Luiz Geraldo Mazza
Arthur Koestler mostrou que entre os homens há também uma espécie de espectro que vai do infravermelho ao ultravioleta como entre as ideologias. Deixou bem clara essa polarização no livro O iogue e o comissário, mostrando o extremo da contemplação e da renúncia oposto ao da denúncia e da cobrança. Obviamente, como um batalhador da liberdade e crítico do socialismo real fazia diante das duas posturas a pregação de racionalidade da procura de matizes entre pólos.
Deu para perceber ontem, em Curitiba, que Requião cada vez mais se aproxima da postura do comissário (aquele que no regime soviético era o delegado da segurança e, mais do que isso, dos valores), enquanto Lerner, pela inação e a insistência em postar-se em reflexão infinita diante de desafios pesados, lembra em tudo o iogue. Usei uma expressão forte, e com intenção pedagógica, num comentário da rádio CBN, para mostrar que a passividade do governador se aproximava da catatonia, aquele estado psiquiátrico em que o paciente fica tal qual uma estátua.
Requião disse em programação nacional que o Banco do Estado, antigamente uma instituição respeitável (as falhas anteriores ao seu governo e as cultivadas ao longo dele respondem por grande parte das suas dificuldades atuais e também ninguém esquece do vendedor de cachorro-quente em cujo nome havia operações de US$ 1 milhão diariamente no Banco del Parana), é hoje dirigido por uma quadrilha de ladrões. Insistiu na tecla de que Lerner quebrou o Estado e sugere, por via oblíqua, que ao bloquear empréstimos externos ao Paraná adota uma cruzada salvacionista. Obviamente ajuda a criar o caos, velha técnica, para depois aparecer como o salvador.
Um governo, manietado da forma extrema como o Senado o impõe e que é agredido dessa forma, tem a obrigação de reagir. E ao não fazê-lo acaba perdendo o respeito político. Se o acusador fosse uma vestal, um Catão de verdade, o governo, até por seus pecadilhos veniais, justificaria o imobilismo e a ausência de perspectivas. Não é o caso: Lerner tem documentação suficiente para colocar Requião em clinch e nocauteá-lo.
Em política, atitudes valem mais do que grandes obras. Álvaro Dias, ao aparecer na mídia nacional, como denunciante do cartel dos barrageiros no caso da hidrelétrica de Segredo e ao longo de uma guerra contra a CR Almeida, ganhou mais com o seu discurso do que com a obra em si. Seria impensável ver Lerner em tal situação.
Ninguém precisa aparentar ser o comissário para evitar a queda no outro extremo, no jeitão do iogue. FHC o demonstrou: fez discurso forte contra a selvageria da incitação à violência, obrigando os basistas do estilo Stédile a se explicarem, num momento em que seu governo é alvo da mais dura das crises com a questão da compra de votos para a reeleição. Um líder não é chefe de si mesmo, mas referência de um grupo e, por extensão, dos que o elegeram. Deve necessariamente comandar e não ser comandado pelos eventos e com isso motivar os que o apóiam. Isso não se dá com o governo Lerner, o que é uma traição contra os que nele confiaram. Inclusive neste escriba que nele votou aplicando o princípio de São Tomaz de Aquino do mal menor, como já havia feito com Requião.
BIZARRICE Povo que precisa de salvadores não merece ser salvo. Governo que faz do Joni Varisco o seu defensor (com essa amalucada ação popular contra o Senado para liberação dos empréstimos) não toma sorvete. Bate-os na testa.
SPRAY Aumento de 10% no aço pode provocar soluço inflacionário. Breque no consumo e importações também tira o senso de segurança no Real e num momento, o que é pior, de queda de credibilidade do presidente. - Cálculo em função da queda do PIB do primeiro trimestre indica que o ganho máximo, conforme o IBGE, será de 1,5% no ano e não de 4% como se projetava. Esses fatores podem alterar o quadro sucessório com reeleição. - Agora mais do que nunca, isso é fato geopolítico, FHC deverá fortalecer alianças com governos estaduais. Pode, de cara, significar a reentrada triunfal de Lerner no PSDB por desejo da cúpula, que tem projeto de maior fôlego do que os ódios de campanário. - Amanhã, na Direito de Curitiba, provas do concurso público, a partir das 8h30, de secretário para o Juizado Especial da Capital. 248 candidatos para 6 vagas. - Mostra o semanário Hora H que Álvaro Dias aparece em duas atas da Telepar com profissão diferente: uma como agropecurarista, outra como professor. Como Lula, sua ocupação maior é política profissional. - Esse debate sobre ocupação de Álvaro, provocado pelo Samek, produziu desgastes sérios no candidato. Quase tanto quanto a exibição da planta do apartamento no Wimbledon. Sacanagem, pois afinal o Samek também é meio riquinho. - Última prova de carga feita no Fórum, ou melhor no seu esqueleto, quase em decomposição, ali no Centro Cívico, levou muia gente a menear a cabeça em sinal negativo. -
FOLCLORE Sobre Atletiba vou contar uma: saí da casa do meu sogro, atleticano, no Juvevê e fui de bonde até o Joaquim Américo em companhia de Túlio Pereira, também, atleticano, isso 22 anos atrás . Ele supoz que por eu ser noivo de uma filha de atleticano fosse também rubro-negro quando sou coxa branca. Na entrada do estádio revelei minha preferência e o Túlio, inconformado, que levava um guarda-chuva, se colocou em posição de ataque como se fosse uma luta de esgrima e como se dissesse em guarda, seu traidor!. De repente, e de forma instintiva, fiquei defensivamente com meu guarda-chuva também. Nenhum dos dois havia escolhido padrinho. Ficamos ali em reflexão que nem o nosso governador.





