Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A guerra do pente
Comemoraram os 30 anos do milésimo gol do Pelé. Por que não fazê-lo com os 40 da Guerra do Pente, o tumulto em Curitiba, até hoje muito mal explicado em suas causas psicossociais, que botou a plebe rebelada nas ruas e que sitiou a cidade e que teve ainda uma componente racista, já que a massa só queria quebrar casas de comércio de árabes?
Magnetizado pela guerra fria, entrei no meio da patuléia e tentei, por várias vezes, dirigi-la para objetivos como o Interamericano, a sede da Usis (núcleo de propaganda norte-americana), telefônica, força e luz, inutilmente. O povo estava bronqueado com os turcos, na verdade os árabes, sírios e libaneses, ainda que a origem da tensão se desse por causa do Seu Talão Vale 1 Milhão para melhorar a arrecadação estadual, iniciativa do brimo Aníbal Khury.
O rádio-repórter Osman de Oliveira, da Cultura, fez uma cobertura tão grande que ampliou as dimensões da manifestação que saía do centro para os bairros. Era pau pra toda obra: sem o distanciamento brechtiano, deu a notícia que enquanto o povo era espaldeirado nas ruas, na casa do milionário Caluf, a elite festejava a sagração religiosa do padre Emir, filho da família. O povão foi até lá e quebrou o vidro do carro do comandante da 5ª Região Militar. Pouco depois, os carros blindados anunciavam o Exército nas ruas que poria fim ao clima de barricada que a PM não havia conseguido domar nem na porrada.
Um flash bem curitibano: as lagartas de um carro-tanque pifaram e no comando da viatura lá estava um major sem saber o que fazer, na esquina da Marechal Floriano com a Rua XV. É nesse momento que aparece o curitiboca prestativo e pergunta ao oficial: O senhor quer que a gente empurre?
OUTRA DE ÁRABE
Numa dessas conturbações coloniais, que alcançava a Síria e o Líbano, os árabes de Curitiba resolveram fazer manifestação contra os seus carrascos imperialistas com passeata e fechamento do comércio. A malta ia pela Rua XV aos gritos de fêcha, fêcha. As lojas, uma a uma, temendo o pior, cerravam as portas até que a multidão estacou diante do Louvre, o rei das sedas e imperador dos preços de Miguel Caluf. Miguel não fechou, mas botou um banquinho na calçada para a sua oratória: dirigiu-se em árabe e, logo às suas primeiras palavras, arrancou aplausos da multidão; na sequência, o discurso a levou à reflexão e, logo em seguida, à dispersão. O tira da Polícia quis saber como o empresário conseguira aquilo. Abriu o discurso dizendo que não basta a solidariedade a distância, ainda mais quando nossos irmãos precisam é de armas para enfrentar os imperialistas e dito isso, sob aplausos frenéticos, abriu uma lista de doações para a compra de material bélico com alguns milhares de dólares, moeda adequada e de valor. Dos murmúrios dos manifestantes, chegou-se à dispersão.
PRIVATIZAÇÃO Há uma verdadeira paranóia em torno da privatização, que virou a ideologia da moda. Qualquer iniciativa na área do ensino é assim encarada: aqui, como em vários pontos do Brasil, escolas públicas estão cobrando o que chamam de contribuição espontânea dos pais, quando se trata de prensa em cima de todos como se fosse uma ajuda.
Aliás, no meio da semana, o professorado (leia-se APP-Sindicato) ocupou a Secretaria de Educação. O presidente Romeu Miranda queria porque queria ser recebido por dona Alcione Salyba. Veio a piada inevitável: Essa Julieta não quer conversa com o Romeu.
ESPIRITISMO De repente me vejo numa sessão espírita aculturada entre a linha de mesa e cabocla. Um militar, que dirigia IPMs, pediu orações em favor de um seu colega, coronel, que fora assassinado por um sargento (que o acusava de seduzir-lhe a esposa), no Oeste paranaense. Não há caridade e compaixão que dêem respaldo para uma situação dessas e nisso não entra ressentimento.
O BALÉ No fundo, a música Spelbound, sucesso de filme, cria a atmosfera para essa moça de 18 ou 19 anos que dança balé só para mim. A mãe, orgulhosa, promove a cena em sua casa para me homenagear porque eu salvei, de um poço profundo, a mocinha que caíra no Rio Claro.
Ela é esguia, sensível, belíssima e sua coreografia uma oração comovente, que me afeta, como se a bailarina se doasse a mim e a mais ninguém. Às vezes, a lembrança do mergulho atrás da mocinha nas proximidades de um dique de represa na estância de Dorizon. Há um impulso de amor em meu gesto, mas também de culpa. Afinal, eu a conduzi em folguedos apropriados à idade dela e não à minha para as proximidades da margem.
A dança chega ao fim: seu último gesto lembra uma pétala de flor, alvíssima, flutuando delicadamente a rodopiar na torrente do rio, da qual eu a retirei como num gesto de batismo pagão.
MISTÉRIO Das fragilidades que mantenho até hoje uma delas é a magia: no escuro sai o vulto de dona Laura, espírita, cega, a me aplicar no queixo um líquido quente que vai diluindo o derrame na altura do ouvido.
Para a impinge, a velha preta resmunga, a boca flácida sem dentes: Impinge rabuja// que eu quero curar// com cuspo em jejum// alfavaca e sal!// Quantas vezes eu vi a terapia milagrosa fazer efeito.
Contra a íngua, havia um aparato mais sofisticado: tirava-se a cinza do fogão, àquele tempo à lenha, e era colocada numa lâmina de lata. A perna com a íngua era posta sobre a cinza. A curandeira vinha com uma faca e fazia o perfil do pé e perguntava O que é que eu corto? O doente respondia: Íngua, e ela replicava: Eu te corto, íngua, míngua, íngua, em uma, duas, três partes! E ia traçando cruzes na cinza. Pouco depois a gente buscava o sinal da íngua, indicador de infecção e defesa do organismo, na virilha, e tinha sumido.
NOSTALGIA Os rios, em que nadei e naveguei, o Itiberê em Paranaguá, o Barigui em Curitiba, estão podres: são um contraponto sólido demais para a lembrança.





