Dois fatos ocorridos quase simultaneamente induzem a uma dialética terrível: a de que, a qualquer momento, despertamos sob um governo no estilo de Fujimori, o da ditadura civil. O discurso do presidente FHC respondendo, com muita veemência, mas sem convencer, à acusação de que o seu governo está manchado pela compra de votos e a proclamação do líder do MST, João Pedro Stédile, pregando a mobilização da pobreza (através de ataques a terrenos baldios e saques a supermercados) num encontro oficial são convergentes.
FHC já é visto, até por seus amigos, como o filósofo José Arthur Gianotti, como um déspota, a quem não se pode adjetivar como ‘‘esclarecido’’. E isso é nítido na forma como comanda o processo político, a maneira como removeu obstáculos para impedir a CPI e o uso frequente das Medidas Provisórias.
Stédile, uma das figuras mestras do maior movimento social do país, o dos sem-terra, parecia ter assimilado um pouco da majestade presidencial ao sugerir que a pobreza imitasse os rituais da ocupação de terras no meio urbano. O tom não era pacífico e estava alinhado com o do Gilmar Mauro, que citou o episódio selvagem da Fazenda Borborema, do assassinato de um segurança, como um alerta aos fazendeiros.
Nem o presidente tem os poderes que imagina ao desprezar os de razão ética que o obrigariam a esclarecer amplamente a questão da compra de votos, muito menos os sem-terra para bravatas revolucionárias, a não ser que no delírio dos seus seguidores haja a idéia de que, a qualquer momento, como no estouro de uma boiada, se imobiliza o país com saques indiscriminados a supermercados, ocupação de terrenos baldios, enfim aquela visão primitiva de rebelião incabível nos dias de hoje, a não ser que a correlação de forças pendesse em favor da plebe organizada e pedindo justiça.
Com as palavras de Gilmar Mauro e de Stédile, mais o ato estúpido de Tamarana, com a execução do Django, ora examinada pela polícia (ao contrário do assassinato do Teixeirinha e dos três PMS em Campo Bonito, em que se tenta de tudo para levá-lo ao esquecimento), temos as pré-condições para que o modelo peruano de Fujimori chegue até nós muito antes do que se imagina. Como o presidente Fernando Henrique está com sua credibilidade minada pelo caso da compra de votos, a essa altura deve estar sendo aconselhado a abandonar a política de ‘‘fair play’’ com os movimentos sociais e partir para a pesada, ainda mais depois da denúncia pela tevê da picaretagem do Movimento Sem-Teto cobrando por áreas a invadir e operando como uma imobiliária.
Com o domínio dos meios de comunicação, o governo pode em pouco tempo tirar a imagem positiva do MST junto à população, ainda mais se suas lideranças abrirem caminho para o enrijecimento da ação oficial. Acreditar que a opinião pública ficaria contra o governo é um modo de esquecer a realidade de um país, trabalhado pela mídia e pelo medo, componentes para o fascismo, e que teve o massacre do Carandiru apoiado em pesquisa por esmagadora maioria da população consultada e seu comandante militar usou ainda o número 111 (a contabilidade dos mortos) para eleger-se em São Paulo.
Estamos num Estado de Direito Democrático e por isso nele é incompatível a Lei de Segurança Nacional, a anti-lei, que prevê como delito claro a declaração de Stédile. Mas nessa ordem há todos os meios para enquadrar o líder sem-terra por sua declaração que apenas fortalece a direita sem levar qualquer calor à esquerda e muito menos aos excluídos de um modo geral. Ela é geradora do medo e este o embrião do fascismo.
Como temos um presidente com todo o jeito de um iluminado, dá para imaginar o que pode acontecer: Fujimori com charme e ainda por cima intelectual, com jeitinho de Vargas Llosa e apoio popular, deitando e rolando à vontade. Como quase já acontece. Nesse novo quadro seria impensável a marcha dos sem-terra a Brasília e com aquela elegância esportiva. O governo aderna à direita e com ele a maioria, o que é mais trágico.
BIZARRICE Preocupado em levar ao extremo a sua identificação com Jânio, Ney Braga impediu que alguns seguidores montassem o comitê das duas espadas que era tocado por esquerdistas como José Augusto Ribeiro, Fernando Ferreira. Duas vassouras soariam mais civis e pacíficas.
SPRAY Deputado Luis Claudio Romanelli diz que o segredo das montadoras é de Polichinelo, pois todo o mundo conhece. Se assim for, Lerner pisa na bola outra vez dando nutrientes a Requião. - Feira do Livro resolveu abrir de graça após às 20h30. No mais, permanece a ordem do Virmond para evitar ‘‘maloqueiro’’. A feira do Paraná está para as outras do País como as festas de uva de Colombo e Santa Felicidade para a de Caxias. Que mente estreita! - Hoje um bisneto de Clotário Portugal, James Hamilton de Oliveira Macedo, toma posse como juiz de Direito da Comarca de Ipiranga. - Deputados e vereadores do PT fazem hoje na praça Rui Barbosa manifestações pela CPI da compra de votos, cassação dos deputados envolvidos e exoneração de Sérgio Motta. Não querem nada, hein? Mas é mais civilizado do que saquear supermercado e invadir, embora pareça um gesto impotente como foi a alaúsa em defesa da Vale do Rio Doce. -
FOLCLORE José Augusto Gomy era o orador da boca livre. Já idoso, costumava dizer nos seus discursos: ‘‘Sou um sol que não mais aquece’’. E todo o tempo lá estava ele no sepultamento dos colegas que morriam. Até que se foi também. E hoje quem lê suas crônicas ainda percebe que aquecem o coração de todos.

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