ser negada é a raiz socialista de partidos com o perfil do PT. Isso é inquestionável. Um horizonte socialista, buscado na democracia, e que negue ditaduras de classe, que não seja, portanto, totalitário, é mais do que possível para configurar o desejável.
Um dado importante é a necessidade de fugir a uma velha sedução das nossas esquerdas, nesse aspecto primitivas, a de acelerar o processo por formas de golpe, como o guincho ‘‘Fora, FHC’’, irracionalíssimo.



BIZARRICE
Essa contestação do PMDB ao direito de o PFL mostrar em seu programa partidário obras do governo Lerner é incrível porque a oposição insiste que a gestão é virtual, só de propaganda, e quando as realizações aparecem, ela quer retirá-las das tevês. Quer anulá-las pela censura, o caminho mais curto

AXIOMA João Amazonas é uma figura admirável pela persistência, mas imaginar que a Albânia fosse o farol do Universo é algo que só o lado mais satânico da ideologia pode engendrar. Como utopia, o planetinha do ‘‘Pequeno Príncipe’’, aquele perseguido pelas misses, é mais saudável.
GLOSA Agora só falta, para mostrar-se mais autêntico em sua italianice de circunstância, Jaime Lerner jogar ‘‘mora’’ com o pessoal de Santa Felicidade.
EPIGRAMA Uma das riquezas do Brasil é o futebol. Pelo que os dirigentes fazem com ele, sabe-se por que nosso país está na situação atual e caminha para o caos com a dilapidação.
SPRAY A necessidade de criar instâncias alternativas às formais é imperiosa: o Fórum do Orçamento de Curitiba condena a previsão de receita de R$ 1,58 bilhão (crescimento de 22,09%, relativamente ao exercício de 1999) como exagerada, sem fundar-se em expectativas de nível de atividade econômica. - Alerta para o risco das estimativas ampliadas de arrecadação que, quando não efetivadas, geram, em valor e percentual, possibilidades de remanejamentos de rubricas orçamentárias de um projeto ou atividade para outros, em valor significativo, sem a necessidade de prévia aprovação legislativa. - Enfim, o Fórum cumpre um papel que institucionalmente deveria caber à Câmara Municipal. Mostra, por exemplo, que em relação ao orçamento atual, crescem as operações de crédito em 417% , transferências de Capital em 493,66%, receita de contribuições (67,12%) e de serviços (26,86%). - Previsão de despesas para 99 apresentada na proposta orçamentária 2000, em valor revisto, totaliza R$ 1,3 bi, valor superior à arrecadação provável, de R$ 1,29 bi. - Londrina deveria aproveitar a onda cívica do momento (a devassa na gestão Belinati) para montar o seu Fórum do Orçamento e com isso criar instrumentos de prevenção. - Uma cidade que segue exemplo similar ao de Londrina é Araucária, com a prensa no prefeito e secretários pela tentativa de cobrança de uma obra fantasma, denunciada por duas associações: a de Defesa do Meio Ambiente e a dos Produtores Rurais.
FOLCLORE O governo pródigo de Lerner faz antecipação de receita junto aos contribuintes com o que perde moral para fiscalizá-los; quer também receber na frente os royalties de Itaipu e agora botar a mão no IPVA em três meses e não mais em dez, como era de praxe. Por que o governador não abrevia também o seu mandato e pula fora? Esse desconto talvez não fosse mal recebido.
CROMO A sociedade caminha, com tanto autoritarismo, para fazer com que as pessoas lembrem a postura dos animais empalhados nos museus. Só que caminhos para essa escravatura, sem intervenção do taxidermista.
AFORÍSTICO Governador: quer um desconto? Faça um vinte e um!

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