Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Divina comédia nostra
Publicitário se acha no direito de posar de criativo fazendo anúncios em cima da novela global Terra Nostra. A pobreza de espírito é acintosa e isso especialmente nos reclames de varejo com o papaguear italianado, bem pior do que o de Santa Felicidade, de automóveis, de macarrão (êta redundância) e de ternos do Frischman, il amicone, conforme o dialeto mercantile.
Esperava-se, porém, que no campo do governo, o que mais seduz a área até porque é a que dá os melhores retornos, as produções fossem mais depuradas e menos primárias. Pois não é que botaram no programa do PFL (dá para imaginar o arsenal de asneiras que está por vir na sequência e já transpondo os umbrais do ano 2000) o nosso governador, usando o linguajar noveleiro a pretexto de mostrar intimidades com os italianos, repicando o É vero, um dos estribilhos da Globo ao lado de dopo, eco, caspita, maledeto.
A perda do senso do ridículo ganha dimensão épica nos temerários desde o cavaleiro da triste figura de Cervantes, o Don Quixote, até o líder da guarda brancaleone, interpretado por Vitório Gasmann. Num caso desses, o da cena de Lerner mostrando sua empatia pelos italianos, e que não eram o João Cláudio Derosso ou o indefectível Algaci Tulio ou ainda o líder Valdir Rossoni, a coisa acaba transbordando porque até para o ridículo há limites que, no caso, foram de longe ultrapassados.
Para quem descobriu um clone do governador no anúncio da Skol, em que quatro senhores dão o brado de redondo, redondo como se estivessem, a um só tempo, exaltando a descida da cerveja e o perfil dos próprios corpos, diante de quem estaríamos na cena mambembe do PFL: um Marcel Marceau robusto, um Jô Soares intimista ou um brechtiano figurante do meio do povo?
Lerner é o ator mais importante da cena política paranaense e em nome das concessões populistas, que sabidamente não gosta por desajeitado, deveria ser poupado de cortejamentos do gênero a quadros próximos da bufoneria. Nos tempos clássicos, distantes do aggiornamento de agora, seria quebra de decoro.
BIZARRICE
O maior esforço que os deputados deveriam fazer, com as CPIs, é para mostrar que eles próprios e a instituição não são uma droga.
AXIOMA Que tal um bingo para saber se o Gionédis ou a oposição estão certos quanto à dívida do Paraná? Certa ocasião o Palácio Iguaçu admitiu que ela era de R$ 5 bilhões e passou o informe para o líder Rossoni e este, com o documento, quis refrear os contestantes. Agora o próprio governo admite mais R$ 5 bi. Dentro em pouco, antes do fim do ano, chegamos a R$ 15 bi.
GLOSA O besteirol tomou conta do futebol: essa mania de dividir o estádio entre duas torcidas é de uma estupidez monumental por negar o direito ao acesso aos neutros, aos que nada têm a ver com os times que jogam. É claro desrespeito ao direito ao consumidor.
EPIGRAMA Rafael Greca nunca foi de esporte e de turismo ninguém bate o líder do seu grupo, o governador Jaime Lerner.
SURPRESA Uma foto gigante do acampamento sem terra no Centro Cívico em contraste com a suntuosidade dos palácios públicos vai aparecer em publicação mundial. Como Lerner não queria a Universidade como símbolo de Curitiba, imagine-se o que pensa dessa investida no acampamento em detrimento do Jardim Botânico, do Ópera de Arame e dos parques municipais.
SPRAY Segundo analistas isentos, a oposição no Paraná só perde a eleição se acumular erros. Mas esse tem sido o seu papel, a não ser quando a situação se divide em mais de um candidato.- A pobreza dos quadros é o fato mais chocante do cenário: Requião e Alvaro Dias na suposta oposição e Cassio, se passar no teste da prefeitura pela segunda vez, é o único dos situacionistas. E depois há quem pergunte porque vamos tão mal.- Esperança do situacionismo reside na melhora geral da situação econômica e social (há sinais nessa direção nos níveis de empregabilidade, de atividade econômica e numa onda de suavização do processo recessivo com aquecimento das vendas natalinas) e do esvaziamento do discurso pessimista de oposição.- Um dos códigos de oposição na Internet é www.abusoautoridade.cjb.net, por onde circula a denúncia contra o diretor da Polícia Civil, Ricardo Képes de Noronha, numa enorme bronca em que se envolve também a secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil.- Por falar na OAB paulista ela foi quem conseguiu a liberdade do advogado preso pela CPI do Narcotráfico. Outro detalhe: o criminalista que obteve a medida, Laertes de Macedo Torrens, é velho conhecido do Paraná, desde os tempos de acadêmico.
SILOGISMO Havia, é claro, naquela cena do PFL em que Lerner se faz íntimo dos italianos algo adequado aquele país: a sacada era dantesca.
FOLCLORE Um dos macetes da propaganda é confundir a árvore com a floresta: pega-se o caso de um lavrador que deixou o Paraná, foi ao norte do país e retornou e tenta-se sugerir que aquilo é a generalidade, a nova direção dos movimentos migratórios. Assim se deu nessa história do italiano que foi e voltou sob o fundo musical da Elba Ramalho, com sua carga nordestina. É a ópera do italiano desengonçado, análoga ao samba do crioulo doido, da propaganda do Partido da Frente Liberal.
Só falta, numa sessão espírita, baixar o Dante Alighieri e dizer que esse anúncio supera muito o inferno e que tudo não passa de uma comédia nostra.
CROMO Pelo menos por enquanto a Parmalat não se apropriou do copo de leite, sob a forma vegetal de belíssima flor.
AFORÍSTICO Em política nem o fato de alguém ser submetido a um exame de DNA o livra de forma definitiva de ser chamado, no choque de paixões, de gay.





