Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O confronto eleitoral
A ida do ministro Rafael Greca ao Senado, voluntariamente assumida por ele, dava a impressão do ingresso no cadafalso, com direito a oração e carrasco, de máscara, ajustando-lhe a corda ao pescoço. É que muito antes da oposição, teatral e raivosa, o próprio governo já o condenara com a iniciativa, dita na véspera da convocação pelo líder do governo na Câmara Alta, José Roberto Arruda, de exterminar com os bingos, ratificando projeto no mesmo sentido do senador Roberto Requião. Além disso, houve a assinatura da demissão do Luiz Antonio Buffara de Freitas, a quem se atribuia o comando das operações de liberação de bingos no Indesp.
Se isso não é prova de fragilidade política do Paraná, que dependeu uma vez mais de senadores de outros Estados, já que a bancada paranaense parecia integrada por um conselho do Santo Ofício, não há o que acrescentar. Aí reside o calcanhar-de-aquiles do grupo que está no poder: politicamente frouxo ao ponto de permitir a existência de bancada monolítica no Senado, quando detém o poder majoritário em outras instâncias, e de contar com quadros técnicos que a oposição dispersiva não tem, esse é um dos ônus para qualquer hipótese de uma candidatura presidencial de Lerner, que pode ser a melhor das alternativas, em termos de modernidade, do Partido da Frente Liberal.
O acusado apareceu, sob o ponto de vista de desempenho, melhor, bem melhor, do que os acusadores, apesar da situação constrangedora em que estava. Isso numa perspectiva teatral, como é o caso do júri popular ou de debates como o de ontem. O ataque é mais cômodo e ao gosto do público que adora fuzilamentos morais. Osmar Dias, bem melhor de vídeo e áudio do que o irmão, o mais contido sem deixar de ser agudo, e o Requião no mesmo papel de sempre, fazendo o gênero justiceiro, não ergueram a bola como os senadores governistas para Greca, mas forneceram nutrientes para que exercesse as suas habilidades epigramáticas, saques bíblicos e de cultura ornamental, em que é afinadíssimo.
Tudo isso tem significado relativo. O pesado virá da denúncia do Ministério Público federal. Em meio à sua defesa, já que se falava em lavagem de dinheiro do narcotráfico, o ministro sugeriu que se investigasse a hipótese na CPI já existente e que domina o noticiário.
BIZARRICE
O senador Matarazzo Suplicy é ligado em novela, tanto que acabou fazendo um merchandising pessoal em O Rei do Gado, quando da morte do senador virtual Caxias. Mas ao tentar mostrar intimidade com a trama da novela das 8, Terra Nostra, cometeu um erro ao atribuir a italianos o sequestro do bebê de Juliana, quando foi obra de uma dama paulista, conforme o ministro corrigiu. O curioso é que tanto Greca como o senador petista somam tradição (Suplicy, Macedo) com a etnia (Matarazzo e Greca), algo fundido no personagem Francesco e a esposa nobre e vilã
AXIOMA Se os senadores do PSDB, Alvaro e Osmar, tidos como da base aliada, usaram o argumento de que a máfia teria produzido uma Medida Provisória para proteger os bingos, atingiram o presidente FHC. É que este, como Greca, no argumento de Alvaro, contestando a autonomia do Indesp, é também responsável na mesma linha de raciocínio, e portanto cabe processo contra o presidente. E se assim foi, assim merece. Com esses aliados, o governo vai longe.
GLOSA Como espetáculo, o do Senado foi melhor que o da Assembléia Legislativa com a presença do secretário da Fazenda, quanto aos números da dívida estadual. Tanto Gionédis como a oposição chutaram. O Paraná lembra aquela descrição: o céu é azul e o mar está calmo, o Titanic suavemente desliza.
SARRO A senadora Marina Silva (PT-AC) abriu a sua interpelação ao ministro Rafael Greca declarando a sua pouca familiaridade com telenovelas. Na verdade, como sugeriu o próprio ministro, não se deve confundir Terra Nostra com a temível Cosa Nostra, também invocada no caso dos bingos.
SPRAY Governo chutador em tudo e oposição desatenta e pouco estudiosa. É a conclusão a que chegaria, ontem, qualquer pessoa medianamente inteligente, que tivesse ido à Assembléia para ouvir o Gionédis falar da dívida estadual. - O governo paranaense atual vai vender seus principais ativos (Banestado, Copel e possivelmente a Sanepar) para tapar o rombo que ele próprio produziu. Embora se acredite que números não se prestam à retórica, a manipulação é livre. - Um dado extravagante é o que pretende sugerir que, da dívida acumulada, 54% seriam de gestões anteriores a Lerner e a este se atribuiria apenas 15% do total. - A soma não fecha e parece conta de boate: os dispêndios com o saneamento do Banestado, quebrado neste governo, em meio à forte corrupção da Leasing e a incompetência da Corretora, são colocados em coluna à parte como se gerados, a um só tempo, no período atual e nos anteriores. - É a matemágica inseparável do governo publicitário, que não é característica apenas deste período. - Não dá para esquecer quando no segundo governo Ney Braga, a Copel, assumindo funções que eram do Ipardes, fez a previsão de 10 milhões de habitantes para o Censo de 80, quando mal chegamos aos 7,5 milhões. - O chute sempre foi uma constante dos governos e hoje a estrutura do Ipardes está menos equipada do que anteriormente. - Daí os sustos quando os gaúchos, que avançaram muito em indicadores regionais, publicam algo sobre o Paraná e que desmente o triunfalismo interno, seja em dados sociais ou econômicos.
FOLCLORE No caso da dívida estadual, dá para lembrar a piada de Arapuã sobre o salário mínimo: O patrão acha muito, o empregado acha pouco e o governo acha graça!. Aqui a oposição acha muito, o governo acha pouco e nós, feito palhaços, não achamos graça. Também acha que a dívida maior é dos governos anteriores, o que é contestado pela oposição. O fato é quem paga é o povo.
CROMO O povo ficou sem ver a chuva de meteoros, o que não impediu que muitos sofressem de meteorismo, gases nada poéticos, é claro.
AFORÍSTICO Tanto na ida do Greca ao Senado como na do Gionédis ao Legislativo estadual, tudo ficou como se esperava: a oposição e o governo se dizem vencedores. E nos dois casos mais uma vez o vencido foi o povo.





