Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Cândido, não o de Voltaire
É um lugar-comum, clichê arraigado, literário e jornalístico, referir-se ao otimismo de Pangloss, aquele para quem tudo estava no melhor dos mundos, criação voltaireana do livro Cândido. Há um Cândido em Curitiba, oposto a essa visão conformista: o Candinho Gomes Chagas, da Paraná em Páginas. A revista, que de tanto atacar o lernerismo como tema preferencial, acabou apelidada de Paranóia em Páginas.
Quando carrego a bateria em cima do Lerner, muita gente, com o propósito da dissuasão, diz que estou virando um Candinho. A caricatura não me oprime ou aborrece: numa sociedade de acomodados e cúmplices é assim mesmo que tratam os resistentes. Ou tentam desfigurar o crítico pela anedota ou o tratam como louco. Pode-se não concordar com a forma de agir do Candinho, todavia não há como deixar de reconhecer que muitas vezes ele é o contraste. Processado por Lerner, que foi para coagi-lo até o SNI no regime militar, o jornalista está aí batendo firme no time de sempre.
Seus amores são maiores do que seus ódios. Tanto que trocou a hostilidade a Lerner pela promessa que lhe fizeram de reurbanizar a área solapada da Vila de Guaratuba e acabaram não cumprindo. Pela praia brigou com o megaempresário Cecílio Rego Almeida, que numa operação de paisagismo quase privatiza uma área de Guaratuba, e por ela conseguiu, no governo Richa, a Avenida Atlântica, como também equipou o hospital e a Apae do município.
Essas causas não são pessoais como a bronca a Lerner e ao brain (Maurício Schulman, Rischbieter e tantos outros). Quem desenterrou o bonde Birney, que depois de tantos anos saiu da oficina, que hoje enfeita Curitiba, foi ele. Para tanto, tirou o sono dos burocratas, prensou-os o tempo todo.
Pois o filão mais recente do Candinho é a telefonia, a empulhação de que os serviços melhorariam com a privatização quando, de um modo geral, pioraram, tanto nesse campo, quanto no da energia elétrica (vide apagões) e nessa outra sublime sacanagem dos pedágios nas estradas. É marcação cerrada em cima de cobranças indevidas, como o das chamadas não completadas.
Cada povo tem o Ralf Nader que merece. O nosso é o Candinho, que se fizer da defesa do usuário e do consumidor uma bandeira permanente, sem esquecer do Lerner, o seu carinho mais antigo, todos ganharemos. Dá-lhe, Cândido!
BIZARRICE
Um documento da OAB-PR acusa a prática rotineira de tortura na Polícia paranaense, especialmente na Furtos e Roubos. A tortura é um crime imprescritível, conforme a Constituição de 88. Pelo jeito, há entendimento de que tortura condenada é apenas a do constrangimento a preso político. Essa seria a tortura com charme; a outra, mais comum, seria aceitável. É por essas e por outras que a Segurança não quer devassas por aqui
AXIOMA Os abusos nas telecomunicações são tantos que já chamam a atividade de tefelonia por estar mais perto da felonia, em alguns casos, do que da telefonia. Felonia é o equivalente a perfídia.
GLOSA Se Lerner herdou 75% da dívida paranaense dos governos anteriores, por que só está falando nisso agora? Pior que o tamanho da dívida é o da dúvida.
EPIGRAMA Esse debate sobre orientação sexual nas escolas é inútil quando temos suruba no horário nobre e a picaretagem da erotização do consumo com valores como o da dança da bundinha. Na TV há instrução sexual. O que é passo mais adiante do que educação ou orientação.
SPRAY Se o gravador era a arma preferencial do aculturado Juruna e o vídeo o instrumento do PT pra flagrar agressões policiais, como a da milícia de Alvaro Dias contra os professores, há agora uma arma de patrulhamento mais terrível: a Internet. - Nela há dias os internautas se deliciam com informações pesadas, entre as quais a da prática da tortura contra advogados, a respeito do delegado-geral da Polícia Civil, João Ricardo Képes Noronha. - É claro que nem tudo que aparece na infovia é verdadeiro ou aceitável. O abuso com menores e a zoofilia estão aí para demonstrá-lo. Para o governo cooptar esse novo instrumento é mais complicado, já que nos casos dos meios de comunicação tradicionais se torna mais simples. - Noronha é uma figura polêmica, um dos melhores operacionais da corporação e que sabe que o ônus de ser acusado por aqueles que encarcerou é normal. - OAB de São Paulo dá apoio unânime ao advogado Leovegildo Rodrigues de Souza Júnior, que faz a grave acusação. No processo judicial, até aqui pelo menos, Noronha não foi condenado, embora um dos juízes tenha reconhecido a prática de tortura. - A crise paranaense era visível na pauta de ontem do Órgão Especial do Tribunal de Justiça: pedidos de intervenção em Curitiba, Assaí, Ivaiporã, Palotina, Toledo, Medianeira, Paranavaí e Rolândia. Maior parte dos feitos decorre de não pagamento de precatórios.
FOLCLORE Quem mente mais permanentemente e insolentemente do que o governo? Por isso é que assenta bem ao oficialismo o advérbio de modo terminado sempre no dissílabo mente, comumente com a força de uma definição.
CROMO Das utopias da adolescência, duas eram as mais fortes: o bordel das normalistas e o poço dos lambaris dourados. O primeiro, fruto de um pudor extremado e de um tempo de restrição sexual em que a imaginação voava; e o segundo, de uma natureza mais farta em que a realidade ia além da fantasia.
AFORÍSTICO Quando glamourizaram a luta da terra na televisão com a novela O Rei do Gado e o caso da Débora Rodrigues, a preocupação com o latifúndio perdeu lugar para a obsessão com o latibúndio.





