Luiz Geraldo Mazza




Apoteose no céu
Quem ficar de olho na madrugada de amanhã poderá assistir, se tudo estiver nos conformes, já que volta e meia os astrônomos quebram a cara, uma chuva de meteoros entre 3 e 5 e meia da matina. Um pouco mais tarde, mas também com a aura que o acompanha, o ministro Rafael Greca, do Esporte e Turismo, presta depoimento ao Senado. O ministro paranaense vai viver o que Sartre chamava de uma situação-limite, pior do que um vestiba, já que o presidente FHC deixou claro que a permanência no primeiro escalão dependerá basicamente do desempenho na Câmara Alta.
A oposição olha o ministro como uma fruta madura, pronta para cair do galho e, se usar a linguagem e as imagens da astronomia, dirá que se trata de um caso típico de estrela cadente ou, em metáfora mais piedosa, de um cometa de cauda fosforescente. Há muitos que apostam nos talentos inegáveis de Rafael: o brilho da retórica, a alegria transbordante, o totalitarismo carnavalesco, sua capacidade de esgrimista com habilidades de um Dartagnan, ainda que com o corpo de um sargento Garcia. É, no entanto, nessa habilitação para transfigurar a realidade que a situação aposta. Já a oposição acredita, especialmente a da bancada paranaense, que o rebuscamento e o dado barrococó é que o derrubarão.
Prevê-se para o aguardado fenômeno celeste nada menos de um meteoro por minuto, quando a quantidade normal de meteoros visíveis é de cinco a dez por hora. Dá a impressão que se trata de um prólogo da ida ministerial ao Senado. A oposição acha que será seu grande momento, especialmente a da bancada paranaense, mobilizada para dar o empurrãozinho que lançaria o ministro no abismo, apesar da chuva de meteoros.
O governo estadual vai depender do PFL, apesar de que a solidariedade aqui pareça menor do que a nacional. Aliás, dele dependeu quando da aprovação dos empréstimos bloqueados pela maioria da bancada paranaense e também na queda da CPI que estava armada sobre os bingos, desfeita com a desistência de vários senadores que haviam atendido à solicitação de Osmar Dias.
Exagerados situacionistas acreditam que Rafael brilhará mais que os meteoros. Menos por seus talentos inegáveis do que pela pobreza oposicionista. Já esta, age como os meninos no tempo em que era politicamente correto matar passarinho ao assinalarem na madeira do estilingue a marca dos abates. Para ele, Rafael Greca já era, e nada o salvará nem que surja do espaço, trajado de anjo barroco, em meio a cataratas meteóricas.



BIZARRICE
O apelo de FHC ao público para resistir a aumentos de preços e não pedir reajuste de salários é ridículo. Maior causador da alta, que está por aí, é o governo federal com as tarifas públicas, e ele fala como se nada tivesse a ver com o que está ocorrendo no País

AXIOMA O Legislativo paranaense decidiu criar a comissão para analisar o narcotráfico e dessa forma fez esquecer o extravio da correspondência que havia sido encaminhada pela CPI nacional. Se questões menores como a das jaquetas coreanas soterram com a maior facilidade, dá para imaginar a seriedade com que tal assunto será encarado.
GLOSA A volta às origens: os sindicalistas do Banestado fizeram sua assembléia ontem, na Sociedade Treze de Maio, na Capital. Tanto ela como a Sociedade Protetora dos Operários (o celebrado Ópera Rio) foram na origem a instância de defesa dos trabalhadores. Depois deram ênfase aos bailes.
SPRAY O ministro Rafael Greca não está apenas enfrentando o cerco político por causa dos bingos. Fitas de vídeo, que já deram margem a processo criminal de Greca contra Requião, são distribuídas em Brasília. Made in Paraná, claro. - Um depoimento testemunhal chegou a ser registrado em cartório, mas sua circulação foi impedida pelo Judiciário, como também a fita. - Como se vê, há o empenho para fragilizar o ministro paranaense antes do seu depoimento. - Razões mercantís não são as do conjunto da sociedade: ‘‘lobbies’’ organizados da construção civil querem impor os seus interesses no projeto de usos de solos de Curitiba. Aliás, como sempre acontece, razão pela qual o mapa de valores imobiliários da cidade flutua ao sabor de ventos ocasionais. - A pressão agora dos sindicatos vai ser em cima dos vereadores e a prefeitura vai ter que mobilizar argumentos para defender o que pretende a Sorbone do Juvevê (Ippuc). - Quem apareceu ontem, na Assembléia Legislativa, foi o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, para botar ‘‘lubrax’’ na tramitação da mensagem sobre os royalties de Itaipu. A oposição achou frágil a exposição e o situacionismo gostou. Bem em acordo com a mediocridade política do Paraná, que já não parece se constituir num período, e sim numa era. - Último feriadão provou, outra vez, que não damos pra saída em turismo: quem esteve em Camboriú (SC), e Guaratuba (PR), sabe por quê. - Enquanto cultuamos fantasias como as divulgadas no congresso da Abav, a Bahia, que estava abaixo de nós, bateu todos os recordes dos últimos dez anos, entre janeiro e maio: Salvador recebeu 530.496 turistas, dos quais 461.861 brasileiros. - Entre embarcados e desembarcados, passou de 248,9 mil para 318,4 mil entre janeiro a junho de 98 para 99.
FOLCLORE Da mesma forma que o jornalista Abdo Aref Kudri lançou a frase ‘‘Parabéns, doutor, estou sabendo de tudo’’ muito antes de ‘‘O Analista de Bag钒, do Veríssimo, o jornalista Pedro Stenghel Guimarães saiu na frente do Saraiva, da Globo, com a ‘‘tolerância zero’’. Um dia, o Pedro mudava o pneu do carro na estrada e o amigo chato veio com a pergunta: ‘‘Furou?’’ Resposta: ‘‘Não. É que eu já estava enjoado de usar o mesmo pneu.’’
CROMO A vela pinga na cruz das almas: o espermacete flui sob o calor como um relógio que pretende o cronograma da eternidade.
AFORÍSTICO O ministro paranaense vai ao Senado. Advinhem qual a bancada que tentará massacrá-lo, apenas para reafirmar o mito da autofagia? A nossa, como é da tradição e de acordo também com os fados.

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