Luiz Geraldo Mazza
O Estado cúmplice
Por omissão, pode-se chamar o Estado, ente público, de cúmplice. E há uma oportunidade para identificarmos a extensão do fenômeno no Paraná com a chegada até aqui da CPI do Narcotráfico. É que a complexidade do delito, com seus ramos multidisciplinares, serve para checar toda estrutura policial: roubos de carros, de caminhões, máquinas agrícolas, mercadorias, desmanches, sequestros, assalto a blindados de empresas de seguranças, cada um desses nichos têm uma elasticidade reveladora.
Mas a caracterização, por via de extrema tolerância, pode ser feita em outras questões públicas como se vê na irresponsabilidade com que o Estado cumpre as suas responsabilidades de custódia sobre os sentenciados. Ontem, a reportagem desta Folha tratou do caso paradigmático da condenação do governo pelo assalto ao professor Ivo Mezzadri, ex-diretor do Cefet, perpetrado por alguns evadidos da Penitenciária Central. É claro que isso vai se arrastar por muito tempo, dada a característica incidental do direito processual, mas a sentença firma o princípio óbvio de que ao Estado e a mais ninguém cabe responder pela fuga de presos e as consequências dos atos que venham a praticar.
Lembro que uma vez, num rasgo típico de demagogia e teatralidade, o então governador Alvaro Dias se insurgiu contra uma sentença judicial que mandava reparar os prejuízos sofridos pelo joalheiro Magnus Kaminski, que fora assaltado por evadidos da penitenciária. A liberdade de movimentos nas unidades prisionais, às vezes facilitadas para o ir e vir, não é novidade no Brasil e isso só pode se dar pela cumplicidade, por ação ou omissão, de agentes públicos.
Ora, também o crime organizado, especialmente o tráfico, age nas prisões, tanto que aí é visível, quase com as características de uma guerra focal, o desempenho de núcleos terroristas como os do Comando Vermelho e Segundo Comando. Quando da cruzada contra o jogo do bicho no Rio (alguns daqueles chefões como o Miro e o Capitão Guimarães, este um torturador de 64, andaram por aqui no governo anterior e o primeiro chegou a montar um cassino em Foz do Iguaçu, fechado pelo delegado Aprígio Cardoso, hoje em Maringá), percebeu-se a capilaridade alcançada com as ações nos presídios.
Por isso é indispensável que a CPI nacional chegue até aqui. A local, a do nosso Legislativo, não é confiável pela tradição.
BIZARRICE
A Valéria Palombo, no Correio de Notícias, iniciava carreira de jornalista na área cultural, ligadíssima em underground. Num dia, o Cícero Catani, diretor do jornal, resolveu dispensá-la e ela, com um ar desafiador, tão undigrudi quanto suas preferências jornalísticas, tascou: Espero ainda encontrar o senhor na fila do Sine (Sistema Nacional de Emprego). Acertou parte da profecia: o jornal fechou e todos fomos para a tal fila.
AXIOMA Provincianismo é um processo redutor. Ontem, no jogo da Seleção, que se prepara para o Pré-Olímpico, os Coxas tiravam sarro dos atleticanos: Foi preciso tirar os dois atleticanos (Adriano e Varley) e botar mais um coxa (Alex junto com Mozart) para o Brasil empatar com os australianos.
GLOSA Clima prévio da convocação de Greca é tenso. Requião, acusado por Rafael de haver feito circular vídeos contra o ministro, replicou: Não nutro amor nem ódio por ele. Em certo aspecto até o admiro. Acho que ele daria um grande apresentador de baile de debutantes. Requião está querendo tirar mais um emprego do Carlos Marassi. Outro ele tirou no governo. Mais adiante: Pensando bem, acho que no fundo o Rafael me ama, porque amor e ódio são muito próximos. O senador deve estar odiando que lhe falem em dólares. E aí não há lugar para ambivalência com o amor.
URBE RUGE Curitiba precisava aprender com Londrina ao agir cívico. A devassa nos órgãos da prefeitura engajou toda a sociedade. Isso deveria ocorrer aqui agora na questão da nova lei de zoneamento. É legítimo que entidades interessadas no mercado (é o caso das dez que se manifestaram contra) oponham restrições ao plano de usos do solo, desde que não pretendam tutelar a sociedade e subordiná-la ao fundamentalismo econômico, o fascismo da moda.
Não é verdade o que dizem as entidades: houve discussão sobre a matéria e participei, como convidado, de duas delas, nos três últimos anos. Só que não houve esse detalhamento que operaria como repelente aos interessados.
A nova concepção de diminuir a área construída em nome da qualidade de vida de Curitiba é válida, embora se reconheça que o eixo de transporte, pelo trinário, visava adensar a ocupação e que responde pelas muralhas erguidas e isso não aconteceu na escala esperada.
O artifício de criar um novo espaço, ainda que indicado anteriormente no Plano Diretor de Curitiba, na BR-116 é um tanto quanto delirante em termos de tempo, vale dizer cronograma. O artefato bolado para justificá-lo é tão discutível quanto o superbonde do Ficinski como o Veículo Leve sobre Trilhos, da dupla Lerner-Taniguchi. A substituição de trambolho não legitima a operação, na qual o metrô elevado mais parece um Cavalo de Tróia.
Mais debate, sim. A pressa é coisa de corsário.
FOLCLORE Se o Ibope for parecido com seu dono, o Montenegro, fujamos dele: quando o Gama entrou com ação na Justiça, o ibopeano disse que futebol se vence no campo, o que o Botafogo, seu time, não conseguiu. Se os critérios do Ibope tiverem a subjetividade do Montenegro, é de botar fogo no pedaço.
CROMO Do Palácio Iguaçu, o áulico viu a chuva de meteoros e se emocionou: o chefe está cada vez melhor!
AFORÍSTICO O Ministério Público pediu o enquadramento de Rafael Greca no crime de improbidade. Já vimos este filme antes, tempo de Collor, com o Alceni Guerra, e deu no que deu.





